segunda-feira, 6 de julho de 2026
Saúde

Quando o formigamento nas mãos deixa de ser normal

Síndrome do túnel do carpo pode comprometer a força, a sensibilidade e até atividades simples do dia a dia

Luana Avelarpor Luana Avelar em 9 de junho de 2026
mãos

Sacudir as mãos na madrugada para aliviar um formigamento persistente parece gesto banal. Para quem convive com isso semanas a fio, o hábito pode ser o primeiro sinal de que algo comprime o nervo mediano dentro do pulso. A síndrome do túnel do carpo costuma demorar meses ou até anos para ser diagnosticada porque os primeiros sintomas passam por cansaço ou má postura, e a demora em buscar avaliação pode ser cara: a compressão prolongada acumula danos que, em certos casos, não se revertem.

A síndrome ocorre quando o nervo mediano sofre pressão ao atravessar o túnel do carpo, canal estreito formado pelos ossos do punho e por um ligamento. O ortopedista Ítalo Aurélio, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), diz que muitos pacientes convivem com a compressão sem saber. “O formigamento pode ser passageiro em algumas situações, como após permanecer muito tempo na mesma posição. Porém, quando se torna frequente, principalmente durante a noite ou ao acordar, merece investigação. Se vier acompanhado de dor, dormência ou perda de força, é importante procurar avaliação especializada”, diz.

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Com o tempo de uso de celulares e computadores em alta, cresce a crença de que esses dispositivos causam a síndrome. A relação, no entanto, é mais sutil. “O celular e o computador não são considerados causas diretas da síndrome do túnel do carpo. No entanto, longos períodos de uso, movimentos repetitivos, ausência de pausas e posturas inadequadas dos punhos podem contribuir para o aparecimento ou agravamento dos sintomas em pessoas predispostas”, afirma Ítalo Aurélio. A condição não depende de um único fator: diabetes, hipotireoidismo, obesidade e alterações hormonais também aumentam o risco. Mulheres são mais afetadas, especialmente durante a gravidez e a menopausa.

A linha entre o incômodo passageiro e o quadro clínico tem uma característica definidora: a frequência. O alerta surge quando o desconforto se repete toda noite, ou quando a pessoa acorda com as mãos dormentes sem causa aparente. “Muitas pessoas relatam que acordam durante a madrugada com as mãos dormentes ou precisam sacudi-las para aliviar o desconforto. Esse é um relato bastante comum entre pacientes com síndrome do túnel do carpo”, diz Ítalo Aurélio. Sem tratamento, o quadro avança: além do formigamento, surgem dor, sensação de choque elétrico e dificuldade para segurar objetos. Abrir recipientes, usar talheres e abotoar roupas passam a exigir esforço desproporcional.

Quando a compressão se prolonga, o nervo perde a capacidade de transmitir sinais e as consequências aparecem na musculatura. “Com a progressão da doença, pode ocorrer perda de força e diminuição da destreza manual. Em situações mais graves, observamos inclusive atrofia muscular na mão, o que impacta diretamente a qualidade de vida do paciente”, destaca Ítalo Aurélio. A atrofia afeta principalmente a base do polegar, região chamada eminência tenar, que diminui de volume quando a inervação é insuficiente por muito tempo. Nesse estágio, o tratamento conservador provavelmente já não será suficiente.

Ao contrário de outras lesões que regridem com repouso, o nervo mediano pode sofrer danos definitivos se a pressão não for aliviada a tempo. “A compressão prolongada do nervo pode levar à perda definitiva de sensibilidade e força. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para evitar sequelas”, afirma Ítalo Aurélio. O diagnóstico é feito por avaliação clínica, testes específicos e, quando necessário, eletroneuromiografia, exame que mede a velocidade de condução dos impulsos elétricos e determina a gravidade da compressão.

Identificada a tempo, a síndrome responde bem a medidas conservadoras: órteses noturnas para manter o punho em posição neutra, fisioterapia e ajustes na rotina. A cirurgia entra em cena quando essas alternativas falham ou quando o nervo já apresenta comprometimento significativo. “A cirurgia é indicada quando os sintomas não respondem ao tratamento conservador ou quando já existe comprometimento importante do nervo. O objetivo é realizar a descompressão do nervo mediano e evitar danos permanentes”, explica Ítalo Aurélio. 

O procedimento, chamado retinaculotomia, consiste em seccionar o ligamento que forma o teto do túnel do carpo. É feita sob anestesia local, em regime ambulatorial. “Quando realizada no momento certo, a cirurgia costuma apresentar excelentes índices de recuperação e melhora funcional”, conclui.

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