segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Eleições 2026

Eleitor moderado pode pesar na disputa presidencial

Grupo que não se vê nem como antipetista nem como antibolsonarista soma 27% do eleitorado e pode decidir eleição

Bruno Goulartpor em
Flávio e Lula
Hoje, esse eleitor parece estar mais próximo de Lula. Foto: Divulgação/Tânia Rego/ABr

Bruno Goulart

A polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deve dominar a disputa pelo Palácio do Planalto em 2026. No entanto, há um grupo de eleitores que pode ser decisivo para o resultado da eleição. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, 27% dos brasileiros não se consideram nem antipetistas nem antibolsonaristas. São pessoas que não têm rejeição automática a nenhum dos dois lados e dizem estar dispostas a votar em quem apresentar a campanha mais convincente e conectada com seus problemas do dia a dia.

Hoje, esse eleitor parece estar mais próximo de Lula. No recorte da pesquisa, 51% aprovam o governo, enquanto 40% desaprovam. Apesar disso, o presidente não pode considerar esse apoio garantido. É um eleitor volátil, que muda de posição conforme a percepção sobre a economia, o emprego, a inflação e a qualidade dos serviços públicos. Em outras palavras, é um eleitor que não vota por fidelidade partidária, mas pelos resultados que enxerga.

Ao O HOJE, o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé afirma que esse comportamento faz sentido. Segundo Zancopé, muitos brasileiros demonstram cansaço com a polarização e gostariam de ver outras opções na disputa presidencial. “Talvez, no primeiro turno, haja um voto em uma terceira via para demonstrar essa insatisfação com a polarização”, afirma. Mesmo assim, o historiador diz acreditar que, em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, a tendência seja de migração para o petista. “No segundo turno, esse voto iria para o PT”, resume.

Na avaliação de Zancopé, Lula larga na frente porque consegue apresentar políticas públicas que dialogam com esse eleitor mais moderado. Entre os exemplos citados estão a defesa do fim da escala 6×1, a proposta de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda, o programa Pé-de-Meia, o fortalecimento dos institutos e universidades federais, além da manutenção de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), em pesquisa e no desenvolvimento da indústria nacional. “Esse conjunto de pautas faz com que eu me identifique mais com um governo de centro-esquerda”, avalia a cabeça do eleitor neutro Zancopé.

Ao mesmo tempo, o especialista ressalta que esse eleitor não dá um apoio incondicional ao governo. Para o historiador, uma das maiores preocupações está na condução da política econômica. Zancopé considera que o governo precisa diferenciar melhor gasto de investimento e defende maior controle das despesas públicas. “É importante separar gasto de investimento”, diz. Na avaliação do especialista, o Executivo também deveria liderar um debate sobre limites para os gastos com o funcionalismo e promover uma discussão mais ampla sobre as emendas parlamentares individuais.

Sem vínculo ideológico forte

Segundo o especialista, justamente por não possuir um vínculo ideológico forte, esse eleitor presta mais atenção na capacidade de gestão dos candidatos e na credibilidade das promessas de campanha. “Se o candidato não transmite confiança, dificilmente será eleito”, afirma. Para Zancopé, Lula leva vantagem porque já possui um histórico de políticas públicas conhecidas pela população e consegue mostrar entregas concretas. Como exemplo, cita a criação do Concurso Público Nacional Unificado (CNU), que considera uma inovação na administração pública.

Já Flávio Bolsonaro terá o desafio de conquistar um eleitor que vai além da base tradicional do bolsonarismo. Para Zancopé, somente criticar o governo não será suficiente. Será necessário apresentar propostas claras para temas como economia, emprego, saúde e educação. Além disso, o senador precisará definir qual imagem pretende levar para a campanha. “Ele será um candidato mais radical ou buscará um perfil mais moderado?”, questiona o especialista.

Outro obstáculo, segundo Zancopé, é a disputa interna no próprio campo bolsonarista. Os recentes conflitos entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) podem passar ao eleitor a impressão de falta de unidade. “Se eles não conseguem se entender internamente, por que eu deveria confiar neles?”, pondera o especialista sobre o eleitor mais neutro e volátil. Na visão de Zancopé, esse tipo de desgaste pesa principalmente entre os eleitores independentes, que costumam valorizar estabilidade, equilíbrio e capacidade de diálogo. (Especial para O HOJE)

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Eleitor moderado Flávio Bolsonaro Lula presidente

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