sexta-feira, 9 de outubro de 2026
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Vape vicia mais que cigarro e Brasil bate recorde de fumantes

Fumantes crescem 25% em um ano no país enquanto cigarro eletrônico se torna principal porta de entrada para dependência de nicotina entre jovens; Reino Unido proíbe venda para toda uma geração

Luana Avelarpor em
Vape
foto: magnific

O Brasil está fumando mais. E de formas que o país ainda não sabe lidar. Enquanto o cigarro tradicional perdeu espaço entre adolescentes na última década, o vape preencheu esse vácuo com uma eficiência alarmante. Os dados do Ministério da Saúde revelam um paradoxo: o consumo de cigarros convencionais entre jovens de 12 a 17 anos caiu de 6,8% em 2019 para 5,6% em 2024, mas a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% para 11,6% no mesmo período, crescimento de 25% em apenas um ano.

O número não é apenas estatístico. Ele representa uma geração que começou a fumar de um jeito diferente, por um dispositivo que não cheira a cigarro, não produz fumaça visível e, em muitos casos, nem é reconhecido como fonte de nicotina por quem o usa. O cigarro eletrônico se tornou a principal porta de entrada para a dependência de nicotina entre os jovens brasileiros, e o perfil do dependente mudou.

O pneumologista Evandro Alencar Scussiatto, cooperado da Unimed Goiânia, aponta que esse fenômeno é mais grave do que parece à primeira vista. “O cigarro eletrônico atrai não fumantes com a falsa sensação de segurança. A nicotina nos vapes é tão ou mais viciante que no cigarro convencional, além de conter metais pesados e solventes. Os aerossóis contêm formaldeído, acroleína, diacetil e partículas ultrafinas que alcançam os alvéolos. Não existe tempo seguro de exposição”, afirma.

Leia mais: Pesquisa coloca Goiás entre Estados com maior consumo de vape entre adolescentes

Nicotina em doses que o cigarro convencional nunca alcançou

Um estudo inédito do InCor, realizado em parceria com a Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e o Laboratório de Toxicologia da FMUSP, quantificou o que muitos já suspeitavam, mas poucos tinham como provar. A pesquisa acompanhou mais de 400 usuários de cigarros eletrônicos em bares, shows e eventos no estado de São Paulo e encontrou níveis de nicotina até seis vezes superiores aos registrados em fumantes de 20 cigarros por dia.

As concentrações chegaram a 4.530 ng/ml em usuários com consumo diário e intenso, contra uma média de 400 ng/ml nos fumantes convencionais. A diferença não é marginal. É estrutural. Enquanto um fumante tradicional dá cerca de 200 tragadas por dia, um usuário de vape com consumo elevado pode chegar a 1.500 tragadas diárias, sem perceber, sem sentir o cheiro característico do tabaco e, em muitos casos, sem sequer saber que está ingerindo nicotina.

O estudo revelou que 54% dos participantes não sabiam se o produto que usavam continha nicotina. Outros 8% afirmaram categoricamente que não havia nicotina no dispositivo. Nesse subgrupo, a pesquisa encontrou a substância em 55% das amostras analisadas.

Danos que aparecem em meses, não em décadas

O tabagismo convencional é associado a doenças que se desenvolvem ao longo de anos de exposição. O vape não respeita esse calendário. Scussiatto detalha que os danos documentados do cigarro eletrônico aparecem em um ritmo muito mais acelerado. “Com o vape, já foram documentados casos de insuficiência respiratória aguda, EVALI, lesão pulmonar associada ao cigarro eletrônico, e bronquiolite obliterante após três meses de uso diário. O uso por curto período já eleva frequência cardíaca, provoca inflamação sistêmica e disfunção endotelial”, alerta.

A EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaporizadores, ganhou visibilidade nos Estados Unidos a partir de 2019, quando centenas de casos foram notificados em poucas semanas. No Brasil, o rastreamento ainda é limitado, o que dificulta a dimensão real do problema.

Parar é difícil, mas tem solução

Diante desse cenário, a pergunta mais frequente entre quem já depende da nicotina continua sendo a mesma: como parar? A resposta dos especialistas é direta. Sem auxílio profissional, apenas 3% a 5% dos fumantes conseguem interromper o tabagismo de forma duradoura. Com tratamento combinando farmacologia e abordagem motivacional, esse índice pode superar 70%.

“O tratamento existe e tem resultado comprovado. Os sinais de que a pessoa precisa de ajuda especializada incluem fumar mais de dez cigarros por dia, tentativas anteriores sem resultado, necessidade de fumar nos primeiros trinta minutos após acordar e sintomas como ansiedade e insônia ao tentar parar”, orienta Scussiatto.

O que o Reino Unido decidiu fazer

Enquanto o Brasil ainda debate regulamentação, o Reino Unido tomou uma decisão sem precedentes. Em 20 de abril de 2026, o Parlamento britânico aprovou o Tobacco and Vapes Bill, legislação que proíbe permanentemente a venda de produtos de tabaco a pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. A lei entra em vigor em janeiro de 2027, com mecanismo progressivo: a cada ano, a idade mínima para compra de cigarros sobe um ano, até que a restrição alcance toda a população.

A legislação também proíbe vapes em veículos com crianças e nas proximidades de escolas, além de restringir sabores voltados ao público jovem, como menta, frutas e doces, que comprovadamente atraem não fumantes para o consumo. A Nova Zelândia foi o primeiro país a adotar critério semelhante, em 2022.

O movimento britânico reacende o debate sobre qual deve ser o papel do Estado na regulação de substâncias que causam dependência. No Brasil, o vape segue em uma zona cinzenta regulatória que facilita o acesso de jovens a produtos cuja composição, em muitos casos, nem os próprios usuários conhecem.

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