quarta-feira, 7 de outubro de 2026
DIREITO TRABALHISTA

Recreio de professor pode virar hora extra, decide STF

Entendimento firmado pela Suprema Corte muda a interpretação sobre intervalos escolares e coloca redes públicas e privadas de ensino sob atenção jurídica

Thais Munizpor em
stf
STF - Foto: Divulgação

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o recreio escolar, na educação básica, e os intervalos entre aulas, no ensino superior, podem integrar a jornada de trabalho dos professores quando o período não representar descanso efetivo. O entendimento foi firmado no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1058, concluído em novembro de 2025, e já repercute entre profissionais da educação, instituições de ensino e especialistas em Direito do Trabalho.

Pela tese fixada pela Corte, a regra geral é que o professor permanece à disposição do empregador durante esses intervalos. No entanto, a decisão também estabeleceu que a instituição de ensino poderá demonstrar que o docente utilizou o período para atividades estritamente pessoais, situação em que o tempo não será contabilizado na jornada de trabalho. O ônus da prova caberá ao empregador.

Segundo a advogada Mylena Leite Ângelo, especialista em Direito do Servidor Público, a decisão acompanha uma realidade vivida por muitos profissionais da educação.

“O Supremo consolidou o que os professores vivenciam diariamente. Em muitos casos, o intervalo não é descanso real. O docente continua corrigindo provas, organizando material, atendendo alunos, preparando aulas e resolvendo demandas administrativas. A decisão reconhece justamente essa realidade prática”, afirma.

O que mudou com a decisão do STF

A discussão chegou ao STF após questionamentos sobre entendimentos da Justiça do Trabalho que consideravam o recreio como tempo à disposição do empregador. No julgamento, os ministros concluíram que o período integra a jornada como regra, mas afastaram a presunção absoluta adotada em decisões anteriores, permitindo prova em sentido contrário.

Na prática, o entendimento altera a forma como escolas e universidades deverão analisar os intervalos concedidos aos docentes. Caso o professor permaneça realizando atividades relacionadas ao trabalho ou aguardando determinações da instituição, o período poderá ser computado na jornada e gerar reflexos remuneratórios.

“Estamos falando de uma realidade histórica presente em grande parte das instituições de ensino brasileiras. O entendimento do STF não cria um novo direito. Ele reconhece uma situação que já vinha sendo vivenciada pelos professores há muitos anos”, explica Mylena Leite Ângelo.

O tema tem alcance nacional. Dados do Censo Escolar apontam que o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de professores atuando na educação básica, o que amplia os efeitos da decisão para redes estaduais, municipais e instituições privadas de ensino.

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Possíveis impactos para escolas e professores

Além das discussões sobre horas extras e remuneração, o julgamento deve influenciar procedimentos internos relacionados ao controle de jornada, organização dos horários escolares e registro das atividades realizadas pelos docentes durante os intervalos. Especialistas do setor educacional também avaliam que as instituições precisarão documentar de forma mais detalhada os períodos efetivamente destinados ao descanso.

Segundo Mylena Leite Ângelo, a decisão pode levar a revisões administrativas em diferentes redes de ensino.

“A tendência é que escolas e administrações públicas passem a observar com mais atenção a forma como esses intervalos acontecem na prática. Ignorar essa discussão pode gerar impactos administrativos e financeiros relevantes nos próximos anos”, destaca.

A advogada também observa que a questão ultrapassa o aspecto remuneratório. Estudos sobre saúde ocupacional frequentemente associam a ausência de pausas efetivas ao aumento de estresse, ansiedade, esgotamento profissional e outros problemas relacionados ao ambiente de trabalho.

“Quando o professor não consegue descansar, os impactos ultrapassam a questão financeira. Existe reflexo na saúde, na qualidade de vida e até no ambiente escolar”, pontua.

Do ponto de vista jurídico, a discussão envolve dispositivos da Constituição Federal relacionados à remuneração do trabalho extraordinário, além de princípios ligados à valorização do trabalho e do magistério.

“O que o STF fez foi dar interpretação prática a direitos já previstos constitucionalmente. O professor que permanece trabalhando durante o intervalo continua à disposição da instituição e isso precisa ser analisado sob a ótica da jornada efetivamente cumprida”, afirma Mylena Leite Ângelo.

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