89% dos brasileiros culpam a genética pelo câncer, mas a ciência diz outra coisa
Pesquisa revela que fatores modificáveis como alimentação, sedentarismo e álcool causam 90% dos casos; um em cada quatro brasileiros ainda não sabe que a doença pode ser prevenida
Há uma crença confortável que atravessa classes sociais, regiões e graus de escolaridade no Brasil: a de que o câncer é, no fundo, uma questão de destino. Ou você tem os genes certos, ou não tem. Nesse raciocínio, a prevenção é pouco mais que uma ilusão bem-intencionada. Oitenta e nove vírgula quatro por cento dos brasileiros apontam a herança genética como fator de risco para a doença. É o índice mais alto entre todos os fatores listados no levantamento.
A ciência discorda. A genética responde por 5% a 10% dos casos de câncer. Os outros 90% têm origem em fatores modificáveis: o que se come, quanto se move, o quanto se bebe, o peso que se carrega. Esses mesmos fatores têm potencial de prevenir até 40% dos cânceres. Mas essa informação não chegou à maioria dos brasileiros, ou chegou e foi descartada em favor de uma narrativa mais simples, a do organismo que trai.
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O retrato vem do relatório “Mais Dados Mais Saúde”, divulgado na última quarta-feira (3) pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Inca. A pesquisa ouviu 6.566 adultos em todos os estados entre setembro e outubro de 2025, num país que projeta cerca de 781 mil novos diagnósticos de câncer por ano entre 2026 e 2028. O que encontrou não é exatamente ignorância. É algo mais difícil de corrigir: um conhecimento seletivo, moldado por décadas de campanhas públicas em algumas frentes e de silêncio calculado em outras.
O que a regulação do tabaco não alcançou
O tabagismo é reconhecido como fator de risco por 90,5% dos entrevistados. A exposição solar excessiva, por 88,3%. Ambos são produto de décadas de investimento público em comunicação, regulação e campanhas de massa. O cigarro é um caso de sucesso de saúde pública que o Brasil costuma omitir quando fala de si mesmo.
O problema é o que ficou de fora. O sedentarismo é reconhecido como fator de risco por 48,3% da população. O excesso de peso, por 54,1%. O consumo de carne vermelha, por 27,5%. Esses fatores têm farta evidência científica associando-os ao câncer e têm, ao contrário do cigarro, indústrias poderosas com interesse ativo em manter a população desinformada. A assimetria no conhecimento não é um acidente.
A ilusão que a indústria construiu em décadas
Bebidas alcoólicas, embutidos e ultraprocessados são reconhecidos como fatores de risco por entre 65% e 71% dos brasileiros, números que ainda deixam um terço da população fora do radar. E 61,3% acreditam que suplementos vitamínicos ajudam a prevenir o câncer. Não ajudam. A prevenção está na comida de verdade, não em cápsulas. Décadas de marketing agressivo construíram uma percepção que a ciência, sozinha, tem dificuldade de desfazer.
A prevenção que a renda não deixa fazer
Renda e escolaridade organizam o que as pessoas sabem e o que conseguem fazer com o que sabem. Entre os brasileiros com renda de até R$ 2.000, 45,5% reconhecem o sedentarismo como fator de risco. Entre os que ganham mais de R$ 10 mil, esse percentual sobe para 59,6%. Entre os que se reconhecem acima do peso, 22,9% das pessoas de menor renda dizem estar fazendo algo para mudar; nas faixas mais altas, esse número passa de 40%. A explicação mais fácil, a de que os pobres simplesmente sabem menos ou se importam menos com a própria saúde, é também a mais equivocada.
Morar em um bairro sem praça, sem calçada e sem segurança não é uma questão de preferência. Comprar ultraprocessados quando custam menos que alimentos frescos não é uma escolha no sentido pleno da palavra. O ambiente determina o comportamento antes de qualquer campanha ter a chance de agir. E o câncer funciona como uma doença socialmente invisível entre os mais pobres: muitos morrem sem diagnóstico, porque a doença exige uma cadeia de cuidados que essa população raramente consegue percorrer por inteiro.
O jovem já foi alcançado
Entre os jovens de até 24 anos, 49,1% consomem carne vermelha sem intenção de reduzir; 32,3% fazem o mesmo com ultraprocessados; 24,4%, com bebidas açucaradas. Grandes eventos esportivos e musicais são patrocinados por marcas de refrigerantes, bebidas alcoólicas e fast food. A indústria fala com esse público usando seus influenciadores e suas referências culturais. A saúde pública, nessa disputa, chega atrasada. E quando tenta reagir pela regulação, encontra brechas: refrigerantes com açúcar reduzido para escapar das advertências frontais recebem adoçantes em quantidade compensatória. O rótulo muda. O produto, não.
Prevenir câncer não é apenas parar de fumar ou fazer mamografia. É reconhecer que alimentação, atividade física, peso corporal e consumo de álcool também determinam quem adoece, e quem poderia não adoecer. Um em cada quatro brasileiros ainda não sabe que a doença pode ser prevenida. Esse número, sozinho, já diz tudo.