terça-feira, 26 de maio de 2026
14 pacientes

Últimos pacientes deixam antigo Hospital Colônia em Barbacena

Fechamento do último pavilhão de longa permanência expõe a memória de uma instituição associada a abandono, confinamento e violações

Luana Avelarpor Luana Avelar em 26 de maio de 2026
Barbacena
Foto: Michèle Guirlanda / Fhemig.

A porta do Pavilhão Antônio Carlos foi fechada com cadeado na última segunda-feira (25), em Barbacena. Do lado de fora, estavam os últimos 14 pacientes de longa permanência do antigo Hospital Colônia. Do lado de dentro, ficou a história de uma instituição que, durante décadas, serviu para afastar da vida social pessoas que o Estado, as famílias e a sociedade não quiseram acolher.

Com a transferência dos pacientes para uma residência terapêutica, Minas Gerais encerrou a estrutura remanescente de um hospital que se tornou referência nacional da violência manicomial no país. Inaugurado no início do século 20, o antigo Colônia abrigou pacientes psiquiátricos, mas também pobres, homossexuais, epilépticos, mulheres consideradas indesejadas e pessoas internadas por razões sociais, familiares, morais ou políticas.

Últimos moradores

Os 14 pacientes transferidos são idosos e passaram boa parte da vida dentro da instituição. Eles viveram, em média, 49 anos internados; a idade média atual é de 73 anos, e três chegaram ao hospital antes de completar 15 anos. A nova residência terapêutica foi preparada para receber o grupo com acompanhamento especializado e cuidados clínicos, de mobilidade e alimentação.

O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena seguirá funcionando, mas sem pacientes de longa permanência. A unidade permanece como referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais, dentro das diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), preconizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

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Internação sem diagnóstico

A história do Hospital Colônia começou em 1903, quando o espaço foi inaugurado como Sanatório de Barbacena, inicialmente voltado ao tratamento de tuberculose. Em 1911, passou a ser conhecido como Hospital-Colônia, primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais.

Com o passar das décadas, muitos internos passaram a ser enviados ao hospital sem diagnóstico de transtorno mental. Eram pessoas pobres, abandonadas, rejeitadas pela família ou consideradas inadequadas pelos padrões de seu tempo. A internação podia funcionar como resposta a comportamentos que contrariavam a moral dominante, a organização familiar ou interesses políticos.

Segundo dados do governo de Minas Gerais, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição entre 1942 e 2020. Aproximadamente 24 mil morreram. Em determinado momento, o complexo chegou a reunir 3.500 pacientes ao mesmo tempo. Os números dimensionam uma estrutura pública que sustentou, por décadas, violência contra pessoas vulneráveis ou consideradas indesejadas.

O horror documentado em livro

A história do antigo Hospital Colônia ganhou alcance nacional com o livro-reportagem “Holocausto brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”, da jornalista Daniela Arbex. Publicada em 2013, a obra reconstrói a trajetória da instituição a partir de documentos, fotografias, relatos de sobreviventes, ex-funcionários e pessoas ligadas à rotina do hospital.

No livro, Arbex aponta que 60 mil pessoas morreram no maior hospício do país. A obra descreve internações forçadas, maus-tratos, fome, frio, superlotação e perda de identidade. Ao reunir esses relatos, a jornalista transformou em memória pública uma violência que, por décadas, foi tratada como rotina institucional.

Fim da violência 

Desde 2019, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais conduz a saída gradual de moradores do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. Entre 2019 e 2025, 68 pessoas receberam alta para continuidade do cuidado fora da internação permanente. Em 2022, houve 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos em Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga.

Durante a cerimônia, o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti, afirmou que a saída dos últimos pacientes encerra um processo de décadas. “Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta. Vários aqui presentes estiveram conosco nesse caminho. A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes. É talvez o momento mais emocionante nos anos que estive à frente da Secretaria, um legado do qual me orgulho com vocês”, lembrou.

Memória para impedir repetição

Parte da história do antigo Hospital Colônia está preservada no Museu da Loucura, instalado no complexo onde funcionou a instituição. O espaço reúne documentos, fotografias e objetos ligados à assistência psiquiátrica em Minas Gerais e mantém visível um passado que não pode ser reduzido a erro administrativo ou falha de época.

A partir da década de 1980, com a reforma psiquiátrica brasileira, Barbacena começou a mudar. O modelo de confinamento perdeu espaço para serviços comunitários, residências terapêuticas e atendimento fora dos muros hospitalares. O processo, porém, foi lento, e muitos pacientes permaneceram internados por décadas antes que a saída fosse possível.

O fechamento da última estrutura de longa permanência não repara as mortes nem devolve aos sobreviventes os anos vividos sob tutela. Mas obriga o país a olhar para Barbacena pelo que foi: uma violência institucional contra pessoas que deveriam ter recebido cuidado, proteção e escuta.

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