terça-feira, 26 de maio de 2026
Trânsito

Especialista critica mudanças viárias em Goiânia e diz que intervenções podem apenas transferir congestionamentos

Paço aposta em sistema binário nas avenidas T-55 e T-10 para ampliar fluidez no trânsito de Goiânia, mas Marcos Rothen alerta para aumento da velocidade, insegurança para pedestres e ausência de investimentos estruturais no transporte coletivo

Letícia Leitepor Letícia Leite em 25 de maio de 2026
10 abre Intervencoes nas avenidas T 55 e T 10 Foto Joabe Mendonca
Medida tende a produzir efeitos apenas temporários e pode transferir os congestionamentos para outras regiões. Foto: Joabe Mendonça

A Prefeitura de Goiânia iniciou no último sábado (23) as obras para implantação do sistema binário nas avenidas T-55 e T-10, no Setor Bueno. A proposta prevê que a T-55 opere apenas no sentido de descida, entre as avenidas T-85 e T-3, enquanto a T-10 ficará exclusivamente no sentido de subida. Segundo o prefeito Sandro Mabel, a mudança faz parte de um conjunto de intervenções para ampliar a fluidez no trânsito em uma região onde circulam cerca de 55 mil veículos por dia.

Durante coletiva realizada no sábado, Mabel afirmou que a Avenida T-10 se tornou “impraticável” nos horários de pico e defendeu que a sincronização dos semáforos permitirá um escoamento mais rápido dos veículos. A prefeitura também estima que os ônibus tenham redução entre 30% e 40% no tempo de deslocamento após as mudanças.

As intervenções, porém, enfrentam críticas de especialistas em mobilidade urbana. Para Marcos Rothen, medidas desse tipo costumam produzir melhora pontual em determinadas vias, mas transferem os congestionamentos para ruas vizinhas.

“Normalmente essas medidas transferem o congestionamento para outras ruas, dando a impressão de que melhorou. O melhor exemplo é a Praça do Cruzeiro, que ficou tranquila, enquanto as ruas laterais ficaram congestionadas”, afirma.

Segundo Rothen, o principal problema do projeto é incentivar velocidades maiores em uma área marcada por intensa circulação de moradores, pedestres e atividades comerciais. Para ele, o modelo adotado pela prefeitura privilegia automóveis e motocicletas em detrimento da segurança urbana.

“Essa política de privilegiar carros e motos em detrimento dos pedestres está sendo adotada em vários lugares da cidade. Goiânia vai na contramão do que grandes cidades fazem há mais de 40 anos. As cidades dão prioridade e segurança para os pedestres e ciclistas e reduzem a velocidade dos carros”, diz.

O especialista também critica o limite de velocidade permitido em Goiânia. “Não conheço outra grande cidade onde é possível trafegar nas ruas a 60 km/h”, pontua.

Para Marcos, intervenções que ampliam a capacidade de circulação dos carros tendem a funcionar apenas no curto prazo. Ele explica que, à medida que o trânsito parece mais fluido, cresce também o estímulo ao uso do automóvel e à expansão urbana para áreas mais distantes.

“A medida que as pessoas percebem que cada vez tem mais facilidade para usar os carros, elas cada vez usam mais os carros e vão morar mais longe. Essa política de cada vez mais permitir liberdade para os carros andarem a altas velocidades era adotada no século passado e causaram grandes problemas”, afirma.

Na avaliação dele, o debate sobre mobilidade em Goiânia não pode se limitar à ampliação da velocidade dos veículos sem considerar a precariedade do transporte coletivo. Rothen afirma que, apesar de algumas melhorias recentes, o sistema ainda não oferece atratividade suficiente para competir com o automóvel.

“Não foi feito o principal, que é a melhoria do modelo de ônibus, o aumento da oferta, com mais linhas e horários. Utilizar ônibus nos horários de pico já é difícil e fora deles mais ainda. À noite e também aos domingos, as pessoas relatam que é muito difícil conseguir andar de ônibus”, diz.

O especialista em mobilidade urbana cita como exemplo a Avenida Portugal, que, segundo ele, sequer possui linhas de ônibus. Para Marcos, a ausência de planejamento integrado favorece a expansão de congestionamentos e acidentes em diferentes regiões da Capital.

Ele menciona o caso do loteamento Buena Vista, atendido por uma rodovia que passou a registrar aumento no fluxo e no número de acidentes. “O DNIT reduziu o limite de velocidade e logo vai ter que ser mais drástico”, afirma.

Outro ponto criticado pelo especialista é a ampliação de conversões à direita livre em cruzamentos movimentados. Segundo ele, a medida aumenta conflitos entre motoristas e pedestres e amplia a insegurança viária.

“No projeto, além de cortarem a praça na T-30 com a T-55,  está previsto a direita livre na T-3 com a T-10, no sentido Jardim América, ou seja, quem for pela T-3 para o Parque Vaca Brava vai ter que disputar espaço com os carros que estão cada vez mais abusados”, afirma.

Paço sustenta que as mudanças no trânsito de Goiânia seguem estudos técnicos

Apesar das críticas, a prefeitura sustenta que as mudanças seguem estudos técnicos e simulações de tráfego. O secretário municipal de Engenharia de Trânsito, Tarcísio Abreu, afirmou que as intervenções fazem parte de um programa de “desobstrução das vias arteriais”, semelhante às mudanças já implementadas em corredores como a Avenida Jamel Cecílio.

Para Rothen, entretanto, a solução para os congestionamentos passa por outro caminho. Ele acrescenta que todas as grandes cidades investem em planejamento urbano, redução das distâncias de deslocamento e fortalecimento do transporte público, e Goiânia ainda prioriza o aumento da velocidade dos carros.

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