segunda-feira, 17 de agosto de 2026
OPINIÃO

Pautas-bombas estouram no povo, não nos políticos que as aprovam

Os três Poderes, nos três níveis (federal, estadual e municipal), não têm dó dos contribuintes que os sustentam, pois arrebentam a Previdência dos aposentados, negam futuro a jovens e crianças e fazem dos adultos máquinas de produzir superávit para quem gasta os impostos

Nilson Gomespor Nilson Gomes em
Pautas
Enquanto os governos ampliam gastos e aprovam medidas de impacto eleitoral, a conta recai sobre os contribuintes, que enfrentam maior carga tributária, serviços públicos deficientes e uma Previdência cada vez mais pressionada  Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O fim do período de publicidade, lançamento e inauguração mostrou ao eleitor o que o espera em 2028: o caos. Nos últimos 40 meses, os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, nos níveis federal, estadual e municipal, abusaram dos pagadores de impostos. Não há semana sem escândalo, seja dos que acabam em cadeia, seja dos que resultam em reeleição. O oceano de lama tem diversos nomes, e o mais recente é pauta-bomba, que consegue ser mais prejudicial do que a soma do Banco Master com o assalto aos velhinhos do INSS.

Ela começa no Executivo, que, apenas nos seis primeiros meses deste ano, torrou R$ 220 bilhões em outro nome do escândalo: o pacote de bondades para manter no cargo o presidente da República, sem contar o mesmo procedimento aplicado pelos governadores, inclusive o de Goiás. Eles repetem uma frase de Orestes Quércia, governador de São Paulo no fim da década de 1980: “Eu quebro o Estado, mas faço o sucessor”. Fez. E quebrou.

Déficit público e populismo fiscal

No âmbito nacional, como nos regionais, é absoluta a indiferença com o completo descontrole do déficit público. Goiás é um dos péssimos exemplos. Toda vez que o governador de plantão se apresenta para anunciar algo, trata-se de perda de receita e ganho de voto, nada acerca do que fazer com o atoleiro em que o desenvolvimento está afundado. Os produtores rurais estão falidos e, até agora, não lhes foi devolvida a contribuição que o governo estadual tirou, na marra, de seus orçamentos para o Fundeinfra. É total o alheamento com a dor da população, que se acostumou de tal maneira com os programas sociais que supõe ser isso administração pública. E não é.

Incentivos, privilégios e desigualdade

As tais pautas-bombas, como aposentadoria precoce para categorias profissionais e reparação em dinheiro para produtores, estão longe de quebrar e ajudar quem aparece nos relatórios como beneficiado e prejudicado. Em Goiás, a maior cratera foi aberta com os incentivos fiscais para atrair empresas, em vez de investir na vocação empreendedora dos goianos. Foi o que ocorreu com a Mabel, atraída em 1975 com todo um portfólio de benefícios. Quando foi vendida, em 2011, não devolveu um centavo sequer dos R$ 800 milhões, valor que, 15 anos depois, estaria em R$ 1,85 bilhão pelo IPCA. A partir de 1º de janeiro de 2027, com a posse dos novos chefes do Executivo, um vendedor de biscoitos na rua será perseguido via Pix, obrigado a fazer de seu CPF um CNPJ e contribuir com o fisco na mesma proporção em que a Mabel e outras grandes corporações jamais foram fustigadas.

O custo das benesses eleitorais

Quando tirou o percentual dos salários que iria para o Imposto de Renda Retido na Fonte, o Legislativo e o Executivo federais, em momento algum, pensaram na desoneração da classe média baixa. O olho gordo mirava somente o voto, pois, basicamente, o prejuízo vai para a cesta básica daquele que se julga beneficiado. Com essa gorjeta, o governo se julga quite com a faixa do público que deixou de recolher o IRPF e nada de construir uma escola técnica no bairro onde mora a maioria dos agraciados. É outro esclarecimento negado ao público: o de que o caixa é único; se lhe der o Gás do Povo, vai lhe tirar um naco de chance em outra área.

O abandono do setor produtivo

O setor produtivo, que sustenta a farra inteira, está paralisado. A tal janela de oportunidade, aberta em uma época tão frutífera, quando nem as guerras atrapalham a circulação de mercadorias, está sendo perdida no Brasil, particularmente em Goiás. Não há o menor recurso em caixa para o caso de uma crise mundial ou de alguma catástrofe, como a que está ocorrendo no campo, resultado de três safras ruins, quebradeira generalizada e propriedades sendo tomadas pelos bancos.

O papel do Judiciário

Por sua vez, o Judiciário colabora, pois assegura aumentos a servidores e impede que as instituições financeiras se responsabilizem pelas fatias de mercado que ajudam a destroçar. O que aparece de ação para tirar dos cofres do governo passa por todas as instâncias, como se os recursos públicos não tivessem dono. É o que ocorre com a Previdência Social. O Congresso tem centenas de projetos eleitoreiros para saquear os cofres do INSS e, quando as proposituras morrem no voto dos parlamentares, ressuscitam no apoio dos ministros.

A conta recai sobre o contribuinte

Em todo o País, em todos os níveis, a Previdência está arrebentada. A única maneira de salvá-la é do modo mais cruel possível: as pessoas passarem a morrer cedo; aposentam-se hoje, morrem amanhã, de preferência sem deixar herdeiros. Quem teve os percentuais descontados de seus contracheques não sabe para onde foi o dinheiro; só viu as manchetes sobre desvios. Os superávits, notadamente os fiscais, são conseguidos via arrocho, pois os contribuintes foram obrigados a virar máquinas de trabalhar para gerar dinheiro em tributos. Nem se teme mais que a inteligência artificial substitua os humanos no serviço — eles já foram substituídos pela preguiça.

Mesmo com tudo isso, quem ganha com a derrocada das pessoas físicas e jurídicas é o governo. Quando ele paga o Benefício de Prestação Continuada, cuja base é alargada a cada vez que surge uma doença da moda, metade do dinheiro volta para seus cofres. É até uma maneira de o governo dizer que o Brasil está movimentando o comércio, com os recursos públicos indo para a conta dos eleitores que deseja conquistar e retornando via carga tributária.

Um país que consome o próprio futuro

Pelo desenho de hoje, o quadro é assustador. O Brasil não vai prosperar se o ritmo continuar o atual, pois gasta com doença, não com saúde; com regalos para alunos e salários de servidores, não com educação; a maior tecnologia é voltada para arrecadar, vigiar e punir, não para que jovens e crianças sejam pesquisadores, inventores e descobridores. Para que formar cientistas, sobretudo nas áreas de medicina e informática, se quem vota na reeleição é quem é carregado em ambulância e ganha um cartão para sacar dinheiro?

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Caiado inicia corrida ao Planalto em Goiás para mostrar força política ao País

Eleições 2026

Caiado inicia corrida ao Planalto em Goiás para mostrar força política ao País

Cientistas políticos avaliam que escolha de reduto eleitoral para iniciar campanha presidencial per...
“O Gama é verde, Arruda é verde”, diz candidato ao GDF em 1º dia de campanha

ELEIÇÕES 2026

“O Gama é verde, Arruda é verde”, diz candidato ao GDF em 1º dia de campanha

Ex-governador começou o dia com missa no SIA e terminou no estádio do Gama, onde relembrou obras d...
Marconi

CORRIDA PELO GOVERNO

“Vamos vencer estas eleições”, afirma Marconi ao lançar campanha em Goianésia (GO)

Ex-governador apresentou propostas e disse que pretende retomar investimentos em saúde, educação,...
daniel vilela

ELEIÇÕES 2026

“O Entorno será a região mais forte de Goiás”, diz Daniel Vilela ao defender continuidade no primeiro dia de campanha

Governador percorreu seis cidades do Entorno do DF ao lado de Ronaldo Caiado e apresentou segurança...
Marconi

CORRIDA PELO GOVERNO

“Haverá segundo turno, com toda certeza”, afirma Marconi em Rio Verde (GO)

Tucano iniciou campanha ao Governo de Goiás neste domingo (16) e apresentou propostas para saúde, ...
Campanha

Eleição

Campanha eleitoral de 2026 começa neste domingo (16)

Início oficial da campanha libera atos de rua e propaganda na internet, enquanto horário eleitoral...
Lula

Eleição

Lula inicia campanha à reeleição em São Bernardo do Campo (SP)

Presidente abriu campanha à reeleição em São Bernardo do Campo com discurso sobre segurança pú...
celina leão

EM BRASÍLIA

Celina Leão inicia campanha ao GDF em Ceilândia ao lado de Michelle Bolsonaro

Governadora escolheu a maior região administrativa do DF para abrir oficialmente a disputa pela ree...