sábado, 7 de novembro de 2026
CINEMA GOIANO

Goiás leva três produções ao Festival Visões Periféricas 2026

Documentário, ficção e animação integram a seleção de 69 filmes de 18 estados

Luana Avelarpor em
Festival Visões Periféricas

Três produções goianas chegam nesta semana ao 19º Festival Visões Periféricas, voltado ao cinema fora dos grandes centros. O documentário “Vasta natureza de minha mãe”, o curta de ficção “A Tela” e a animação “Work OUT” representam Goiás na programação, que começa na quinta-feira (23) e segue até domingo (26).

O festival selecionou 69 trabalhos entre 856 inscrições, volume 70% superior ao registrado em 2025. A lista reúne realizadores de 18 estados. A sessão de abertura apresenta “Arquivo Vivo”, de Vincent Carelli e Ana Carvalho, em tributo ao projeto Vídeo nas Aldeias.

Lukas Nascimento, Quézia Lopes, Olinda Tupinambá e Wilq Vicente assinam a curadoria. Entre os assuntos recorrentes nos filmes escolhidos estão a memória, experiências de mulheres, identidades de gênero, culturas de terreiro, apagamentos históricos, cotidiano urbano, conflitos ambientais e precarização do trabalho.

A seleção foi organizada em sete mostras. Fronteiras Imaginárias, Cinema da Gema, Panorâmica e Visorama são competitivas. ICPLAY, Informativa e Visões do Amanhã não participam da disputa. Um júri indica os vencedores das categorias, enquanto a votação do público define outro prêmio.

Uma seleção fica disponível gratuitamente na Itaú Cultural Play de 23 de julho a 6 de agosto. A mostra Visorama terá exibição online.

Cinema feito em Goiás

Único longa goiano no festival, “Vasta natureza de minha mãe” nasceu da parceria entre o cineasta Aristótelis Tothi e sua mãe, Inez dos Santos. Os dois dividem a direção do documentário de 79 minutos, construído a partir da vida dentro de casa e das perguntas que surgem quando mãe e filho tentam transformar lembranças, gestos e rotinas em cinema.

A história de Inez é percorrida em diferentes tempos, enquanto Aristótelis registra o cotidiano. A câmera estabelece um elo entre tempo e espaço e oferece aos dois a possibilidade de continuar sonhando. O filme, indicado para maiores de 14 anos, passou pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e pelo Panorama Internacional Coisa de Cinema.

“A Tela”, dirigido e escrito por Gabriel Newton, começa quando Martinha pendura um quadro de dez mil reais na parede da casa simples onde mora com a avó. A ação conduz o curta por questões ligadas à arte, ao desejo, ao pertencimento e ao direito de uma mulher negra querer tudo.

Newton é formado em Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás e desenvolve trabalhos voltados à negritude, à periferia e às contradições sociais do Brasil contemporâneo.

Com dois minutos de duração, “Work OUT”, de Alana Victória Soares de Souza, acompanha uma jovem presa a um trabalho sem propósito. A lembrança de um sonho da infância coloca a personagem diante de uma escolha entre o conforto do presente e uma vocação que nunca se apagou.

Conflitos sociais, afetos e intimidade

Idealizador e coordenador-geral do Visões Periféricas, Márcio Blanco afirma que as duas décadas do projeto acompanharam a ampliação da diversidade de vozes e narrativas no audiovisual brasileiro.

“Quando o festival surgiu, poucas pessoas olhavam para essa produção da periferia. Duas décadas depois, ela ocupa um espaço cada vez mais relevante, ajudando a romper estigmas, revelando a diversidade de olhares sobre questões nacionais e regionais e apresentando novos arranjos estéticos e criativos no audiovisual brasileiro”, diz ele.

“Vejo também o interesse pela retomada da narrativa. Depois do consumo fragmentado de conteúdo nas redes sociais, o público jovem volta a valorizar o cinema como espaço de encontro e construção de experiências compartilhadas. O cinema é uma experiência coletiva de socialização, de encontro e a narrativa é essa ferramenta de conexão entre as pessoas”, afirma.

Wilq Vicente identifica uma mudança nas formas de abordar conflitos sociais. “Se antes predominavam filmes de denúncia sobre temas urgentes, como violência, racismo, representatividade e território, hoje vemos obras mais elaboradas do ponto de vista narrativo e estético, com crescimento da ficção e mais subjetividade”, afirma.

“As questões raciais e sociais continuam presentes, mas são apresentadas de forma mais elaborada, atravessando histórias sobre trabalho, afetos, relações familiares e amor”, diz o curador, autor dos livros “Cinema de periferia: narrativas do século 21” e “Quebrada? Cinema, vídeo e lutas sociais”.

Vicente também relaciona a ampliação geográfica das inscrições às políticas públicas de financiamento criadas durante a pandemia. “Pela primeira vez chegaram ao festival filmes de cidades e estados que nunca haviam participado e muitos com apoio dessas duas leis”, diz ele, em referência à Lei Paulo Gustavo e à Lei Aldir Blanc.

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