Goiânia recebe primeira edição do “Festival de Dança Negra Agun”
Programação conta com exposição, espetáculos e oficinas de dança, ballroom, hip hop, além de apresentar produções premiadas
O corpo negro será afirmado como território de memória, resistência e criação de novos futuros neste mês de junho, em Goiânia. O Orum Aiyê Quilombo Cultural promove a primeira edição do Festival Agun, entre os dias 5 e 14 de junho. A ação acontece na sede do Orum, no Setor Nossa Morada. Mais do que um evento de artes cênicas, o festival se apresenta como um manifesto estético e político que celebra as produções negras. A programação reúne exposições de artes visuais, espetáculos de dança, shows musicais, oficinas de jongo, afrobeat, e breaking, batalhas de rima e de breaking, além de um baile, que encerra o evento. Os ingressos são gratuitos, mas devem ser retirados pela plataforma Sympla. O festival É uma realização da PNAB com a SECULT GO, idealizado pelo Orum Aiyê Quilombo Cultural.
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AGUN SIGNIFICA COMUNIDADE
Agun é uma palavra que na língua Fon (Benin) significa “comunidade”. “Isso dá o tom do nosso encontro. Queremos promover uma imersão profunda em linguagens que cruzam a dança africana, afro-brasileira e urbana, transformando Goiânia em um epicentro de diálogo ancestral”, compartilha Marcelo Marques, produtor do evento. “O Festival Agun é uma celebração da nossa sobrevivência e da nossa beleza. É o momento em que artistas negros assumem o papel de agentes de sua própria história, transformando o palco em um território de confluência e poder”, afirma Raquel Rocha, que também integra a organização do evento.
A idealização do festival é assinada pelo Orum Aiyê Quilombo Cultural, instituição que desde 2021 atua como um pilar de resistência e fomento às artes pretas em Goiás. Ao longo de sua trajetória, o Orum Aiyê tem se consolidado não apenas como um espaço de produção, mas como um centro de gestão cultural focado no protagonismo negro. “A nossa atuação é uma resposta ao apagamento histórico e a garantia que narrativas afro-diaspóricas ocupem o centro do palco com dignidade e excelência. O Festival Agun é o amadurecimento desse trabalho contínuo de quilombagem artística”, comenta Marques.
Dança, videodança e fotografia na programação
A curadoria do evento, realizada por Luciana Caetano e Marcelo Marques, selecionou espetáculos de alta qualidade técnica que hoje circulam nos principais circuitos nacionais e internacionais. A programação conta com produções de relevância nacional, como: “Chão Duro”, com Alex Pitt e Pedrinho Castella (RJ), “Dembwa”, com Marcos Ferreira e Ruan Wills” (BA), “Abayomi”, com Cia Odu – Rebeca Carneiro e Andressa Brandão (MA) e “Debandada”, com Cia DeBonde (RJ).
Nas artes visuais, o festival expande seus limites com a exposição de videodança e fotografia, com curadoria de Raquel Rocha, apresentando obras de artistas de Goiás, Minas Gerais e Bahia. A mostra investiga como o corpo negro se recria e se insurge em contextos diversos. A mostra reúne artistas que utilizam a visualidade como ferramenta de reflexão sobre o corpo e suas territorialidades. A exposição apresenta “Sangoma” – Coletivo Heranças do Corpo (SP/PA/GO); “CANDONGA” – Maxmiler Junio (MG); “ESCUTA” – Ìwà Sùúrù (GO); Obras Fotográficas de Ed Gonçalves (BA); “AfroX – Gangart” (GO) e Obras fotográficas de Mayara Varalho (GO).
“A proposta central é investigar como o corpo negro se recria em contextos distintos, transformando a arte em um território de confluência entre o ser, o mover e o dançar. Através de uma linguagem insurgente, a mostra reafirma o papel do artista negro como agente histórico e criador de novas realidades”, comenta a curadora Raquel Rocha sobre a exposição.
Outro destaque é o aclamado espetáculo “Adobe”, de Luciana Caetano, que percorreu o Brasil pelo Palco Giratório SESC em 2024. A força da matriz africana ganha contorno internacional com a presença do artista beninense Codjo Perrez Kpade, que apresenta a performance de circo e dança “Dadié”.
Resistência nas Periferias e Diversidade
O festival também abre alas para a Cultura Ballroom, celebrando as corpas-território da comunidade LGBTQIAPN+ com a Agun Kiki Ball, e para o Hip Hop/Breaking, abordando a dança como ferramenta de cidadania e transformação social nas periferias. Com oficinas gratuitas de ritmos como Jongo, Afrobeat e Breaking, o festival garante que a formação artística ande de mãos dadas com a fruição, fortalecendo a rede de artistas negros e democratizando o acesso à cultura de alta performance.