sexta-feira, 31 de julho de 2026
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Após 45 anos salvando mulheres, Cevam luta para manter portas abertas em Goiás

Referência no acolhimento de vítimas de violência em Goiás, instituição reduziu quase 58% de uma dívida milionária, mas ainda depende de doações para garantir alimentação, abrigo e atendimento especializado

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 31 de julho de 2026 às 03:41
Após 45 anos salvando mulheres, Cevam luta para manter portas abertas em Goiás

Há 45 anos, o Centro de Valorização da Mulher Consuelo Nasser (Cevam) acolhe mulheres que chegam ao local carregando marcas da violência, muitas vezes acompanhadas dos filhos e sem ter para onde ir. Referência na rede de proteção às vítimas em Goiás, a instituição tornou-se um símbolo da luta pelos direitos das mulheres, mas hoje enfrenta um desafio que ameaça a continuidade desse trabalho: a dificuldade para manter as portas abertas.

Apesar de ter reduzido em quase 58% uma dívida acumulada ao longo dos últimos anos, o Cevam ainda depende da solidariedade da população para custear despesas básicas, manter os atendimentos e oferecer alimentação às mulheres acolhidas.

A instituição conseguiu reorganizar parte das finanças desde 2021, quando a atual gestão assumiu um passivo de aproximadamente R$ 1,3 milhão, mas ainda precisa quitar obrigações trabalhistas, encerrar ações judiciais herdadas de administrações anteriores e investir na manutenção da estrutura.

Hoje, o centro funciona com uma equipe reduzida de apenas seis funcionários, entre recepcionista, zelador e colaboradores administrativos, além de cinco voluntários que ajudam na rotina da instituição.

Embora mantenha um convênio com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds), responsável pelo custeio de despesas como água, energia elétrica e parte da alimentação, os recursos públicos não são suficientes para atender todas as necessidades da casa. Grande parte dos alimentos servidos diariamente depende de doações da sociedade.

História de defesa das mulheres

O Cevam foi fundado em 20 de abril de 1981, apenas 21 dias após o assassinato da cantora Eliane de Grammont pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho. O crime ganhou repercussão nacional e impulsionou a mobilização de mulheres goianas lideradas pela jornalista e advogada Consuelo Nasser, que defendia a criação de políticas permanentes de enfrentamento à violência de gênero.

Inicialmente, a entidade surgiu como um movimento voltado à defesa dos direitos das mulheres e ao combate à discriminação. Durante os primeiros anos de atuação, participou diretamente da construção de importantes políticas públicas em Goiás, como a implantação da segunda Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher do Brasil, programas voltados à saúde feminina, a criação da primeira Secretaria da Mulher da América Latina, durante o governo Henrique Santillo, e iniciativas para ampliar a participação feminina em espaços de decisão.

A partir de 1997, o trabalho foi ampliado para incluir o acolhimento de mulheres em situação de violência. Desde então, o centro passou a funcionar também como abrigo para vítimas e seus dependentes. Em 2020, a instituição expandiu novamente sua atuação, incorporando serviços socioassistenciais, atendimento psicológico, orientação jurídica, oficinas voltadas à autonomia econômica e atividades culturais.

Ao longo de sua trajetória, o Cevam consolidou-se como uma das principais referências no atendimento às mulheres em Goiás, atuando não apenas no acolhimento, mas também na formulação e fortalecimento da rede de proteção às vítimas.

Continuidade dos serviços depende da participação da sociedade

Atualmente, o Cevam dispõe de 30 vagas para acolhimento institucional e capacidade para atender até 177 pessoas em assistência social. Hoje, a instituição abriga 19 mulheres e sete filhos, além de prestar acompanhamento contínuo a outras 52 mulheres.

Por questões de segurança, as acolhidas permanecem integralmente na instituição durante o período de proteção. Muitas chegam ao local após sofrer ameaças de morte, violência doméstica, abuso ou até situações relacionadas ao tráfico de pessoas. Para preservar a integridade física das vítimas, não é permitido o uso de telefone celular, acesso à internet ou saídas sem autorização.

Além do abrigo, as mulheres recebem atendimento com assistente social, psicólogo, psicoterapeuta, médico generalista e orientação jurídica. Também participam de cursos profissionalizantes realizados em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), com foco na geração de renda e na reconstrução da autonomia financeira.

Os números revelam a dimensão desse trabalho. Desde 1998 até outubro do ano passado, o Cevam contabilizou 37.128 acolhimentos entre mulheres, adolescentes e crianças. Apenas entre 2020 e junho de 2026, foram atendidas 9.024 mulheres e 504 crianças, entre pessoas acolhidas e assistidas pelos serviços da instituição.

Doações mantêm o atendimento

Mesmo com o apoio do Estado para parte das despesas, a continuidade dos serviços depende diretamente da participação da sociedade. A entidade precisa de doações de alimentos, produtos de higiene pessoal, materiais de limpeza, roupas, calçados e acessórios em bom estado.

Entre os itens mais necessários estão ovos, óleo, verduras e alimentos não perecíveis, como arroz, feijão, açúcar, café, leite, macarrão, farinha, molho de tomate, milho, ervilha, palmito, azeitona, sucos, achocolatado, temperos e misturas para bolo.

As roupas, calçados e acessórios recebidos abastecem o bazar solidário mantido pelo Cevam. A renda obtida com as vendas é utilizada para custear despesas cotidianas, como a compra de gás de cozinha, medicamentos e insumos para a manutenção da horta.

Além das doações de produtos, a instituição busca pessoas e empresas interessadas em realizar contribuições financeiras regulares, fundamentais para reduzir o passivo financeiro, manter os serviços e ampliar os projetos educativos voltados ao enfrentamento da violência contra a mulher.

As doações podem ser entregues diretamente na sede da instituição ou realizadas por meio da chave Pix [email protected]. Informações também podem ser obtidas pelo telefone (62) 3847-4972.

Em um cenário em que os casos de violência contra a mulher continuam desafiando o poder público e a sociedade, o Cevam segue cumprindo a missão que motivou sua criação há 45 anos: oferecer proteção, acolhimento e oportunidade de recomeço para mulheres que tiveram seus direitos violados. Agora, para continuar salvando vidas, a instituição também precisa da ajuda da população para manter esse trabalho.

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