quarta-feira, 27 de maio de 2026
Eleições 2026

Caiado e Zema articulam chapa que mira conservadores sem desgaste do bolsonarismo 

Ex-governadores negociam possível composição ainda no primeiro turno; especialista vê tentativa de consolidação em meio a crise de Flávio Bolsonaro

Thiago Borgespor Thiago Borges em 27 de maio de 2026
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A união, caso seja concretizada, deve mirar o diálogo com o eleitor conservador | Foto: Célio Messias/Governo do Estado de SP

A aproximação entre o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), em torno de uma possível chapa para disputar a Presidência da República mostra a tentativa de construção de um novo polo da direita brasileira. A união, caso seja concretizada, deve mirar o diálogo com o eleitor conservador sem carregar integralmente os desgastes políticos e institucionais do bolsonarismo.

A composição passou a ser tratada como um caminho viável. Em entrevista na última quarta-feira (27) à Rádio Nova Difusora, em São Paulo, Caiado afirmou que tratou do tema com Zema e disse que “existe esse sentimento”, para que a união dos ex-governadores aconteça ainda neste primeiro turno. O ex-chefe do Executivo goiano explicou que a hipótese ganhou força após as últimas pesquisas. Caiado e Zema não decolaram nos levantamentos eleitorais. 

Já o ex-governador de Minas disse, na última terça-feira (26), durante um evento em São Paulo, que uma definição sobre a possível composição só deve acontecer próximo das convenções partidárias. 

Para o doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Josimar Gonçalves, a eventual união entre os dois ex-governadores representa uma tentativa calculada de consolidar uma alternativa competitiva à direita, que não seja capitaneada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que enfrenta uma crise em razão das investigações que associam o parlamentar ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. 

Segundo Gonçalves, Caiado e Zema procuram reunir perfis que dialogam com segmentos distintos, mas complementares, do eleitorado conservador. “Caiado, com seu perfil mais tradicional, de base ruralista consolidada e trânsito no Centrão, e Zema, com seu capital simbólico de gestor austero e outsider das finanças públicas, formam uma combinação que tenta cobrir dois campos simultaneamente: o eleitor conservador de valores e o eleitor liberal de bolso”, analisa.

Na avaliação do cientista político, o objetivo central é disputar a herança política de um setor ideológico que ainda não encontrou uma liderança consolidada para o período pós-Bolsonaro. “Eles querem se posicionar como o campo do centro-direita responsável, em contraposição tanto ao bolsonarismo mais radical quanto ao campo petista”, afirma.

Embora conversem com parcelas semelhantes do eleitorado, Josimar avalia que a força regional de cada governador pode funcionar como elemento de complementaridade. “Há sim uma sobreposição considerável: ambos falam com o eleitor de renda média, evangélico ou católico conservador, contrário ao PT, desconfiante do Lula, esse núcleo é essencialmente o mesmo. Mas as diferenças geográficas e de perfil são relevantes”, destaca.

Josimar destaca que Caiado possui maior inserção junto ao agronegócio organizado e ao eleitorado rural do Centro-Oeste, enquanto Zema concentra força em Minas Gerais e entre setores urbanos identificados com o discurso de austeridade fiscal. “Se conseguirem traduzir essa complementaridade em cobertura territorial real, sem canibalizar votos um do outro, a chapa tem lógica. Se não, corre o risco de ser uma aliança de vaidades que soma pouco”, pondera.

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Em meio à crise de Flávio…

Para Josimar, seria “ingênuo” desvincular a aproximação entre os ex-governadores da crise vivida por Flávio. “O enfraquecimento de Flávio Bolsonaro como herdeiro viável do bolsonarismo abre uma janela de oportunidade objetiva para quem quer disputar esse eleitorado sem carregar o peso do clã Bolsonaro”, afirma.

Na avaliação do cientista, Caiado e Zema tentam absorver parcelas do eleitorado conservador sem assumir um enfrentamento direto contra Bolsonaro, estratégia que considera mais eficiente politicamente. “O movimento é mais sofisticado: eles querem absorver o eleitorado órfão sem nomear a disputa dessa forma. É uma operação de sedução silenciosa, não de confronto declarado”, conclui.

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