sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Agronegócio

Goiás avança entre os estados mais afetados pela alta das recuperações judiciais

Crédito caro, juros elevados, queda no preço das commodities e desaceleração econômica pressionam empresas e produtores rurais. O Estado é o segundo do País em pedidos de recuperações judiciais no agronegócio

Letícia Leitepor em
Goiás avança entre os estados mais afetados pela alta das recuperações judiciais
Recuperação judicial deixou de ser vista apenas como último estágio da crise e passou a ser utilizada como estratégia para reorganização financeira. Foto: Valter Campanato/ABr

O avanço das recuperações judiciais no Brasil passou a refletir de forma direta na economia goiana. Embora Goiás mantenha crescimento impulsionado pelo agronegócio, pela indústria e pelo setor de serviços, o Estado também aparece entre os mais afetados pelo aumento da pressão financeira sobre empresas e produtores rurais. 

Dados da Datatech Serasa Experian mostram que Goiás registrou 296 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, número que coloca o Estado na segunda posição nacional, atrás apenas do Mato Grosso.

O cenário acompanha uma escalada nacional inédita. Em todo o País, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio ao longo de 2025, recorde histórico da série iniciada em 2021. O volume representa aumento de 56,4% em relação ao ano anterior, quando haviam sido contabilizados 1.272 processos.

Especialistas apontam que a combinação entre juros elevados, crédito mais restrito, aumento dos custos de produção, retração econômica e problemas climáticos agravou o endividamento em diferentes setores. Em Goiás, o impacto aparece principalmente no campo, mas já atinge também empresas do comércio, da indústria e da cadeia de serviços ligada ao agro.

Segundo Rafael Brasil, advogado especialista em recuperação judicial o crescimento dos pedidos não significa necessariamente aumento de falências, mas uma mudança no comportamento das empresas diante da crise financeira.

“A recuperação judicial não deve ser vista apenas como o último estágio da crise. Em muitos casos, ela funciona como ferramenta de reorganização financeira e operacional. O problema é que muitas empresas ainda chegam tarde ao processo, já extremamente pressionadas por execuções, bloqueios e falta de capital de giro”, afirma.

Nos últimos anos, muitas empresas expandiram operações em um ambiente de juros historicamente baixos e maior facilidade de crédito. Com a alta da taxa Selic e o encarecimento dos financiamentos, companhias de diferentes portes passaram a enfrentar dificuldades para honrar dívidas e manter fluxo de caixa.

No agronegócio, a situação ganhou contornos ainda mais severos. Goiás, um dos principais produtores de soja, milho, carne bovina e cana-de-açúcar do País, sofreu forte impacto da queda no preço das commodities agrícolas, além de problemas climáticos que afetaram a produtividade das últimas safras.

Segundo o gerente técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Edson Novaes, a combinação entre redução da rentabilidade e aumento dos custos de produção comprometeu a capacidade financeira dos produtores rurais.

“A queda nos preços das principais commodities nas últimas safras, juntamente com o aumento dos custos de produção, impactam também na renda e na capacidade de pagamento dos produtores, impedindo que muitos conseguissem honrar seus compromissos financeiros e continuar produzindo”, explica.

Além da queda na renda, produtores enfrentaram secas prolongadas e períodos de chuvas intensas que provocaram perdas de produtividade em várias regiões do Estado. O resultado foi o aumento da inadimplência rural. Levantamento da Faeg aponta que, no fim de 2025, a inadimplência da carteira de crédito rural em Goiás chegou a 6,48% do total disponibilizado ao setor, estimado em cerca de R$ 80 bilhões.

O aumento das recuperações judiciais também passou a preocupar entidades do setor por causa dos impactos sobre o crédito rural. Com mais produtores endividados, bancos e instituições financeiras adotaram postura mais cautelosa na concessão de financiamentos, fator que dificulta ainda mais o acesso a recursos para custeio e investimento.

Para o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (Aeago), Fernando Barnabé, a recuperação judicial é um instrumento legítimo para evitar a paralisação das atividades, mas o crescimento acelerado dos pedidos exige atenção. “É uma forma legítima de reorganizar as finanças, mas o aumento dos casos exige atenção porque pode afetar o sistema de crédito rural”, destaca.

Os produtores rurais pessoas físicas lideraram o número de pedidos de recuperação judicial no País em 2025, com 853 solicitações. Já os produtores organizados como pessoa jurídica apresentaram o crescimento mais acelerado, passando de 409 pedidos em 2024 para 753 no último ano. Empresas da cadeia do agronegócio, como agroindústrias, cooperativas e companhias de serviços agrícolas, também registraram aumento expressivo nos processos.

Apesar do avanço dos pedidos, o especialista afirma que a recuperação judicial passou a ser utilizada como mecanismo de preservação da atividade econômica, manutenção de empregos e renegociação organizada de dívidas.

“A legislação brasileira oferece ferramentas importantes para preservar empresas viáveis, manter empregos e permitir uma reorganização ordenada das dívidas. Quanto antes a empresa busca reestruturação, maiores são as chances reais de recuperação”, afirma Rafael.

A expectativa do mercado é de que os pedidos de recuperação judicial permaneçam elevados ao longo de 2026, especialmente enquanto o ambiente econômico continuar marcado por crédito caro, baixa liquidez e dificuldades de financiamento para empresas e produtores rurais.

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