quinta-feira, 28 de maio de 2026
Adesão ao subsídio

Subsídios para combustíveis não devem reduzir preços imediatamente em Goiás, aponta Sindiposto

Medidas anunciadas pelos governos federal e estadual tentam conter impactos da alta internacional do petróleo, mas setor afirma que descontos ainda dependem de toda a cadeia de distribuição dos combustíveis

Letícia Leitepor Letícia Leite em 27 de maio de 2026

Os subsídios anunciados pelos governos federal e estadual para gasolina e diesel ainda não devem gerar reflexos imediatos no bolso do consumidor em Goiás. A avaliação é do presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado de Goiás (Sindiposto Goiás), Márcio Andrade, e da economista Greice Guerra, que apontam que os descontos anunciados precisam percorrer toda a cadeia de produção, distribuição e revenda antes de chegar aos postos de combustíveis.

Recentemente, o Governo de Goiás oficializou a adesão ao Regime Emergencial de Abastecimento Interno de Combustíveis, destinando R$ 0,60 por litro de óleo diesel. Somado ao incentivo federal, o subsídio total ao diesel chega a R$ 1,20 por litro. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto que estabelece subsídio de R$ 0,44 por litro da gasolina, com validade inicial de dois meses. O objetivo é amenizar os impactos da alta internacional do petróleo provocada pelas tensões no Oriente Médio.

Segundo Márcio Andrade, ainda não é possível estimar se haverá queda efetiva nos preços ao consumidor. “Não temos como estimar como é que vai ser a redução dos combustíveis por causa do incentivo. Eu posso dizer que a questão do diesel, que já tem incentivo há mais tempo, ainda não teve reflexos para nós”, afirmou.

O presidente do Sindiposto Goiás explica que o benefício não chega diretamente aos postos. “O repasse de subsídio, ele acontece junto ao produtor, que seja Petrobras e outras refinarias que temos no País, e aos importadores de combustíveis, então o posto não recebe nenhum incentivo, esse incentivo acontece na origem da cadeia”, destacou.

De acordo com ele, o desconto depende da adesão de refinarias, produtores e importadores ao programa federal para então ser repassado às distribuidoras e, posteriormente, aos postos. “Para que esse desconto chegue ao consumidor, é necessário que o produtor venda para as distribuidoras com o desconto, e esse desconto seja repassado das distribuidoras para os postos, para que então possa chegar também ao consumidor”, explicou.

Márcio afirma que, historicamente, reduções praticadas pelas distribuidoras costumam chegar ao consumidor à medida que os estoques dos postos são renovados. “O que eu posso garantir para o consumidor é que se houver reduções das distribuidoras para os postos, essas reduções com certeza chegam para o consumidor baseado no histórico que a gente tem de mercado”, pontuou.

Pressão internacional nos combustíveis

A economista Greice Guerra avalia que a medida surge em meio ao agravamento das tensões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio, cenário que mantém o petróleo pressionado no mercado internacional.

“Essa alta é em função do conflito que acontece lá no Oriente Médio, porque nós temos ainda um estreito de Ormuz fechado”, afirmou. Segundo ela, mesmo com avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã, o cenário ainda é considerado instável. “Isso vem pressionando o preço do barril de petróleo, que volta e meia bate a casa dos 100 dólares e isso acarreta elevação dos preços dos combustíveis a nível mundial e no Brasil não seria diferente”, disse.

Guerra acredita que o subsídio pode gerar sensação de alívio momentâneo, mas sem resolver estruturalmente o problema. “Os efeitos dela ocorrem só no curto prazo, não é uma medida eficaz para conter de maneira efetiva a alta do preço dos combustíveis no Brasil e a alta da inflação”, afirmou.

Segundo ela, a forte dependência do mercado internacional limita a capacidade do governo de sustentar os subsídios caso o petróleo continue em alta. “Essa medida não suporta as oscilações do mercado internacional, principalmente com esse conflito que temos no Oriente Médio”, afirmou.

Greice destaca ainda que o barril do petróleo continua atrelado à variação do dólar e às tensões globais. “Nós temos que lembrar que o preço do barril de petróleo é indexado ao dólar e o dólar também vem muito oscilante”, ressaltou.

Impactos na inflação

Apesar das críticas quanto à eficácia de longo prazo, representantes do setor reconhecem que os incentivos podem ajudar a reduzir impactos inflacionários no curto prazo, especialmente sobre transporte e produção de alimentos.

“O subsídio dos combustíveis nesse período de guerra, onde os preços estão aumentando muito, é fundamental para o controle da inflação, a manutenção da nossa economia, e com certeza impacta nos custos de transporte e na produção de alimentos também no campo”, afirmou Márcio.

Ainda assim, ele reforça que a efetividade depende da adesão de todos os setores da cadeia de combustíveis. “Precisamos da efetividade desses incentivos para que o resultado seja alcançado”, concluiu.

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