sexta-feira, 17 de julho de 2026
Infância Digital

Exposição de crianças e adolescentes na mídia pode afetar saúde mental também na vida adulta, alerta psicóloga

Na semana de aniversário do ECA, especialista chama atenção para os riscos da superexposição de menores, dos antigos programas de TV às redes sociais

Luana Avelarpor Luana Avelar em 17 de julho de 2026 às 18:01
Exposição

Fotos de rotina escolar, vídeos de birra, momentos de choro ou situações constrangedoras. O que para muitos pais é apenas um registro afetivo pode se transformar em conteúdo permanente na internet, com consequências que atravessam a infância e chegam à vida adulta. O alerta ganha espaço nesta semana, em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa mais um aniversário como principal marco legal de proteção a menores no Brasil.

A exposição infantil não é um fenômeno recente. Antes das redes sociais, crianças e adolescentes já apareciam em programas de televisão, concursos, comerciais e novelas. A diferença, hoje, está na escala: perfis familiares, vídeos de rotina, publicidade infantil e influenciadores mirins multiplicaram as formas de exposição, muitas vezes sem que a criança tenha maturidade para entender o alcance da própria imagem.

Para a psicóloga clínica Soraya Oliveira, que atende no centro clínico Órion Complex, em Goiânia, o problema começa quando a criança deixa de ser vista como sujeito e passa a ocupar o lugar de personagem ou fonte de engajamento. “A exposição precoce pode gerar ansiedade, insegurança, necessidade constante de aprovação, medo de críticas e perda da privacidade. Além disso, aumenta o risco de cyberbullying e pode comprometer o desenvolvimento emocional”, explica.

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Casos que expõem os limites da exposição

Relatos de artistas que trabalharam ainda na infância ajudam a dimensionar esses efeitos. A atriz norte-americana Jennette McCurdy, conhecida por interpretar Sam Puckett nas séries iCarly e Sam & Cat, da Nickelodeon, descreveu no livro de memórias “Estou feliz que minha mãe morreu” uma rotina de controle sobre sua vida pessoal e profissional, marcada por cobrança constante com a aparência e transtornos alimentares. Segundo o relato, ela começou a atuar por incentivo da mãe e, mesmo quando não queria mais trabalhar, sentiu-se pressionada a continuar. Deixou a atuação em 2017 para se dedicar à escrita e à direção.

No Brasil, a atriz Larissa Manoela expôs outro aspecto do mesmo debate: os limites da gestão familiar sobre a carreira de artistas mirins. Ela começou a trabalhar aos 4 anos e alcançou projeção nacional ao viver Maria Joaquina no remake de “Carrossel”, do SBT. A carreira e os negócios ficaram sob administração dos pais até 2023, quando, já adulta, Larissa afirmou ter decidido assumir o controle da própria vida financeira e profissional após divergências sobre a gestão do patrimônio construído em 18 anos de trabalho. Os pais contestaram as declarações da atriz.

Sem generalizar para outras famílias nem emitir diagnóstico sobre os envolvidos, o episódio trouxe à tona questões como autonomia e participação de crianças e adolescentes nas decisões sobre o próprio trabalho e a própria imagem, além de mostrar que os efeitos desse tipo de relação podem se estender à vida adulta.

Primeiro acesso à internet cada vez mais cedo

A preocupação não se limita a crianças famosas. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de internet, o equivalente a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. O levantamento também mostra que 28% dos entrevistados tiveram o primeiro acesso à rede até os 6 anos de idade.

Para Soraya Oliveira, o cenário exige atenção redobrada dos adultos, não pela proibição do uso de telas, mas pelo cuidado com a privacidade e o tempo de desenvolvimento da criança. “Quando a criança cresce buscando validação por curtidas e comentários, pode desenvolver uma autoestima frágil e dificuldade para construir sua própria identidade. Na vida adulta, isso pode gerar insegurança, dependência da aprovação e dificuldades nos relacionamentos”, afirma.

A psicóloga cita sinais que merecem atenção dos pais: “Mudanças de humor, ansiedade, tristeza, frustração, isolamento, preocupação exagerada com aparência, número de seguidores ou curtidas, além de irritação quando não consegue acessar as redes, merecem atenção”.

Para Soraya, a proteção da infância se constrói nas escolhas do dia a dia. “Priorize a segurança, respeite a privacidade. Nem tudo que é vivido em família precisa ser publicado. Algumas das memórias mais importantes são aquelas que permanecem protegidas no coração. O vínculo afetivo é mais importante do que qualquer postagem. A proteção da infância começa nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias, inclusive nas redes sociais”, conclui.

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