Ateliê Jatobá Nascente reúne arte e formação em Goiânia
Inaugurado em maio, espaço coletivo reúne seis artistas visuais e combina criação, moradia e atividades formativas
Em Goiânia, um novo ateliê nasce menos como sala de trabalho e mais como tentativa de dar estrutura à vida artística. Inaugurado em 15 de maio, o Ateliê Jatobá Nascente reúne seis artistas visuais no Loteamento Shangry-lá e combina produção, moradia, formação e convivência.
O espaço é conduzido pela Associação Jatobá Nascente e reúne Abraão Veloso, Lucélia Maciel, Genor Saler, Tor Teixeira, William Maia e Xica. Vindos de Minas Gerais, Bahia, Tocantins, Goiás e Rio de Janeiro, eles se encontram na capital goiana em um projeto que tenta responder a uma questão concreta: como seguir criando fora dos grandes centros, com tempo, espaço e estabilidade.
A iniciativa nasce da relação com o Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, projeto idealizado pelo artista visual Dalton Paula e conhecido pela aproximação entre arte, saberes tradicionais, profissionalização e partilha. No Jatobá Nascente, essa experiência ganha outro formato: além de ateliê, o espaço prevê moradia para os integrantes e atividades abertas ao público.
O modelo tem apoio de dez cotas adquiridas por colecionadores, que receberão obras dos artistas ao longo de até cinco anos. O recurso ajuda a manter o espaço, fortalecer a autonomia financeira do grupo e viabilizar a construção das moradias. Na prática, o ateliê trata como parte da criação aquilo que quase sempre fica fora do debate sobre arte: aluguel, rotina e condições reais de trabalho.
Para Lucélia Maciel, uma das artistas do coletivo, o que sustenta um espaço compartilhado costuma ficar longe das exposições e das imagens de divulgação. “O que normalmente não aparece é o que sustenta o espaço no cotidiano: o cuidado diário com o espaço, os acordos, as escutas, os atravessamentos e também as dificuldades compartilhadas. Um ateliê coletivo não se constrói apenas com obras, mas com presença, confiança e disponibilidade para construir junto.”
No Jatobá Nascente, a convivência é parte do trabalho. Os artistas dividem não só o endereço, mas dúvidas, referências e decisões que interferem no modo como cada pesquisa se desenvolve.
“A convivência atravessa profundamente nossos processos. Estar em coletivo amplia o olhar, desloca certezas e cria espaços de troca que alimentam os processos individuais. Muitas vezes uma conversa, uma dúvida compartilhada ou mesmo o simples acompanhamento do processo do outro reverbera na nossa própria pesquisa”, diz a artista.
A escolha por Goiânia também orienta o projeto. Em vez de tratar a cidade como passagem, o ateliê aposta na capital como lugar de permanência. A presença no Centro-Oeste dialoga com a discussão sobre a concentração de recursos, mercado e visibilidade no país.
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“Acreditamos que criar e permanecer aqui também é uma forma de ampliar o circuito das artes visuais brasileiras, fortalecendo redes locais e construindo novas possibilidades de circulação, formação e autonomia para artistas da região”, afirma Lucélia.
Desde novembro de 2025, os artistas já ocupavam o imóvel e preparavam as atividades. A abertura oficial, em maio, teve ateliê aberto ao público, e apresentou obras e processos em gravura, pintura, escultura, tapeçaria e outras técnicas. O espaço recebe aulas de gravura promovidas pelo Sertão Negro, com apoio da Funarte, ministradas por Xica e Augusto César.
O local abriga encontros semanais do Batalhão das Gravadeiras, coletivo fundado por Xica e formado pelas artistas Anuã Anuá Aucê, Hortência Eduarda e Dara, com apadrinhamento de Lucélia Maciel e Eneida Sanches. A programação deve incluir oficinas, rodas de conversa, exposições, atividades educativas.
“Desejamos construir uma relação de proximidade, escuta e circulação de saberes com o território. O ateliê nasce com o desejo de ser não apenas um espaço de produção artística, mas também um lugar de encontro, formação e convivência”, diz Lucélia.
Em um circuito artístico muitas vezes marcado pela migração em busca de oportunidade, o Ateliê Jatobá Nascente aposta no gesto contrário: criar condições para ficar.