sábado, 24 de outubro de 2026
'Forte pressão'

Redução de gastos na saúde de Goiânia preocupa sindicatos

Entidades afirmam que a menor execução de recursos pode ampliar filas, dificultar o acesso a consultas e exames e aumentar a sobrecarga

Lalice Fernandespor em
saude
Mesmo acima do piso constitucional, a execução de recursos da saúde em Goiânia caiu 15,4% no primeiro quadrimestre de 2026 (Foto: Jackson Rodrigues/ Divulgação)

A redução de R$ 65,4 milhões nos gastos liquidados com saúde pela Prefeitura de Goiânia no primeiro quadrimestre deste ano ocorreu em meio à melhora dos indicadores fiscais do município e, segundo entidades que representam médicos e trabalhadores da rede pública, em um cenário de agravamento das dificuldades enfrentadas por profissionais e usuários do sistema.

Segundo dados apresentados pelo colunista econômico Lauro Veiga Filho na edição desta terça-feira (16), o Relatório Resumido da Execução Orçamentária mostra que as despesas liquidadas com ações e serviços públicos de saúde custeadas com recursos de impostos somaram R$ 359,144 milhões entre janeiro e abril deste ano. No mesmo período de 2025, o valor havia alcançado R$ 424,508 milhões. A diferença representa uma redução de R$ 65,364 milhões, equivalente a 15,40%.

Apesar da queda, o município permaneceu acima do piso constitucional. Os gastos com saúde corresponderam a 15,38% das receitas de impostos nos quatro primeiros meses do ano, percentual superior ao mínimo de 15% exigido por lei, mas abaixo dos 19,02% registrados no mesmo período do ano passado.

Enquanto a execução na saúde recuou, as contas da prefeitura apresentaram melhora. As disponibilidades de caixa passaram de R$ 1,372 bilhão, em dezembro do ano passado, para R$ 1,771 bilhão em abril deste ano, alta de 29,08%, o equivalente a R$ 398,978 milhões. Já a dívida líquida consolidada caiu de R$ 715,018 milhões para R$ 325,877 milhões no período, uma redução de 54,42%.

 

Leia mais: Prefeitura corta R$ 65,4 milhões das despesas com saúde até abril

 

Rede de saúde pressionada 

Para o Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), o cenário observado na rede municipal é de aumento da pressão sobre os profissionais e de dificuldades crescentes para a população acessar os serviços. “O que observamos é um sistema sob forte pressão, com equipes trabalhando no limite e profissionais frequentemente expostos a condições que dificultam a prestação da assistência que gostariam de oferecer”, informou a entidade ao O HOJE.

Segundo o sindicato, a população também enfrenta dificuldades para conseguir consultas, exames, procedimentos e atendimentos especializados. Na avaliação do Simego, uma menor execução dos recursos da saúde pode agravar problemas já existentes.

“Quando há redução na execução orçamentária, os reflexos costumam aparecer diretamente na ponta: menos capacidade de atendimento, aumento das filas, dificuldade para realização de exames, falta de medicamentos, atraso na reposição de insumos e sobrecarga dos profissionais”. O Simego afirma que “a saúde não pode ser tratada como área onde se economiza às custas da assistência”.

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Foto: Divulgação

A entidade afirma ainda receber relatos frequentes de insuficiência de profissionais em diversas unidades, dificuldades na composição das escalas, falta ou atraso na reposição de insumos e medicamentos, além de problemas estruturais que comprometem o fluxo de atendimento.

A avaliação é semelhante à feita pelo Sindsaúde/GO. De acordo com a presidente da entidade, Néia Vieira, o início do ano foi marcado pelo agravamento de um cenário já considerado crítico pelos trabalhadores da rede municipal.

“Os trabalhadores relatam aumento da sobrecarga, equipes incompletas e dificuldades crescentes para dar conta da demanda, o que inevitavelmente se reflete em maior tempo de espera e insatisfação da população”, afirmou em entrevista ao O HOJE.

Segundo ela, a falta de recomposição do quadro de pessoal contribui para a situação. O sindicato defende a convocação dos aprovados no concurso público regido pelo edital 01/2020, cuja validade termina em setembro deste ano. A medida, segundo a dirigente, já foi apontada como necessária pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás.

Para o Sindsaúde, a menor execução dos recursos compromete a capacidade de atendimento e agrava gargalos já existentes. A entidade cita dificuldades de acesso a consultas, exames e medicamentos, além de impactos na manutenção das unidades de saúde.

Justificativa

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que a redução das despesas liquidadas decorre de medidas de “eficiência administrativa e otimização dos recursos públicos” adotadas pela atual gestão. Segundo a pasta, passivos financeiros deixados pela administração anterior precisaram ser quitados com recursos do Tesouro Municipal nos primeiros meses do governo.

A SMS informou ainda que ampliou a utilização de outras fontes de financiamento da saúde, como contrapartidas federais e estaduais, recursos da vigilância em saúde, emendas parlamentares e demais receitas vinculadas ao setor. De acordo com a secretaria, isso permitiu reduzir a utilização da Fonte 102, composta por recursos do Tesouro Municipal, sem prejuízo à assistência.

A pasta negou que a reorganização financeira tenha provocado impactos no atendimento. Em nota, afirmou que “nenhuma ação ou atendimento deixou de ser executado em razão da reorganização orçamentária” e sustentou que os indicadores assistenciais demonstram manutenção e ampliação dos atendimentos realizados desde o segundo semestre de 2025.

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Goiânia Saúde

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