Agronegócio

Goiás avança entre os estados mais afetados pela alta das recuperações judiciais

Crédito caro, juros elevados, queda no preço das commodities e desaceleração econômica pressionam empresas e produtores rurais. O Estado é o segundo do País em pedidos de recuperações judiciais no agronegócio

Letícia Leitepor Letícia Leite em 23 de maio de 2026
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Recuperação judicial deixou de ser vista apenas como último estágio da crise e passou a ser utilizada como estratégia para reorganização financeira. Foto: Valter Campanato/ABr

O avanço das recuperações judiciais no Brasil passou a refletir de forma direta na economia goiana. Embora Goiás mantenha crescimento impulsionado pelo agronegócio, pela indústria e pelo setor de serviços, o Estado também aparece entre os mais afetados pelo aumento da pressão financeira sobre empresas e produtores rurais. 

Dados da Datatech Serasa Experian mostram que Goiás registrou 296 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, número que coloca o Estado na segunda posição nacional, atrás apenas do Mato Grosso.

O cenário acompanha uma escalada nacional inédita. Em todo o País, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio ao longo de 2025, recorde histórico da série iniciada em 2021. O volume representa aumento de 56,4% em relação ao ano anterior, quando haviam sido contabilizados 1.272 processos.

Especialistas apontam que a combinação entre juros elevados, crédito mais restrito, aumento dos custos de produção, retração econômica e problemas climáticos agravou o endividamento em diferentes setores. Em Goiás, o impacto aparece principalmente no campo, mas já atinge também empresas do comércio, da indústria e da cadeia de serviços ligada ao agro.

Segundo Rafael Brasil, advogado especialista em recuperação judicial o crescimento dos pedidos não significa necessariamente aumento de falências, mas uma mudança no comportamento das empresas diante da crise financeira.

“A recuperação judicial não deve ser vista apenas como o último estágio da crise. Em muitos casos, ela funciona como ferramenta de reorganização financeira e operacional. O problema é que muitas empresas ainda chegam tarde ao processo, já extremamente pressionadas por execuções, bloqueios e falta de capital de giro”, afirma.

Nos últimos anos, muitas empresas expandiram operações em um ambiente de juros historicamente baixos e maior facilidade de crédito. Com a alta da taxa Selic e o encarecimento dos financiamentos, companhias de diferentes portes passaram a enfrentar dificuldades para honrar dívidas e manter fluxo de caixa.

No agronegócio, a situação ganhou contornos ainda mais severos. Goiás, um dos principais produtores de soja, milho, carne bovina e cana-de-açúcar do País, sofreu forte impacto da queda no preço das commodities agrícolas, além de problemas climáticos que afetaram a produtividade das últimas safras.

Segundo o gerente técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Edson Novaes, a combinação entre redução da rentabilidade e aumento dos custos de produção comprometeu a capacidade financeira dos produtores rurais.

“A queda nos preços das principais commodities nas últimas safras, juntamente com o aumento dos custos de produção, impactam também na renda e na capacidade de pagamento dos produtores, impedindo que muitos conseguissem honrar seus compromissos financeiros e continuar produzindo”, explica.

Além da queda na renda, produtores enfrentaram secas prolongadas e períodos de chuvas intensas que provocaram perdas de produtividade em várias regiões do Estado. O resultado foi o aumento da inadimplência rural. Levantamento da Faeg aponta que, no fim de 2025, a inadimplência da carteira de crédito rural em Goiás chegou a 6,48% do total disponibilizado ao setor, estimado em cerca de R$ 80 bilhões.

O aumento das recuperações judiciais também passou a preocupar entidades do setor por causa dos impactos sobre o crédito rural. Com mais produtores endividados, bancos e instituições financeiras adotaram postura mais cautelosa na concessão de financiamentos, fator que dificulta ainda mais o acesso a recursos para custeio e investimento.

Para o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (Aeago), Fernando Barnabé, a recuperação judicial é um instrumento legítimo para evitar a paralisação das atividades, mas o crescimento acelerado dos pedidos exige atenção. “É uma forma legítima de reorganizar as finanças, mas o aumento dos casos exige atenção porque pode afetar o sistema de crédito rural”, destaca.

Os produtores rurais pessoas físicas lideraram o número de pedidos de recuperação judicial no País em 2025, com 853 solicitações. Já os produtores organizados como pessoa jurídica apresentaram o crescimento mais acelerado, passando de 409 pedidos em 2024 para 753 no último ano. Empresas da cadeia do agronegócio, como agroindústrias, cooperativas e companhias de serviços agrícolas, também registraram aumento expressivo nos processos.

Apesar do avanço dos pedidos, o especialista afirma que a recuperação judicial passou a ser utilizada como mecanismo de preservação da atividade econômica, manutenção de empregos e renegociação organizada de dívidas.

“A legislação brasileira oferece ferramentas importantes para preservar empresas viáveis, manter empregos e permitir uma reorganização ordenada das dívidas. Quanto antes a empresa busca reestruturação, maiores são as chances reais de recuperação”, afirma Rafael.

A expectativa do mercado é de que os pedidos de recuperação judicial permaneçam elevados ao longo de 2026, especialmente enquanto o ambiente econômico continuar marcado por crédito caro, baixa liquidez e dificuldades de financiamento para empresas e produtores rurais.

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