quinta-feira, 22 de outubro de 2026
SONO E SAÚDE

Ranger os dentes não é só estresse: entenda por que o bruxismo merece atenção médica

Especialista explica que a condição envolve fatores neurológicos, emocionais e do sono, e que placas genéricas podem piorar o quadro

Luana Avelarpor em
bruxismo
foto: divulgação

O bruxismo, popularmente conhecido como o ato de ranger ou apertar os dentes, costuma ser relegado a um incômodo menor, algo que “vem do estresse” e passa sozinho. A avaliação é equivocada. Para a cirurgiã-dentista, nutricionista e especialista em cirurgia bucomaxilofacial Maria Isabel Aguilar, pós-graduada em dor orofacial e com formação em odontologia do sono, o fenômeno envolve uma cadeia de fatores que vai do sono à ansiedade, passando pelo sistema nervoso central.

“O bruxismo compreende uma interação complexa entre fatores neurológicos, emocionais, comportamentais, medicamentosos e sistêmicos. Atualmente, entendemos como uma atividade muscular mastigatória aumentada, muitas vezes relacionada à forma como o cérebro regula excitação, estresse e sono”, explica Aguilar, pós-graduada em dor orofacial e com formação em odontologia do sono.

O consenso internacional mais recente deixou de classificar o bruxismo como distúrbio. A condição passou a ser vista como atividade motora mastigatória, o que desloca o foco do sintoma para os mecanismos que o produzem.

Dois tipos, dinâmicas distintas

“O apertamento dental é a forma mais comum do bruxismo em vigília, associado ao estado de alerta, ao estresse cotidiano, à respiração e à postura. Tem forte componente comportamental e responde bem a intervenções de autoconsciência e manejo do estresse”, diz Aguilar.

A rotina de telas agrava o quadro. “É muito comum que, enquanto a pessoa trabalha concentrada, navega no celular ou joga, mantenha os dentes encostados ou apertados sem perceber”, afirma. “A ansiedade é um dos principais moduladores do bruxismo em vigília. Quando o sistema nervoso está em hiperexcitabilidade, atividades automáticas como contrair a musculatura mastigatória tornam-se mais frequentes”, completa.

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Sinais que pedem avaliação

O problema tende a se intensificar em ciclos de estresse. Com a persistência dos episódios, surgem sinais que demandam atenção: dor ou fadiga muscular na face ao acordar, cefaleias frequentes na região temporal, desgaste ou fraturas de dentes e restaurações, estalos ou limitação de movimento na articulação temporomandibular e sono fragmentado.

Nas crianças, o fenômeno merece atenção redobrada. “O bruxismo infantil pode ser um sinal de que há algo no ambiente fisiológico ou comportamental da criança que merece atenção”, diz Aguilar. Pode indicar respiração oral, alergias, refluxo ou dificuldade de regulação emocional. Os pais devem buscar avaliação quando o aperto persistir por semanas, houver desgaste visível nos dentes ou sono agitado com ronco e pausas respiratórias.

Os erros mais comuns

A demora em buscar avaliação é ela própria um fator de agravamento. Muitos pacientes só procuram ajuda quando já há fraturas ou alterações estéticas. “Antes disso já podem ocorrer hipersensibilidade dentária, dores faciais, tensões musculares, cefaleias, zumbido e perturbações do sono”, alerta Aguilar.

Outro equívoco frequente é adquirir placas genéricas pela internet. “Placas universais ou moldáveis em casa podem piorar o quadro, alterar a mordida ou mascarar sintomas importantes”, afirma. O sono desregulado também tende a ser ignorado. “Ronco, microdespertares e cansaço diurno são frequentemente vistos como normais, mas podem estar relacionados ao bruxismo do sono e a distúrbios respiratórios que precisam ser investigados.”

Controle, não cura

Aguilar explica que o bruxismo não tem cura, mas seus efeitos podem ser controlados com o objetivo de preservar a estrutura dental e a articulação temporomandibular. Segundo a especialista, tratar apenas o sintoma sem investigar os mecanismos subjacentes implica riscos concretos: progressão silenciosa do desgaste dentário, aumento da tensão muscular e atraso no diagnóstico de condições associadas, como distúrbios do sono e ansiedade.

“O fenômeno não é isolado. Está diretamente associado ao estilo de vida de cada indivíduo e à forma de se relacionar com a rotina contemporânea. Quanto mais cedo o paciente procura orientação, mais fácil é compreender o quadro e direcionar intervenções eficazes e personalizadas”, conclui.

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