Por que você sente mais fome no frio? A ciência tem a resposta
Estudo da revista Nature identifica neurônios ativados pelo frio que estimulam o apetite; médico explica como manter equilíbrio na estação sem adiar hábitos saudáveis
Com a queda da temperatura, algo muda no cérebro antes mesmo de o casaco ser tirado do armário. Um estudo publicado na revista Nature em 2023, conduzido pelo Scripps Research, identificou neurônios específicos que são ativados quando o organismo percebe o frio, estimulando a busca por comida para compensar o gasto energético com a produção de calor. A vontade de comer mais no inverno, portanto, não é fraqueza nem falta de disciplina. É fisiologia.
O processo tem nome: termogênese. O organismo gera calor internamente para manter a temperatura estável, e esse esforço tem custo energético real. “O corpo trabalha constantemente para manter o equilíbrio térmico. Em dias gelados, existe um aumento da demanda energética, o que pode intensificar a vontade de comer. Quando somos expostos a temperaturas baixas, o organismo precisa trabalhar mais para produzir calor e preservar as funções vitais em equilíbrio”, explica o médico Edson Ramuth.
Humor e apetite
A menor exposição solar no inverno acrescenta outro elemento à equação. A luz do sol influencia diretamente a produção de serotonina, neurotransmissor ligado ao humor e ao controle do apetite. Com menos luz disponível, o organismo busca compensação pela comida, especialmente por alimentos que ativam o sistema de recompensa cerebral. “Isso pode interferir na produção de serotonina, favorecendo um desejo maior por doces e alimentos mais energéticos”, diz Ramuth.
Preparações quentes e gordurosas ativam áreas cerebrais ligadas à recompensa emocional, elevando temporariamente a sensação de conforto. É uma resposta adaptativa que, sem atenção, passa a ser confundida com hábito e se consolida ao longo da estação.
Consistência como antídoto
O médico defende que a solução não está em resistir ao inverno, mas em manter hábitos estáveis ao longo dele. “O ideal é priorizar refeições equilibradas, ricas em proteínas, fibras e alimentos que promovam maior saciedade. Também é fundamental manter a prática de exercícios físicos e acompanhamento profissional para entender as necessidades individuais do organismo”, orienta.
Com o frio, a sensação de sede também diminui, levando muita gente a reduzir o consumo de água sem perceber. A hidratação interfere diretamente nas funções metabólicas e no controle do apetite, e negligenciá-la no inverno é um erro silencioso.
Ramuth alerta para outro deslize frequente: adiar mudanças de hábito até o verão, como se a estação fria fosse um intervalo fora do calendário de saúde. “Os resultados acontecem com constância. Construir uma rotina equilibrada ajuda a chegar aos meses mais quentes com mais disposição, autoestima e segurança”, conclui.