Déficit de vagas em creches afeta 125 municípios goianos, diz MEC
Estudo do MEC aponta 31.324 crianças na fila de espera; investimento estimado para eliminar a demanda reprimida chega a R$ 1,53 bilhão
O déficit de vagas em creches públicas ainda alcança 125 municípios goianos, que somam 31.324 crianças na fila de espera. Os dados fazem parte do estudo “Retrato da Educação Infantil 2025”, do Ministério da Educação (MEC), e foram usados pelo Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO) para estimar em R$ 1,53 bilhão o investimento necessário para eliminar a demanda reprimida no Estado.
A atualização foi divulgada em fevereiro de 2026, com base nas informações autodeclaradas pelas prefeituras no Sistema Integrado de Monitoramento e Controle do MEC (Simec), entre agosto e outubro de 2025. A projeção considera a construção de 275 novas creches e a ampliação de 52 unidades já existentes.
Na comparação com o levantamento anterior, a fila caiu de 45.976 para 31.324 crianças, uma redução de 14.652, ou 32%. Apesar disso, o número de municípios que reconheceram possuir demanda não atendida aumentou de 109 para 125.
Maior adesão
Em resposta encaminhada à reportagem do O HOJE, o TCM-GO afirmou que o resultado indica maior adesão dos municípios ao diagnóstico realizado pelo MEC, ao mesmo tempo em que houve redução da demanda média registrada em cada cidade. “Mais municípios passaram a registrar sua realidade, mas, em média, as filas ficaram menores”.
A necessidade de novas unidades também caiu. A estimativa anterior apontava a construção de 396 creches e a ampliação de 23. No levantamento mais recente, são previstas 275 novas unidades e 52 ampliações. À reportagem, o TCM-GO avaliou que a mudança permite um planejamento mais direcionado e que, em parte dos municípios, a expansão de estruturas já existentes “tende a ser mais rápida e menos onerosa”.
Situação da Capital goiana
Os cinco municípios com maior demanda por novas unidades concentram 54,86% do custo estimado para construção. Goiânia aparece em primeiro lugar, com necessidade projetada de 50 creches, seguida por Anápolis (28), Aparecida de Goiânia (25), Santo Antônio do Descoberto (23) e Senador Canedo (18).
A reportagem do O HOJE procurou a Secretaria Municipal de Educação de Goiânia, mas não recebeu retorno até o fechamento desta edição.
A situação da Capital também foi analisada em fiscalização concluída pelo TCM-GO em maio de 2026. O relatório, elaborado pela Secretaria de Controle Externo de Políticas Públicas (SECEXPOLÍTICAS), avaliou a compra de vagas na rede privada, a ampliação da rede municipal e a reorganização das unidades públicas. Embora tenha identificado redução da fila geral, a equipe técnica concluiu que o déficit em creches permanece elevado, principalmente nas regiões periféricas.
Os auditores também apontaram que a existência de vagas ociosas em determinadas unidades da pré-escola não resolve o problema, porque a demanda reprimida está concentrada em creches e em áreas específicas de Goiânia.
Déficit afeta desenvolvimento infantil
A psicóloga clínica e analista de comportamento Hisabella Teixeira explica que a creche exerce papel relevante nos primeiros anos de vida, período em que a criança apresenta maior capacidade para desenvolver habilidades a partir dos estímulos recebidos. Segundo a especialista, a convivência com outras crianças favorece a comunicação, a coordenação motora, a autonomia e o aprendizado de regras sociais.
A falta de acesso também interfere na rotina dos responsáveis. Hisabella afirma que pais e cuidadores podem enfrentar conflito entre a necessidade de trabalhar e a obrigação de permanecer com a criança, o que leva parte deles a abandonar o emprego ou reduzir a carga horária. “Isso pode trazer até dificuldades financeiras. Temos um aumento do estresse, da ansiedade e do cansaço”, diz.
Na avaliação da especialista, os efeitos atingem toda a família, porque a redução da renda se soma à sobrecarga emocional e à perda de um espaço importante de aprendizagem e convivência para a criança.
Em elaboração
O Retrato da Educação Infantil 2026 já está em elaboração. A coleta das informações segue até 19 de julho. Segundo o TCM-GO, os indicadores para acompanhar a evolução são “o número de crianças na fila de espera, a quantidade de municípios que registram demanda reprimida, a necessidade de construção de novas unidades ou de ampliação das existentes e a estimativa dos investimentos necessários para eliminar o déficit de vagas”.
Em nota enviada ao O HOJE, a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc) informou que a oferta da Educação Infantil é de responsabilidade dos municípios, cabendo ao Estado atuar em regime de colaboração por meio de apoio técnico e financeiro. Segundo a pasta, entre as ações desenvolvidas estão o fortalecimento da Central de Vagas da Educação Infantil, a ampliação do Fundo Estadual da Educação Infantil e o Programa Busca Ativa pela Primeira Infância.
A secretaria informou ainda que pretende ampliar os investimentos para construção, ampliação e adequação de unidades municipais, com a meta de elevar o atendimento de crianças de 0 a 3 anos e 11 meses de 35,1% para 60%, além de acompanhar os dados do MEC para orientar novas políticas públicas voltadas à primeira infância.
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