Por trás das figurinhas da Copa, um exercício para o cérebro
Febre entre crianças e adultos, coleção de figurinhas estimula memória, atenção, cálculo simples e convivência social, segundo neurologista
O álbum oficial da Copa do Mundo de 2026 voltou a circular entre bancas, escolas, grupos de colecionadores e mesas de casa. Em maio, a versão brochura vendeu mais de 125 mil exemplares e liderou o ranking nacional de publicações mais comercializadas, segundo levantamento da PublishNews em parceria com a Nielsen.
A febre das figurinhas atravessa gerações e chega acompanhada de números expressivos. Para completar o álbum, são necessárias 980 figurinhas das 48 seleções participantes. Mas, além da busca por pacotes, repetidas e espaços em branco, o hábito de colecionar também chama atenção da neurociência.
Ao procurar, organizar, memorizar e trocar figurinhas, crianças e adultos acionam diferentes habilidades cognitivas. A atividade exige atenção às páginas, reconhecimento visual dos jogadores, planejamento e noções simples de cálculo, especialmente quando a criança precisa descobrir quantas figurinhas faltam ou quais podem ser negociadas.
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Fora das telas
O álbum também recoloca em circulação uma experiência menos mediada por telas. Em vez de interações restritas ao ambiente digital, a coleção leva crianças a encontros presenciais, conversas em grupo e pequenas negociações. Nesse processo, elas precisam pedir, oferecer, esperar a vez, lidar com recusas e compreender que nem toda troca acontece como esperado.
Para a neurologista, esse aspecto social é uma parte relevante da brincadeira. “As trocas de figurinhas incentivam o contato presencial e ajudam as crianças a desenvolver comunicação, negociação, paciência e convivência em grupo. São experiências importantes para o desenvolvimento emocional e social”, ressalta.
Embora seja associado ao universo infantil, o álbum da Copa também mobiliza adultos. Para muitos colecionadores, comprar pacotinhos e procurar figurinhas raras reativa lembranças de outras edições do torneio, da infância e de vínculos familiares. O gesto de colar uma figurinha pode funcionar como uma pausa em meio à rotina.
“O álbum também pode ser extremamente positivo porque ativa a memória afetiva e proporciona momentos de relaxamento e prazer fora das demandas do trabalho e da rotina”, afirma Gaioso.
Há ainda o componente da recompensa. Completar uma página, encontrar uma figurinha desejada ou avançar na coleção produz sensação de conquista. Para o cérebro, esses pequenos desafios funcionam como estímulos ligados à motivação, à persistência e ao prazer.
“Completar páginas, encontrar figurinhas raras ou avançar no álbum gera sensação de prazer e estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e à sensação de satisfação. O álbum da Copa vai muito além do futebol: é estímulo cognitivo, conexão social e construção de memórias”, conclui.