domingo, 11 de outubro de 2026
Férias

Psicóloga explica o impacto emocional das férias na rotina de quem cuida sozinho

Sem escola e com menos apoio na rotina, responsáveis acumulam tarefas e enfrentam maior risco de esgotamento emocional

Luana Avelarpor em
Férias

As férias escolares costumam ser associadas a dias mais leves, viagens e tempo livre em família. Para uma parcela crescente dos brasileiros, porém, o recesso representa justamente o contrário. Sem a rotina da escola e das atividades regulares, mães, pais e responsáveis que criam os filhos sozinhos passam a concentrar ainda mais tarefas, reorganizando trabalho, cuidados domésticos e atenção integral às crianças em uma jornada que deixa pouco espaço para descanso.

A realidade acompanha uma mudança silenciosa na composição das famílias brasileiras. O Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que as mulheres passaram a chefiar 49,1% dos domicílios do país — cerca de 35,6 milhões de lares. Em pouco mais de uma década, o percentual subiu de 38,7% para quase metade das residências brasileiras. No mesmo período, cresceram os domicílios unipessoais e permaneceram expressivos os arranjos monoparentais, em que filhos vivem com apenas um responsável.

Embora os dados revelem uma transformação demográfica, eles também ajudam a compreender um cotidiano em que o cuidado continua fortemente concentrado sobre uma única pessoa. Durante o ano letivo, a escola funciona como parte da organização diária. Nas férias, essa estrutura desaparece e amplia a necessidade de conciliar trabalho, lazer, alimentação, deslocamentos e atenção permanente às crianças.

Para a psicóloga Maísa Colombo Lima, é justamente essa mudança de dinâmica que torna o período especialmente delicado. “A rotina muda e o cuidador passa a concentrar ainda mais tarefas. Sem escola, atividades regulares ou alguém para dividir os cuidados, o período que deveria ser de descanso pode se transformar em sobrecarga física e emocional”, explica.

O desgaste, segundo a especialista, vai além da quantidade de tarefas. Mesmo passando o dia inteiro ao lado dos filhos, muitos responsáveis experimentam uma sensação de solidão pouco perceptível para quem observa de fora. Falta alguém com quem dividir decisões, compartilhar preocupações ou simplesmente reconhecer o cansaço acumulado. O isolamento, nesse caso, nasce menos da ausência de pessoas e mais da ausência de apoio.

As expectativas criadas em torno das férias também contribuem para aumentar a frustração. A ideia de que o recesso representa uma pausa na rotina nem sempre corresponde à realidade de quem concentra sozinho todas as responsabilidades da casa.

“A expectativa pode ser: ‘Nas férias eu finalmente vou descansar’. Quando isso não acontece, podem surgir irritação, tristeza, ansiedade e sensação de injustiça”, afirma Maísa.

O impacto costuma aparecer em sintomas que vão além do cansaço habitual. Irritação frequente, dificuldade para dormir, sensação de funcionar no automático, vontade de se isolar e pensamentos recorrentes de incapacidade indicam que o desgaste deixou de ser apenas uma resposta passageira ao aumento das demandas.

Nesse contexto, outro sentimento costuma acompanhar o esgotamento: a culpa. A imagem social de uma maternidade ou paternidade sempre disponível faz com que muitos responsáveis interpretem o próprio cansaço como sinal de fracasso. Para a psicóloga, porém, essa associação precisa ser rompida.

“Sentir cansaço não significa falta de amor. É importante substituir a acusação por uma compreensão mais realista: ‘Estou cansada porque estou sobrecarregada e preciso de cuidado'”, orienta.

O excesso de responsabilidades também pode afetar a convivência com as crianças. A paciência diminui, as respostas tornam-se mais ríspidas e o distanciamento emocional aparece como uma forma involuntária de preservar energia. Isso, segundo a especialista, não caracteriza um mau cuidador, mas evidencia que ninguém consegue sustentar o cuidado contínuo sem momentos de descanso e sem uma rede mínima de apoio.

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Reduzir a expectativa de férias perfeitas é um dos caminhos apontados para atravessar o período. Organizar uma programação compatível com a realidade da família, alternar atividades com momentos de descanso, aceitar que a criança não precisa estar entretida o tempo inteiro e recorrer, quando possível, à ajuda de familiares ou amigos podem aliviar parte da pressão cotidiana.

Também é importante comunicar às crianças a necessidade de pausas. Explicar, de forma simples, que o adulto precisa descansar por alguns minutos contribui para estabelecer limites e reforça que todas as pessoas têm necessidades emocionais.

Quando o sofrimento se torna persistente e passa a interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou na capacidade de cuidar, a busca por apoio profissional torna-se recomendada. Para Maísa, reconhecer os próprios limites faz parte do exercício do cuidado. “Admitir limites, pedir ajuda quando possível e buscar apoio profissional diante de sinais persistentes de sofrimento são atitudes que protegem tanto o adulto quanto a criança”, conclui.

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