sexta-feira, 23 de outubro de 2026
OPINIÃO

Pautas-bombas estouram no povo, não nos políticos que as aprovam

Os três Poderes, nos três níveis (federal, estadual e municipal), não têm dó dos contribuintes que os sustentam, pois arrebentam a Previdência dos aposentados, negam futuro a jovens e crianças e fazem dos adultos máquinas de produzir superávit para quem gasta os impostos

Nilson Gomespor em
Pautas
Enquanto os governos ampliam gastos e aprovam medidas de impacto eleitoral, a conta recai sobre os contribuintes, que enfrentam maior carga tributária, serviços públicos deficientes e uma Previdência cada vez mais pressionada  Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O fim do período de publicidade, lançamento e inauguração mostrou ao eleitor o que o espera em 2028: o caos. Nos últimos 40 meses, os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, nos níveis federal, estadual e municipal, abusaram dos pagadores de impostos. Não há semana sem escândalo, seja dos que acabam em cadeia, seja dos que resultam em reeleição. O oceano de lama tem diversos nomes, e o mais recente é pauta-bomba, que consegue ser mais prejudicial do que a soma do Banco Master com o assalto aos velhinhos do INSS.

Ela começa no Executivo, que, apenas nos seis primeiros meses deste ano, torrou R$ 220 bilhões em outro nome do escândalo: o pacote de bondades para manter no cargo o presidente da República, sem contar o mesmo procedimento aplicado pelos governadores, inclusive o de Goiás. Eles repetem uma frase de Orestes Quércia, governador de São Paulo no fim da década de 1980: “Eu quebro o Estado, mas faço o sucessor”. Fez. E quebrou.

Déficit público e populismo fiscal

No âmbito nacional, como nos regionais, é absoluta a indiferença com o completo descontrole do déficit público. Goiás é um dos péssimos exemplos. Toda vez que o governador de plantão se apresenta para anunciar algo, trata-se de perda de receita e ganho de voto, nada acerca do que fazer com o atoleiro em que o desenvolvimento está afundado. Os produtores rurais estão falidos e, até agora, não lhes foi devolvida a contribuição que o governo estadual tirou, na marra, de seus orçamentos para o Fundeinfra. É total o alheamento com a dor da população, que se acostumou de tal maneira com os programas sociais que supõe ser isso administração pública. E não é.

Incentivos, privilégios e desigualdade

As tais pautas-bombas, como aposentadoria precoce para categorias profissionais e reparação em dinheiro para produtores, estão longe de quebrar e ajudar quem aparece nos relatórios como beneficiado e prejudicado. Em Goiás, a maior cratera foi aberta com os incentivos fiscais para atrair empresas, em vez de investir na vocação empreendedora dos goianos. Foi o que ocorreu com a Mabel, atraída em 1975 com todo um portfólio de benefícios. Quando foi vendida, em 2011, não devolveu um centavo sequer dos R$ 800 milhões, valor que, 15 anos depois, estaria em R$ 1,85 bilhão pelo IPCA. A partir de 1º de janeiro de 2027, com a posse dos novos chefes do Executivo, um vendedor de biscoitos na rua será perseguido via Pix, obrigado a fazer de seu CPF um CNPJ e contribuir com o fisco na mesma proporção em que a Mabel e outras grandes corporações jamais foram fustigadas.

O custo das benesses eleitorais

Quando tirou o percentual dos salários que iria para o Imposto de Renda Retido na Fonte, o Legislativo e o Executivo federais, em momento algum, pensaram na desoneração da classe média baixa. O olho gordo mirava somente o voto, pois, basicamente, o prejuízo vai para a cesta básica daquele que se julga beneficiado. Com essa gorjeta, o governo se julga quite com a faixa do público que deixou de recolher o IRPF e nada de construir uma escola técnica no bairro onde mora a maioria dos agraciados. É outro esclarecimento negado ao público: o de que o caixa é único; se lhe der o Gás do Povo, vai lhe tirar um naco de chance em outra área.

O abandono do setor produtivo

O setor produtivo, que sustenta a farra inteira, está paralisado. A tal janela de oportunidade, aberta em uma época tão frutífera, quando nem as guerras atrapalham a circulação de mercadorias, está sendo perdida no Brasil, particularmente em Goiás. Não há o menor recurso em caixa para o caso de uma crise mundial ou de alguma catástrofe, como a que está ocorrendo no campo, resultado de três safras ruins, quebradeira generalizada e propriedades sendo tomadas pelos bancos.

O papel do Judiciário

Por sua vez, o Judiciário colabora, pois assegura aumentos a servidores e impede que as instituições financeiras se responsabilizem pelas fatias de mercado que ajudam a destroçar. O que aparece de ação para tirar dos cofres do governo passa por todas as instâncias, como se os recursos públicos não tivessem dono. É o que ocorre com a Previdência Social. O Congresso tem centenas de projetos eleitoreiros para saquear os cofres do INSS e, quando as proposituras morrem no voto dos parlamentares, ressuscitam no apoio dos ministros.

A conta recai sobre o contribuinte

Em todo o País, em todos os níveis, a Previdência está arrebentada. A única maneira de salvá-la é do modo mais cruel possível: as pessoas passarem a morrer cedo; aposentam-se hoje, morrem amanhã, de preferência sem deixar herdeiros. Quem teve os percentuais descontados de seus contracheques não sabe para onde foi o dinheiro; só viu as manchetes sobre desvios. Os superávits, notadamente os fiscais, são conseguidos via arrocho, pois os contribuintes foram obrigados a virar máquinas de trabalhar para gerar dinheiro em tributos. Nem se teme mais que a inteligência artificial substitua os humanos no serviço — eles já foram substituídos pela preguiça.

Mesmo com tudo isso, quem ganha com a derrocada das pessoas físicas e jurídicas é o governo. Quando ele paga o Benefício de Prestação Continuada, cuja base é alargada a cada vez que surge uma doença da moda, metade do dinheiro volta para seus cofres. É até uma maneira de o governo dizer que o Brasil está movimentando o comércio, com os recursos públicos indo para a conta dos eleitores que deseja conquistar e retornando via carga tributária.

Um país que consome o próprio futuro

Pelo desenho de hoje, o quadro é assustador. O Brasil não vai prosperar se o ritmo continuar o atual, pois gasta com doença, não com saúde; com regalos para alunos e salários de servidores, não com educação; a maior tecnologia é voltada para arrecadar, vigiar e punir, não para que jovens e crianças sejam pesquisadores, inventores e descobridores. Para que formar cientistas, sobretudo nas áreas de medicina e informática, se quem vota na reeleição é quem é carregado em ambulância e ganha um cartão para sacar dinheiro?

 

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