quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Análise

Fim da escala 6×1 pode gerar benefícios, mas levanta dúvidas sobre impactos

Enquanto governo destaca ganhos na qualidade de vida, economistas alertam para aumento de custos e possíveis reflexos nos preços

Bruno Goulartpor em
escala 6x1
30 milhões de trabalhadores já atuam na escala 5x2, enquanto 15 milhões permanecem no regime 6x1. Foto: Fernando Frazão/ABr

Bruno Goulart

A proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a ampliação do descanso semanal dos trabalhadores deve avançar nos próximos dias no Senado. A medida é defendida pelo governo federal como um instrumento para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, mas provoca preocupações entre economistas e representantes do setor produtivo sobre os possíveis impactos para as empresas e para a economia brasileira.

O secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Francisco Macena, afirma que a mudança apenas ampliaria uma realidade já presente em boa parte do mercado formal. Segundo Macena, cerca de 30 milhões de trabalhadores com carteira assinada já atuam na escala 5×2, enquanto aproximadamente 15 milhões permanecem no regime 6×1.

“O desafio agora é fazer com que a jornada 5×2 deixe de ser privilégio de parte do mercado formal e alcance todos os trabalhadores formais brasileiros, garantindo mais qualidade de vida, saúde e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal”, afirmou durante entrevista à TV Senado.

Impacto grande na economia

Apesar do argumento social, a economista Greice Fernandes avalia ao O HOJE que a proposta pode trazer consequências econômicas relevantes. Segundo Fernandes, empresas que funcionam em regime contínuo, como indústrias, hotéis, hospitais e outros serviços que operam 24 horas por dia poderão ser obrigadas a contratar mais funcionários para manter o mesmo nível de atendimento e produção.

Leia mais: PT defende reforma do Judiciário e fortalecimento das instituições em seminário sobre democracia

“Essas empresas provavelmente precisarão contratar mais funcionários para manter suas operações, o que eleva os custos. E, como acontece normalmente, esse aumento tende a ser repassado ao preço final dos produtos e serviços”, afirma.

Na avaliação da economista, o aumento dos custos operacionais pode gerar pressão inflacionária e dificultar o trabalho do Banco Central no processo de redução da taxa básica de juros. “De nada adianta reduzir a jornada de trabalho se a renda continuar insuficiente para proporcionar momentos de lazer e convivência familiar”, argumenta.

Aumento de custos

O advogado tributarista e economista Danilo Orsida também diz acreditar que a aprovação da PEC provocaria um aumento dos custos com mão de obra. Segundo Orsida, para manter o mesmo nível de atividade, muitas empresas precisariam contratar novos funcionários ou ampliar o pagamento de horas extras.

Por outro lado, Orsida avalia que pode haver um efeito positivo inicial sobre o emprego. “No curto prazo, poderá haver aumento na contratação de trabalhadores temporários ou em regime parcial para cobrir o dia vago, reduzindo temporariamente o desemprego”, explica à reportagem.

Entretanto, o advogado alerta que, sem ganhos equivalentes de produtividade, a medida pode gerar aumento dos preços e redução dos investimentos privados no médio prazo. O economista destaca que os impactos tendem a ser mais fortes em setores que funcionam de forma ininterrupta, como indústria, hotelaria e parte do comércio, enquanto segmentos como bancos, educação e diversos serviços administrativos já operam predominantemente na escala 5×2.

Exemplos internacionais

Ao analisar experiências internacionais, Orsida cita o caso da França, que adotou a jornada de 35 horas semanais no início dos anos 2000. Segundo o advogado, a medida gerou empregos em um primeiro momento, mas também trouxe efeitos colaterais, como congelamento salarial e a necessidade de reformas posteriores para flexibilizar as regras trabalhistas. Em contrapartida, testes mais recentes realizados na Islândia e no Reino Unido apontaram melhora da saúde mental dos trabalhadores e manutenção da produtividade.

Ainda assim, o economista ressalta que esses países possuem níveis de produtividade superiores aos do Brasil, o que torna a comparação limitada. Por isso, defende uma implantação gradual da mudança. “Uma transição abrupta seria arriscada. O ideal seria uma regra de transição de quatro a cinco anos, permitindo que as empresas absorvam os custos, invistam em tecnologia e reorganizem suas equipes”, afirma Orsida.

Já o cientista político Lehninger Mota diz acreditar que os benefícios sociais da proposta podem superar os custos econômicos. Para Mota, trabalhadores mais descansados tendem a produzir melhor e cometer menos erros. “Uma pessoa que consegue descansar dois dias seguidos tem melhores condições de desempenhar suas atividades com mais eficiência”, afirma.

Mota também argumenta que os avanços tecnológicos ajudam a compensar parte da redução da jornada e cita estudos que apontam que a folha de pagamento representa entre 10% e 15% dos custos totais em muitos segmentos econômicos, reduzindo o impacto final da medida sobre os preços. (Especial para O HOJE)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
escala 6x1 impactos

Veja também

Crise no STF favorece direita e candidatos ‘antissistema’, dizem especialistas

Supremo

Crise no STF favorece direita e candidatos ‘antissistema’, dizem especialistas

Avaliação converge com crescente das discussões no debate público sobre os imbróglios dos minis...
Celina Leão e Gustavo Rocha

Samambaia

Celina Leão lidera pesquisa Quaest com 35% e inaugura comitê em Samambaia

Governadora aparece na liderança com 35% das intenções de voto; vice na chapa, Gustavo Rocha, diz...
Flávia Teles desiste de disputar vaga na Câmara após agravamento de quadro de saúde

ELEIÇÕES 2026

Flávia Teles desiste de disputar vaga na Câmara após agravamento de quadro de saúde

Internada novamente em São Paulo com quadro grave de hipotireoidismo, candidata recebeu orientaçã...
Kajuru anuncia aposentadoria da política após mandato no Senado

Aposentadoria

Kajuru anuncia aposentadoria da política após mandato no Senado

Senador afirma que decisão foi motivada por questões de saúde e falta de reconhecimento
Diretores da PF colocam cargos à disposição após afastamento de Andrei Rodrigues

"Ataques injustificados"

Diretores da PF colocam cargos à disposição após afastamento de Andrei Rodrigues

Integrantes da instituição se manifestaram via nota e prestaram “total apoio” ao diretor-geral...
Mendonça diz que Moraes sabia de relatórios e monitoramento da PF

Suprema Corte

Mendonça diz que Moraes sabia de relatórios e monitoramento da PF

Ministro afirma que documentos monitoraram sua atuação e a de Jorge Messias antes de serem usados ...
Lula e Flávio Bolsonaro

Empate

Quaest aponta empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no 2º turno para 2026

Pesquisa mostra presidente numericamente à frente no 1º turno, mas cenário muda em eventual dispu...
Conheça William Murad, delegado que assume temporariamente o comando da PF

Polícia Federal

Conheça William Murad, delegado que assume temporariamente o comando da PF

Atual diretor-executivo da corporação, delegado tem mais de 20 anos de carreira e experiência em ...