domingo, 8 de novembro de 2026
Impasse

Justiça libera supermercados após 11h e altera regras de trabalho aos domingos em Goiás

Decisão beneficia empresas associadas à Agos e suspende exigência de acordo coletivo para funcionamento após as 11h aos domingos e feriados

Renata Ferrazpor em
Justiça libera supermercados após 11h e altera regras de trabalho aos domingos em Goiás

A decisão da Justiça do Trabalho que suspendeu a aplicação de uma cláusula da Convenção Coletiva dos supermercados em Goiás reacendeu um intenso debate sobre os limites da flexibilização do comércio aos domingos e feriados e seus impactos sobre trabalhadores, empresas e consumidores.

A liminar, concedida pela 8ª Vara do Trabalho de Goiânia, afastou a exigência de que supermercados só pudessem funcionar após às 11h aos domingos e feriados mediante acordo coletivo específico com o sindicato dos trabalhadores. Com isso, estabelecimentos ligados à Associação Goiana de Supermercados (Agos) que integram a ação passam a poder funcionar normalmente, sem necessidade de autorização sindical para esse horário.

A ação foi proposta pela Agos contra entidades sindicais do setor. A associação argumentou que a regra criava distorções concorrenciais, já que empresas em situações diferentes acabavam submetidas a exigências distintas para exercer a mesma atividade econômica.

Ao analisar o caso, o juiz entendeu que a cláusula poderia violar princípios constitucionais ligados à liberdade econômica e à livre concorrência, ao impor condições diferentes para empresas do mesmo segmento.

Debate jurídico e disputa entre entidades

A decisão judicial abriu espaço para uma disputa mais ampla entre interpretações sobre a validade da cláusula e sua aplicação na prática. Para o procurador do Sindicato dos Empregados no Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios de Goiás (Secom-GO), José Nilton Carvalho, o caso não deve ser interpretado como uma invalidade da convenção coletiva, mas como uma controvérsia pontual que ainda será revista.

Em entrevista, o procurador iniciou defendendo a posição institucional do sindicato e afirmando que irá respeitar a decisão judicial enquanto ela estiver vigente, embora já esteja sendo preparado recurso. “Enquanto a decisão liminar estiver em vigor, nós vamos cumprir”, afirmou.

Segundo ele, a liminar não derruba toda a convenção coletiva, mas apenas um trecho específico da cláusula que limita o funcionamento dos supermercados após as 11h aos domingos e feriados. “O que está em discussão não é toda a convenção. É apenas um ponto específico. O restante continua válido, como pisos salariais, reajustes e demais garantias da categoria”, explicou.

José Nilton afirmou ainda que a cláusula foi construída com objetivo de proteger a saúde dos trabalhadores e garantir equilíbrio entre vida profissional e pessoal, especialmente nos finais de semana.

“Isso não foi feito por acaso. Há muitos afastamentos por depressão, burnout e exaustão profunda. A intenção era criar mecanismos de proteção para quem trabalha em dias de maior desgaste”, disse.

Ele reforçou que o objetivo da limitação de horário era preservar o descanso semanal e o convívio familiar. “O trabalhador não consegue ter vida familiar adequada se trabalha sábado e domingo em jornadas prolongadas. A ideia era justamente equilibrar atividade econômica e qualidade de vida”, afirmou.

Leia também: Com expansão imobiliária, planejamento urbano definirá o futuro de Goiânia

 

Limite de horário, saúde mental e proteção ao trabalhador

O procurador também destacou que a discussão envolve diretamente normas de saúde e segurança do trabalho, incluindo exigências previstas em regulamentações do Ministério do Trabalho.

Segundo ele, a convenção buscava alinhar a atividade comercial às normas de proteção do trabalhador, especialmente no que se refere à saúde mental e à prevenção de sobrecarga.

“Há normas regulamentadoras que tratam de saúde mental e condições de trabalho. Isso não foi colocado na convenção por acaso. Existe uma preocupação real com o aumento de afastamentos por transtornos psicológicos”, afirmou.

José Nilton também rebateu a alegação de que haveria cobrança de taxas para firmar acordos coletivos, afirmando que essa informação não corresponde à realidade.

“Nunca houve cobrança de taxa para isso. Se alguém afirma o contrário, precisa apresentar provas. Caso contrário, isso deixa de ser uma discussão trabalhista e passa a ser outra esfera de responsabilização”, disse.

Suspensão de fiscalização e tentativa de evitar desigualdade

Outro ponto destacado pelo procurador foi a decisão do Secom-GO de suspender temporariamente fiscalização e aplicação de multas relacionadas à cláusula, enquanto não há definição final da Justiça.

Segundo ele, a medida foi adotada para evitar desigualdade entre empresas atingidas pela liminar e outras que continuam submetidas às regras da convenção. “A decisão de suspender as fiscalizações foi justamente para não criar tratamento desigual enquanto a Justiça não define a situação de forma definitiva”, explicou.

Ele reforçou, no entanto, que a suspensão atinge apenas esse ponto específico da convenção. “Todas as demais cláusulas continuam em vigor, como pisos salariais, reajustes e regras específicas para datas como 1º de maio, 4 de outubro e 25 de dezembro”, afirmou.

Disputa entre representações e alegação de desigualdade

O procurador também comentou a disputa entre entidades representativas do setor e a alegação de que a regra criaria diferentes categorias de empresas dentro do mesmo segmento.

Para ele, a judicialização evidencia um conflito entre grupos empresariais e sindicatos sobre a forma de representação e aplicação das regras coletivas. “Existem grupos diferentes dentro da categoria, com formas distintas de representação. Isso acaba gerando interpretações divergentes e disputas judiciais”, avaliou.

Ele afirmou ainda que a liminar não resolve a desigualdade apontada, mas amplia o alcance da decisão para um número maior de empresas. “Antes, algumas empresas estavam dispensadas da exigência. Agora, com a decisão, mais empresas passam a ser beneficiadas. Mas isso ainda não resolve a questão de forma definitiva”, disse.

Recurso e tentativa de uniformização

José Nilton informou que o sindicato deve recorrer da decisão no Tribunal Regional do Trabalho, com o objetivo de buscar uma análise mais ampla e uniforme sobre o tema.

Segundo ele, a expectativa é que o tribunal avalie o caso de forma a evitar decisões fragmentadas.“Vamos recorrer. O que buscamos é uma uniformização do entendimento para toda a categoria”, afirmou.

Ele reforçou que a discussão ainda está longe de ser encerrada e que o mérito da ação será analisado nas próximas fases do processo.

Efeitos da decisão e cenário atual

Com a liminar em vigor, supermercados abrangidos pela ação podem funcionar após às 11h aos domingos e feriados sem risco de multa ou sanções previstas na convenção coletiva.

A decisão, no entanto, é provisória e ainda pode ser modificada pelas instâncias superiores. Enquanto isso, o caso mantém aberta uma discussão mais ampla sobre os limites entre liberdade econômica, negociação coletiva e proteção ao trabalhador, tema que segue dividindo opiniões em Goiás.

De um lado, entidades empresariais defendem a flexibilização como forma de ampliar competitividade e atender melhor o consumidor. De outro, sindicatos alertam para impactos na rotina dos trabalhadores e na preservação de direitos relacionados ao descanso semanal. A decisão final do Judiciário deverá definir se a flexibilização se consolida ou se as regras atuais da convenção coletiva voltam a valer integralmente.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Enem 2026

Exame do Ensino Médio

Enem 2026: veja o que levar e quais são as regras da prova

Exame começa neste domingo (8); participantes devem apresentar documento oficial com foto e levar c...
defesa civil

PREVENÇÃO

Defesa Civil orienta brasileiros a preparar kit para 72 horas; entenda o motivo

Orientação para manter água, alimentos e medicamentos em casa gerou dúvidas nas redes sociais; �...
Mega-Sena

Loterias

Mega-Sena acumula e prêmio chega a R$ 60 milhões

Nenhuma aposta acertou as seis dezenas do concurso 3.082, sorteado nesta sexta-feira (6). Ao todo, 8...
lutador

Tentativa de feminicídio

Lutador preso por agredir três vizinhas no Rio diz não se lembrar dos ataques

Em depoimento, homem afirmou que faz uso de anabolizantes. Uma das vítimas, de 81 anos, continua in...
Bets

Bets

Justiça suspende liberação de três casas de apostas após recurso do governo

Decisão do TRF3 restabelece efeitos da medida provisória que proibiu as operações das empresas C...
Cartórios adotam regras para identificar violência patrimonial contra mulheres

Segurança da mulher

Cartórios adotam regras para identificar violência patrimonial contra mulheres

Em Goiás, recomendação da Corregedoria-Geral da Justiça orienta cartórios a identificar sinais ...
Prefeitura de Goiânia destina R$ 19,7 milhões à agricultura familiar para merenda escolar

MERENDA ESCOLAR

Prefeitura de Goiânia destina R$ 19,7 milhões à agricultura familiar para merenda escolar

Cooperativa de frango, polpa de frutas e leite UHT estão entre os produtos que a rede municipal de ...
Goiânia terá calor de 34°C e previsão de chuva neste sábado (07)

PREVISÃO DO TEMPO

Goiânia terá calor de 34°C e previsão de chuva neste sábado (07)

Dia começa com muitas nuvens, mas previsão indica chuva isolada à tarde e pancadas acompanhadas d...