De abrigo a palco: como a cultura ballroom encontrou seu lugar em Goiânia
Cena negra e LGBTQIAPN+ reúne houses, voguing e festival para criar redes de acolhimento, arte e futuro
Antes de ser espetáculo, o ballroom foi abrigo. Antes de virar performance, foi a resposta de corpos empurrados para fora de casa, da rua, da festa e até dos espaços que deveriam acolhê-los. Criada em Nova York por pessoas negras e latinas LGBTQIAPN+, a cultura chegou ao Brasil sem se comportar como cópia. Em Goiânia, encontrou o funk, o passinho, a periferia, o carnaval e as vivências de pessoas pretas, trans e queers das quebradas.
No centro dessa cultura estão os balls, eventos em que dança, moda, beleza, atitude, presença cênica e disputa se cruzam diante de jurados e público. “Ballroom é uma mistura de arte, dança, moda, performance, resistência política e família escolhida”, afirma Jhey Matos de Onijá. As competições se organizam por categorias, cada uma voltada a uma habilidade, estética ou expressão específica.
As houses, ou casas, funcionam como famílias simbólicas lideradas por mães, pais e outras figuras de referência. Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo negras, trans, travestis e periféricas, pertencer a uma house significa encontrar apoio, cuidado, formação artística e pertencimento num lugar que a família biológica ou a sociedade negaram. “Existe um entendimento dentro da Ballroom de que ninguém deve caminhar sozinho”, explica Princess Sodré Onijá. Mesmo quem não integra uma casa, as pessoas chamadas 007, participa da cena e é acolhido coletivamente. As houses organizam balls, vogue jams, treinos abertos e ações culturais, a maioria deles gratuita.
No ball, tudo é linguagem
Se o ball é o acontecimento, o voguing é sua língua mais conhecida. Mistura poses, precisão, teatralidade, passarela, enfrentamento e disputa. Para o Imperador Carpa Onijá, a imagem mais próxima é a de um corpo que dança como se contasse uma história através de fotos vivas: passarela, luta e performance ao mesmo tempo. “Quando uma pessoa vogueia, ela ocupa espaço num mundo que muitas vezes tentou negar sua existência. Existe beleza, mas também existe enfrentamento. Existe moda, mas também existe sobrevivência”, diz Carpa. No Brasil, as balls também recebem linguagens como batekoo, passinho e cata o beat. A plateia participa com torcidas, palmas e celebração dos dips, movimento fundamental do Vogue Performance. DJs, chanters e commentators conduzem a experiência e acolhe quem chega pela primeira vez. “A Ball é o acontecimento efervescente que soma todas as linguagens artísticas”, resume Maju Back Onijá.
A cena que se fez à margem
A cena ballroom em Goiânia não tem a estrutura de São Paulo ou Rio de Janeiro. Ainda assim, construiu um caminho próprio. Um dos nomes centrais dessa formação é Flávys A’Trois. Ao lado de Lucas Syuga e Gleyde Lopes, ela promoveu treinos e formações gratuitas até fundar a House of A’Trois, a primeira house estruturada da cidade. Depois vieram House of Witch, Casa Dionisi, Casa de Laroyê e Casa de Arapô. “O mais forte na cena de Goiânia talvez seja justamente quem a sustenta: pessoas que muitas vezes vieram da margem e transformaram a ballroom em rede de apoio”, afirma Carpa. Em maio, Brasília celebrou dez anos de ballroom com a Ball de Todas as Casas, e Goiânia compartilhou esse marco no eixo BSB-GYN. Grande parte das ações acontecem de forma independente, sustentada por houses, coletivos, artistas 007, performers, DJs, artistas visuais, estilistas e músicos.
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Crescer sem apagar a origem
A cena oferece não apenas palco, mas rede afetiva. “Existe uma experiência coletiva que frequentemente aproxima essas vivências: a busca por acolhimento, pertencimento e reconhecimento”, afirma Princess Sodré Onijá. A cultura promove conscientização sobre identidade, expressão e direitos por meio de oficinas, rodas de conversa e ações formativas. Crescer não pode significar apagar a origem negra, trans e queer do ballroom. “A proposta não é descaracterizar a cultura para torná-la acessível, mas permitir que novos públicos a conheçam a partir do respeito, da escuta e da compreensão de sua trajetória”, diz Princess.
Festival Solta o Cunt
É nesse contexto que surge o Festival Solta o Cunt, ligado ao Coletivo Dionisi. Para Maju Back Onijá, o festival nasce da necessidade de transformar criação artística em trabalho, circulação e dignidade. “Realizar projetos como esse é exercício e acesso ao direito ao lazer, direito à vida, à segurança e direito à cidade, e principalmente, à empregabilidade”, afirma. O projeto recebeu investimento de emenda parlamentar do vereador Fabrício Rosa. A programação inclui oficinas de treinamento artístico, performances teatrais, exposições de artistas da comunidade, exibições de filmes, remuneração adequada e a produção de um documentário sobre o atual momento da cena goianiense. “A prioridade é impulsionar artistas já residentes da cena e apresentar suas potências à comunidade goianiense”, explica Jhey Matos de Onijá.
O que ainda falta
A cena reivindica estrutura, financiamento e reconhecimento. O PL 2.054/2026, protocolado em abril pelas deputadas federais Érika Hilton e Duda Salabert, propõe uma Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIAPN+ e busca inserir na Constituição os termos “orientação sexual” e “identidade de gênero”. Para Maju Back Onijá, é um passo, mas não fecha a conta. “O Estado brasileiro está em débito com seus cidadãos. Falta respeito. E o respeito é a chave para combater as violências.”
O ballroom, em Goiânia, não pede licença para existir. Ele ocupa salas de treino, pistas, palcos, centros culturais e brechas abertas por quem aprendeu a transformar ausência em presença. Entre houses, balls, voguing e festival, a cena constrói uma cidade possível para corpos que historicamente foram empurrados para fora dela. Se nasceu como abrigo, hoje também se afirma como linguagem artística, trabalho, memória e disputa por futuro. E, na cena goianiense, cada corpo que entra na passarela carrega mais do que uma performance: carrega a decisão de permanecer.