sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Saúde mental

Nova NR-1 muda regras sobre saúde mental no trabalho; entenda

Atualização entra em vigor em 26 de maio e passa a exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente corporativo, em meio ao avanço dos afastamentos por transtornos mentais no país

Luana Avelarpor em
Saúde mental

A saúde mental dos trabalhadores passa a ocupar um novo lugar nas obrigações das empresas brasileiras. A partir de 26 de maio de 2026, entra em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1, que determina que organizações de todos os portes identifiquem, monitorem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

A mudança ocorre em meio ao aumento dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais no país. Em 2025, o Brasil registrou 534.904 afastamentos desse tipo, o maior número da série histórica iniciada em 2014, segundo dados do INSS e do Ministério da Previdência Social. O total representa alta de 13,2% em relação a 2024, quando foram contabilizados 472.328 casos. O custo em benefícios pagos pelo sistema previdenciário passou de R$ 3,5 bilhões.

No primeiro trimestre de 2026, os registros indicam leve desaceleração, mas ainda em patamar elevado. Foram 105.874 afastamentos por saúde mental, queda de apenas 3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume corresponde a 12,9% de todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS no período. A ansiedade segue como principal causa isolada dos afastamentos.

O que muda nas empresas

Com a atualização da NR-1, os riscos psicossociais passam a fazer parte do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, sistema que orienta as empresas a documentar e controlar fatores capazes de comprometer a saúde dos trabalhadores.

Para Denise Milk, psicóloga e especialista em saúde mental no ambiente corporativo, a mudança amplia o olhar das organizações sobre segurança e saúde no trabalho.

“Até então, o GRO, (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais), sistema que obriga as empresas a documentar e controlar riscos à saúde dos trabalhadores, se concentrava em ameaças físicas, químicas e biológicas. Com a atualização, os riscos psicossociais passam a integrar formalmente esse sistema.”

Na prática, as empresas deverão mapear situações como assédio moral, sexual ou de qualquer natureza, exposição a eventos violentos ou traumáticos, sobrecarga ou subcarga de tarefas, pressão excessiva por resultados, falta de autonomia, baixo controle sobre as atividades, problemas de comunicação, mudanças organizacionais mal conduzidas, baixo reconhecimento e trabalho remoto ou isolado sem suporte adequado.

A avaliação deverá ser feita com base em evidências documentadas. Entre os instrumentos possíveis estão questionários, pesquisas de clima, entrevistas, grupos focais e análise de indicadores internos, como absenteísmo e rotatividade.

Leia mais: O que a qualidade do sono revela sobre a nossa saúde mental

Afastamentos acendem alerta

Os dados de saúde mental no trabalho reforçam a urgência da norma. Ansiedade e depressão lideram os diagnósticos associados aos afastamentos. De acordo com levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, os transtornos ansiosos corresponderam a 40% de todos os afastamentos por saúde mental em 2025.

O problema aparece com maior força em estados de grande concentração econômica. São Paulo registrou 149.375 casos, seguido por Minas Gerais, com 83.321, e Rio Grande do Sul, com 46.738.

A dimensão do problema também ultrapassa as fronteiras brasileiras. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimam que cerca de 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos por ano em razão de depressão e ansiedade. O impacto aparece na produtividade, nos custos das empresas e no enfraquecimento das equipes.

Segundo Denise Milk, ambientes de trabalho adoecidos costumam dar sinais antes que os afastamentos se tornem estatística. Entre os principais alertas estão o aumento do absenteísmo por doença, a alta rotatividade e o presenteísmo, situação em que o trabalhador comparece ao trabalho, mas tem a saúde e a produtividade comprometidas. Irritabilidade e sintomas psicossomáticos também podem indicar problemas no ambiente corporativo.

“A NR-1 tem potencial de gerar transformação real na cultura organizacional, mas isso não vai acontecer automaticamente. As empresas mais maduras já estão adotando práticas concretas: diagnóstico sistemático com indicadores, espaços de escuta e acolhimento, qualificação de lideranças. O que vemos, porém, é que muitas ainda estão testando caminhos. A mudança real depende do nível de maturidade da empresa em mexer na causa do adoecimento — e não apenas para maquiar sintomas.”

Saúde mental vira conformidade legal

A atualização da NR-1 muda também o lugar da saúde mental dentro das empresas. O tema deixa de ser tratado apenas como campanha de conscientização ou ação pontual de bem-estar e passa a integrar a gestão formal de riscos ocupacionais.

Segundo Denise, uma das práticas que mais tem avançado entre as organizações é a adoção de ferramentas de diagnóstico com indicadores mensuráveis. A proposta é identificar fatores de risco antes que eles resultem em adoecimento, afastamentos ou perda de produtividade.

“Saúde mental no trabalho deixou de ser pauta de conscientização. Agora é também uma questão de conformidade legal e as empresas que ainda não entenderam isso precisam agir com urgência.”

A fiscalização ficará a cargo do Ministério do Trabalho e Emprego. A atuação ocorrerá em duas frentes: análise da documentação das empresas e verificação presencial nas instalações, para observar como as atividades são realizadas de fato.

Nos primeiros 90 dias após a entrada em vigor da norma, o princípio da dupla visita prevê que empresas com irregularidades sejam notificadas para correção antes de eventual autuação, a depender da gravidade da infração. Depois desse período, o descumprimento poderá resultar em autuações e multas, conforme a legislação trabalhista.

A NR-1 estabelece as disposições gerais e o gerenciamento de riscos ocupacionais aplicáveis a empregadores e trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho. Com a atualização, os riscos psicossociais passam a ser formalmente incorporados a esse sistema, tornando a saúde mental parte da responsabilidade legal das empresas.

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