terça-feira, 19 de maio de 2026
Natureza

Ataque de onça a criança na Chapada levanta alerta sobre impactos ambientais

“Com menos alimento e menos espaço, os felinos ampliam áreas de deslocamento e aumentam encontros com humanos”, afirma biólogo sobre ataque

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 19 de maio de 2026
Onça
Divulgação/IEF

O ataque de uma onça-parda a uma menina de 8 anos na região da Chapada dos Veadeiros reacendeu o debate sobre os impactos ambientais no Cerrado e os riscos da aproximação entre humanos e grandes predadores. O caso aconteceu no dia 14 de maio, no Santuário Volta da Serra, em Alto Paraíso de Goiás, enquanto a família retornava de uma trilha de acesso à Cachoeira do Cordovil. 

Segundo relatos, o animal estava em cima de uma árvore e saltou sobre a criança, atingindo principalmente o rosto da menina. Os pais e um funcionário do local conseguiram interromper o ataque usando uma mochila para espantar o felino, que fugiu para a mata. A vítima recebeu atendimento inicial em Alto Paraíso e, posteriormente, foi transferida para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran), em Brasília, onde passou por cirurgia plástica e segue internada em estado estável.

Apesar da repercussão, o analista ambiental Luís Neves, explicou que o incidente não ocorreu dentro da unidade de conservação administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “O incidente foi num atrativo particular chamado Cachoeira do Cordovil, na Fazenda Volta da Serra. Não foi dentro da área do parque nacional”, afirmou. 

Segundo ele, também não existem registros semelhantes na região. “Conversei com várias pessoas e ninguém aqui na Chapada nunca ouviu falar de ataque de onça a pessoas”, destacou. 

Neves explicou ainda que o parque possui um sistema de gestão de segurança baseado em normas da ABNT e que qualquer ocorrência registrada dentro da unidade precisa ser formalizada pela concessionária responsável pelas operações turísticas.

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Especialistas apontam pressão ambiental sobre o Cerrado

Mesmo sendo considerado um episódio raro, o comportamento do animal chamou atenção dos especialistas porque o salto vindo da árvore pode indicar um movimento típico de caça. Pesquisadores reforçam, no entanto, que isso não significa que onças tenham passado a enxergar humanos como presas habituais.

Segundo o biólogo Hélcio Marques Júnior, ataques de grandes felinos geralmente acontecem em circunstâncias excepcionais, como fome extrema, proximidade excessiva ou alterações severas no ambiente natural.

De acordo com o pesquisador, a redução da disponibilidade de alimento no Cerrado pode favorecer a aproximação desses animais de áreas urbanas e turísticas. “Quando há diminuição das presas naturais, os felinos ampliam suas áreas de deslocamento em busca de recursos. Isso aumenta a chance de encontros com humanos”, explica. 

Além disso, ele afirma que queimadas, desmatamento e expansão urbana provocam fragmentação do habitat e dificultam a circulação das onças em corredores ecológicos.

O especialista também alerta que crianças podem ser vistas como mais vulneráveis em determinadas situações devido ao porte físico reduzido e aos movimentos rápidos. Ainda assim, ele reforça que crianças não são alvos naturais dos felinos. “São circunstâncias específicas e extremamente raras”, pontua.

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Registros de aproximações aumentam em áreas turísticas

Embora ataques continuem incomuns, pesquisadores e órgãos ambientais relatam aumento nos registros de avistamentos e aproximações de grandes felinos em diferentes regiões do Cerrado, incluindo áreas próximas à Chapada dos Veadeiros. Especialistas associam esse crescimento ao avanço agropecuário, ao turismo intenso e à ocupação humana cada vez mais próxima das áreas de mata nativa.

Após o ataque, a direção do Santuário Volta da Serra suspendeu temporariamente as visitas para realização de estudos técnicos e revisão dos protocolos de segurança. Em nota, o local informou que também iniciou reforço na sinalização e nas orientações preventivas aos visitantes. O santuário afirmou ainda que segue colaborando com autoridades ambientais para avaliação do caso.

Mesmo sem investigação formal do ICMBio, já que o incidente ocorreu em propriedade particular, especialistas ligados ao Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) acompanham o episódio para analisar o comportamento do animal e os possíveis fatores ambientais envolvidos.

Guias orientam turistas

Depois do ataque, guias turísticos e profissionais que atuam na Chapada intensificaram campanhas de orientação nas redes sociais. A principal recomendação é nunca correr diante de um grande felino, já que o movimento pode ativar o instinto de perseguição do animal. 

Especialistas também orientam que os visitantes mantenham a calma, evitem aproximação e tentem parecer maiores, levantando os braços ou usando mochilas e jaquetas para intimidar o predador.

Outra orientação importante é nunca virar as costas para o animal. O ideal é recuar lentamente, mantendo contato visual e usando comandos firmes e calmos. Guias da região afirmam que encontros com onças continuam extremamente raros, mesmo em áreas de mata fechada. Muitos profissionais que trabalham há mais de uma década nas trilhas da Chapada relatam nunca ter avistado um felino durante atividades turísticas.

Enquanto a menina segue internada em recuperação, o caso amplia o debate sobre a necessidade de equilíbrio entre preservação ambiental, turismo ecológico e crescimento urbano no Cerrado. Especialistas defendem que proteger corredores ecológicos, combater queimadas e ampliar ações de educação ambiental são medidas fundamentais para evitar novos conflitos entre humanos e animais silvestres.

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