Obra no Lago das Rosas em Goiânia gera dúvidas sobre “maquiagem urbana” com revitalização
Com investimento de R$ 2,7 mi via compensação ambiental, revitalização do parque prevê melhorias estruturais, novos espaços e restauração de monumentos históricos
O anúncio da revitalização do Parque Lago das Rosas, feito pelo prefeito Sandro Mabel na última segunda-feira (18), reacendeu um debate recorrente em Goiânia, até que ponto obras em espaços públicos históricos representam soluções estruturais para a cidade ou apenas intervenções estéticas voltadas à valorização de áreas nobres.
O projeto prevê uma ampla requalificação urbanística e ambiental do parque, um dos mais tradicionais da Capital, construído na década de 1940. Entre as intervenções estão reforma da pista de caminhada, novos playgrounds, academias ao ar livre, pet places, melhorias de acessibilidade, requalificação da iluminação, microdrenagem para reduzir alagamentos e recuperação de estruturas tombadas em estilo Art Déco, como a mureta e o trampolim.
A obra será executada pela Opus Incorporadora em duas etapas, por meio de compensação ambiental firmada com a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), com investimento estimado em R$ 2,7 milhões.
Durante o lançamento da ordem de serviço, Mabel afirmou que a revitalização pretende tornar o parque “mais bonito e seguro”. A presidente da Amma, Zilma Peixoto, também destacou que o projeto busca melhorar a mobilidade, fortalecer áreas de convivência e qualificar a experiência dos frequentadores.
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Já moradores e frequentadores do parque apontam demandas históricas relacionadas à deterioração da infraestrutura. A presidente da Associação dos Moradores e Frequentadores do Parque Lago das Rosas, Maria Helena Tavares Vilela, afirmou que a pista de caminhada apresenta problemas há anos e que o parque precisa de melhorias sem perder suas características ambientais e históricas.
Debate sobre “maquiagem urbana” e prioridades da cidade
Apesar das melhorias previstas, o arquiteto e urbanista Fred Le Blue avalia que a proposta tem forte caráter estético e midiático. Segundo ele, o parque já passou por intervenções anteriores sem que problemas estruturais fossem solucionados de forma definitiva.
“O parque tem sido mantido com equipamentos antigos e problemas na pista de caminhada há mais de 15 anos, recebendo apenas serviços paliativos. A atual proposta é mais uma obra de maquiagem da prefeitura, incapaz de atuar de forma planejada em todo o território”, afirma.
O urbanista argumenta que Goiânia enfrenta desigualdades na distribuição de investimentos urbanos e ambientais. Na avaliação dele, grandes obras em regiões centrais e valorizadas acabam contrastando com a precariedade de áreas periféricas da Capital.
Para Fred, existe o risco de que revitalizações desse tipo contribuam para um processo de elitização simbólica do espaço público. Ele cita como exemplo a retirada de equipamentos urbanos de bairros periféricos para instalação em regiões consideradas mais nobres da cidade. “Essa lógica cria zonas de luxo em poucos locais para ofuscar as zonas de abandono na maior parte da cidade”, diz.
A discussão também envolve o conceito de “city marketing”, prática em que obras urbanas se tornam vitrines políticas e visuais para governos municipais, especialmente em áreas de maior visibilidade pública.
Outro ponto de atenção envolve o equilíbrio entre modernização e preservação histórica. O Lago das Rosas abriga monumentos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de integrar um importante corredor verde da cidade.
A segunda etapa da obra prevê justamente a restauração da mureta e do trampolim Art Déco, além da instalação de placas informativas sobre a história do parque. Fred avalia, porém, que sucessivas intervenções podem descaracterizar aspectos históricos e culturais do espaço.
Segundo ele, a preservação não deve se limitar apenas aos elementos oficialmente tombados, mas considerar também a identidade paisagística e afetiva do parque. “O planejamento territorial do Lago das Rosas deveria levar em conta que qualquer modificação ampla pode comprometer a visão histórica do conjunto”, afirma.
O projeto também gerou debate ambiental após a confirmação de que 48 árvores consideradas comprometidas pela Amma deverão ser removidas. A prefeitura afirma que haverá compensação com o plantio de mais de 150 novas espécies, além de adaptações na pista de caminhada para preservação de raízes expostas.
Compensação ambiental e participação da iniciativa privada
A revitalização será executada como contrapartida ambiental da Opus Incorporadora, mecanismo previsto em lei para compensar impactos urbanos e ambientais causados por empreendimentos privados.
Na prática, o modelo funciona por meio de Termos de Compromisso Ambiental firmados entre empresas e o município, podendo incluir plantio de árvores, recuperação de áreas degradadas ou obras em espaços públicos.
Para Le Blue, no entanto, esse tipo de compensação levanta questionamentos sobre os limites da influência privada no planejamento urbano. “O planejamento urbano do bem comum passa a ser orientado por uma perspectiva corporativa. A empresa transforma uma obrigação legal em estratégia de marketing”, critica.
Ele afirma ainda que a revitalização aproxima-se de uma lógica de parceria público-privada, em que a iniciativa privada passa a influenciar diretamente o desenho e a estética de áreas públicas da cidade.
Enquanto isso, a prefeitura sustenta que a obra foi planejada para preservar a arborização existente, melhorar a acessibilidade e ampliar a segurança dos frequentadores. O parque permanecerá aberto durante as intervenções, com interdições pontuais em áreas específicas. A previsão é de que a primeira etapa seja concluída até o fim de 2026.