EUA endurecem pressão sobre Cuba e elevam tensão no Caribe
Washington anunciou acusações criminais contra o ex-presidente Raúl Castro e deslocou um grupo de ataque para a região
A relação entre Estados Unidos e Cuba atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos após uma sequência de medidas adotadas pelo governo de Donald Trump contra Havana. Em meio à escalada, Washington anunciou acusações criminais contra o ex-presidente cubano Raúl Castro, ampliou sanções contra integrantes do governo da ilha e deslocou um grupo de ataque liderado pelo porta-aviões USS Nimitz para o Caribe.
As ações alimentaram o temor de uma possível operação militar na região e provocaram reações de Rússia, China e do próprio governo cubano. A movimentação militar foi anunciada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos na quarta-feira (20).
O grupo enviado ao Caribe inclui o porta-aviões USS Nimitz, aeronaves de combate e ao menos um destróier equipado com mísseis guiados. Apesar da movimentação militar, Trump negou que a presença do grupo naval tenha o objetivo de intimidar Cuba. Ao ser questionado sobre a possibilidade da ação representar um aviso ao governo cubano, o republicano afirmou: “De forma alguma”.
Trump ainda criticou a situação econômica da ilha. “Eles não têm eletricidade, não têm dinheiro, não têm praticamente nada, não têm comida. E nós vamos ajudá-los”, declarou.

A tensão aumentou após o Departamento de Justiça dos EUA anunciar acusações contra Raúl Castro pelo abatimento, em 1996, de duas aeronaves civis da organização Irmãos ao Resgate. Na época, o líder cubano ocupava o cargo de ministro da Defesa. Washington acusa Castro de conspiração para matar cidadãos norte-americanos, destruição de aeronaves e assassinato.
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O caso alimentou especulações sobre uma possível ação militar semelhante à realizada recentemente contra a Venezuela, que levou à prisão do ex-presidente Nicolás Maduro em Nova York por acusações ligadas ao tráfico de drogas.
Além das acusações, os EUA anunciaram sanções contra ministros da ilha, líderes militares, a Polícia Nacional Revolucionária, a diretoria de inteligência e o Ministério do Interior da ilha. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que Washington continua defendendo uma solução negociada, mas admitiu ceticismo. “Sendo honesto, a probabilidade de isso acontecer, considerando com quem estamos lidando agora, não é alta.”
Havana afirma ter disposição para diálogo
Mesmo sob pressão, Havana sinalizou disposição para dialogar. Em entrevista ao The New York Times, o embaixador cubano na ONU, Ernesto Soberón Guzmán, afirmou que Havana aceita discutir qualquer tema com os Estados Unidos, desde que haja reciprocidade. “Cuba está disposta a conversar sobre tudo com os Estados Unidos. Não há nenhum assunto tabu em nossas conversas”, afirmou.
O diplomata, porém, acusou Washington de utilizar uma “retórica belicista” para justificar ações contra a ilha. Segundo ele, a Casa Branca não demonstra disposição real para negociações.
Guzmán também comentou a oferta norte-americana de US$ 100 milhões em ajuda humanitária. Segundo Rubio, o país aceitou os recursos, embora o embaixador tenha classificado a iniciativa como contraditória diante das sanções econômicas impostas pelos EUA.
Rússia e China condenam ações dos EUA em Cuba
As medidas adotadas por Washington provocaram reações internacionais. O Kremlin criticou a pressão exercida pelos EUA sobre Havana. “Acreditamos que a pressão exercida sobre Cuba não pode ser tolerada”, declarou o porta-voz russo Dmitry Peskov.
A China também saiu em defesa do governo sul-americano. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, criticou o uso de sanções, ameaças militares e “meios judiciais” contra Havana, afirmando que Pequim apoia a soberania cubana e rejeita interferências externas na ilha.