Gastos com segurança crescem 66% em 10 anos e ampliam pressão sobre prefeituras
Levantamento da CNM mostra avanço acelerado das despesas municipais com segurança pública no Brasil
Os gastos dos municípios brasileiros com segurança pública cresceram 66% na última década, segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Os investimentos saltaram de R$ 7,5 bilhões em 2016 para R$ 12,4 bilhões em 2025, um aumento de aproximadamente R$ 5 bilhões no período.
O estudo aponta que o crescimento foi impulsionado principalmente pela ampliação das guardas municipais, investimentos em monitoramento urbano e ações relacionadas à prevenção de desastres ambientais. O tema deve ganhar destaque durante a XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, promovida pela CNM entre os dias 18 e 21 de maio, quando a entidade pretende discutir o cenário da segurança pública com pré-candidatos à Presidência da República.
Os números revelam que o avanço das despesas municipais ocorreu em ritmo muito superior ao registrado pelos demais entes federativos. Enquanto os municípios ampliaram os gastos em 66%, os investimentos da União cresceram apenas 12% no período, passando de R$ 13,2 bilhões para R$ 14,8 bilhões. Já os Estados tiveram aumento de 25%, saindo de R$ 114,3 bilhões, em 2016, para R$ 143,29 bilhões em 2025.
Na avaliação de especialistas, o cenário mostra uma mudança prática na estrutura da segurança pública brasileira. Embora a Constituição Federal concentre a responsabilidade da segurança nos Estados e na União, os municípios passaram a assumir papel cada vez mais ativo no enfrentamento da violência urbana e da desordem pública.
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Em Goiás, os investimentos em segurança pública também apresentaram crescimento significativo. Dados do Tesouro Nacional mostram que o Estado registrou aumento de 11,3% nos gastos na área entre janeiro e outubro de 2025. O índice coloca Goiás entre os dez Estados que mais ampliaram investimentos em segurança pública no período.
Segundo o levantamento, a política de segurança adotada pelo Estado prioriza ações de policiamento ostensivo, aquisição de armas, equipamentos e fortalecimento das forças de segurança.
O crescimento dos investimentos na área ocorreu em 18 Estados brasileiros. O Rio de Janeiro lidera o ranking nacional, com alta de 20,9%, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 18,1%, e Alagoas, com 18%. Goiás aparece entre os Estados onde os investimentos em segurança superaram os gastos proporcionais em áreas como saúde e educação.
Em quatro Estados, Amapá, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Roraima os gastos com segurança ultrapassaram, inclusive, a soma dos investimentos destinados à saúde e à educação. Nacionalmente, a segurança pública teve crescimento real de 4,8%, acima da educação, que registrou alta de 1,5%, e da saúde, com avanço de 4,1%. Atualmente, a área representa cerca de 9,5% das despesas totais dos Estados.
Para o advogado criminalista Diego Rodrigo, o aumento dos gastos municipais revela uma transferência gradual de responsabilidades para as prefeituras, mesmo sem mudanças formais no pacto federativo brasileiro.
Segundo ele, a população passou a cobrar diretamente dos prefeitos respostas rápidas para problemas relacionados à violência urbana, furtos, segurança escolar, ocupação irregular de espaços públicos e situações de risco coletivo.
“O município é o ente mais próximo do cidadão e acaba sendo pressionado a agir, mesmo quando a responsabilidade estrutural da segurança continua concentrada nos Estados e coordenada, em certa medida, pela União”, afirma.
O especialista avalia que a ampliação da atuação municipal ocorre principalmente pela insuficiência das respostas estaduais em determinadas regiões e pela expansão do conceito de segurança pública, que hoje vai além da atividade policial tradicional.
“Para o gestor municipal, investir em guarda, monitoramento, iluminação pública, defesa civil e prevenção gera uma resposta visível para a população”, destaca.