Brunno Veiga lança “A Outra Face”, seu primeiro álbum solo
Entre guitarras carregadas e letras de peito aberto, disco reúne oito faixas inéditas
Brunno Veiga passou parte dos últimos anos voltando a músicas que não cabiam exatamente na Overfuzz, banda que ajudou a fundar e que há 16 anos integra a cena de rock autoral de Goiânia. Eram composições paralelas, escritas em outro registro, menos coletivo e mais pessoal. Algumas ficaram guardadas. Outras ganharam novas ideias durante o processo. O conjunto deu origem a “A Outra Face”, primeiro álbum solo do cantor, compositor e guitarrista goiano.
O disco chegou às plataformas digitais na última terça-feira (16), com oito faixas inéditas. O repertório será apresentado ao público nesta quinta-feira (18), em show no Shiva Alt Bar, no Setor Oeste, em Goiânia. A apresentação começa às 20h30, com entrada gratuita. A casa abre às 18h e terá discotecagem de Yasmin Lauck antes e depois do show.
“A Outra Face” marca uma mudança de posição na carreira de Brunno. Na Overfuzz, a criação sempre esteve associada ao convívio de banda, à soma de referências e ao trabalho entre amigos. No álbum solo, ele desloca o centro da composição para um campo mais direto, em português, no qual as letras assumem papel decisivo.
“A Overfuzz é uma banda com 16 anos de idade e representa o esforço e a vontade de amigos de correrem atrás do rock n roll que sempre foram apaixonados. A essência da banda sempre foi a amizade, o entrosamento e o trabalho coletivo. Porém, ao longo desses anos, eu sempre fui compondo coisas mais pessoais, paralelas à banda, que continuaram engavetadas”, afirma Brunno.
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O novo trabalho não veio de uma virada, mas de um processo lento de escuta e revisão. “Decidi revisitar muitas dessas composições antigas e também complementar seus conceitos com novas ideias. Foi um grande prazer poder concretizar um trabalho que representasse tão bem esse olhar mais íntimo e pessoal sobre as experiências da vida”, conta o músico.
Entre o peso e a contenção
O álbum parte de temas como mudança, insegurança, ansiedade, relações afetivas e passagem do tempo. No plano sonoro, transita por vertentes do rock alternativo, com elementos de grunge, stoner rock, pop rock e construções mais atmosféricas. As guitarras aparecem carregadas de textura, mas o disco não se sustenta apenas no peso. A tensão das faixas convive com trechos de maior contenção, em que a palavra ocupa mais espaço.
Brunno cita referências como Alice In Chains, Queens of the Stone Age, Foo Fighters, Titãs, Barão Vermelho e Cássia Eller. O ponto central de “A Outra Face” está menos na filiação a uma linhagem do rock e mais na tentativa de organizar, em forma de canção, um repertório emocional que atravessou os últimos anos.
“Na última década a sociedade passou por muitos altos e baixos, e comigo não foi diferente. Muitas situações pessoais de dificuldade, experiências e lutas internas acabam fazendo a gente evoluir e engrossar o casco. Acredito que o álbum representa um modo mais maduro de olhar pra vida, com temáticas que acompanham muitas das frustrações e resiliências que nos moldam como seres humanos”, comenta o artista.
No estúdio
O trabalho contou com a participação do escritor goiano Luiz Gustavo Medeiros, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2025. Ele assina a coautoria de Vapor e Sexto Sentido, uma das faixas que já ganhou videoclipe no YouTube junto à faixa-título.
As gravações ocorreram no Rocklab, com produção de Gustavo Vazquez. A proposta foi preservar uma dinâmica orgânica: grande parte das bases foi registrada com todos os músicos tocando juntos, recurso que mantém no álbum parte da energia de ensaio e de palco. O processo incluiu experimentações com fuzzes, synths, microfones de fita e instrumentos antigos que ajudaram a construir a identidade sonora do disco.
O título resume a operação artística proposta por Brunno. “Traz o sentido não só de revelar uma face nova, como também o de entregar a outra face e dar a cara à tapa, expondo um lado mais íntimo, sem filtros ou máscaras”, explica Brunno.
Um disco do seu tempo
Essa dimensão íntima não fica restrita à biografia do artista. Para Brunno, o álbum conversa com uma experiência mais ampla, marcada por pressa, cobrança e cansaço. “Vivemos num mundo em que a pressão e a urgência são sempre constantes, vêm de todos os lados possíveis e nos obrigam a lidar com inúmeras consequências emocionais. Muitas vezes acabamos vivendo numa inércia gravitacional em torno de nossas próprias obrigações e acabamos vendo nossa vida passar diante de nossos olhos. Então celebre suas conquistas, sofra seus lutos, espalhe suas virtudes e viva sua vida.”
A cena que o formou
Natural de Goiânia, Brunno atua há mais de 15 anos na música independente local. Além da Overfuzz, desenvolve trabalhos como guitarrista, compositor e produtor artístico. Sua formação está ligada a uma rede de bandas, bares, estúdios e festivais que sustentou parte do rock autoral goiano nas últimas décadas. “Eu sou apaixonado pela música independente goiana, consumo as bandas e os eventos daqui desde a minha adolescência e fui musicalmente criado nesse meio. Os últimos anos foram de muitas dificuldades para o setor, porém atualmente consigo enxergar, e com muito orgulho, a reconstrução de um cenário com o fortalecimento de festivais, estúdios e pubs, além de uma renovação de público e de bandas.”
Quem quiser ouvir ao vivo o que ficou guardado por anos tem a chance nesta quinta-feira (18), no Shiva Alt Bar. O espaço recebe doações de alimentos não perecíveis e agasalhos, destinados a famílias em situação de vulnerabilidade social. “A Outra Face” é um projeto realizado com recursos do Programa Goyazes, do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura.