terça-feira, 21 de julho de 2026
Planejamento urbano

Goiânia tem quase um veículo por habitante: “A cidade do carro”

41% da população da Capital utiliza carro particular para se locomover e outros 10% utilizam veículo por aplicativo

João Césarpor João César em 21 de julho de 2026 às 00:56
Goiânia
Capital foi planejada para 50 mil habitantes e atualmente possui 1,4 milhão de veículos e 1,5 milhão de habitantes - Foto: Alex Malheiros

Atualmente, a cidade de Goiânia possui uma frota de aproximadamente 1,4 milhão de veículos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto a população da cidade acaba de chegar a 1,5 milhão de habitantes. Com esses números, há cerca de um veículo por habitante na Capital, um cenário que tem dificultado a locomoção pela cidade.

Os dados do IBGE mostram que o município possuía 621.752 veículos em 2006, o que equivalia a cerca de metade da população da época. “Goiânia é a cidade do carro”, disse o especialista em mobilidade urbana Marcos Rothen ao O HOJE.

Rothen explica que Goiânia não tem um planejamento para ordenar seu crescimento, o que gera problemas de adensamento que se refletem em congestionamentos e tempos de deslocamento maiores. “É possível ver na cidade que o plano existe, mas ele não organiza o crescimento da cidade. Temos prédios muito altos e pessoas morando muito longe e que, para chegar em casa, passam por espaços vazios. Isso mostra a falta de planejamento”, comenta.

Segundo a pesquisa Viver nas Cidades – Mobilidade, o principal meio de transporte da população goianiense são os automóveis, com 41% utilizando veículos próprios e 10% recorrendo a aplicativos de transporte. Além disso, Goiânia foi a única capital onde o uso de veículo particular superou o do transporte coletivo.

Dentro desse dado não são consideradas as pessoas da Região Metropolitana, o que subnotifica aqueles que saem de cidades como Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Trindade e vão para Goiânia diariamente.

O diretor de Trânsito da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET), Luís Tiago, disse ao O HOJE que Goiânia não foi planejada para chegar ao tamanho atual. “A cidade de Goiânia foi pensada para ter 50 mil habitantes, e a gente sabe que hoje está muito além dessa projeção. E, com esse aumento exponencial de veículos, percebemos que, sim, há partes da cidade que sofrem com essas filas enormes de veículos”, pontua.

Nesse sentido, áreas centrais e já consolidadas da cidade não conseguem e não têm para onde crescer. Na visão do especialista Marcos Rothen, é preciso haver um planejamento urbano consolidado para pensar na expansão da malha viária da cidade.

Transporte público

A pesquisa Viver nas Cidades – Mobilidade também mostrou que Goiânia é a capital, entre as dez mais populosas do Brasil, que menos utiliza o transporte coletivo público. De acordo com o levantamento, 49% dos entrevistados disseram que usariam o transporte coletivo se o tempo de espera nos pontos, estações e terminais fosse menor. Outros 44% afirmaram que fariam a mesma escolha caso o trajeto fosse mais rápido em relação aos demais meios de transporte.

Mesmo com a baixa adesão ao transporte coletivo, Rothen defende que o modal é essencial em grandes cidades. “Em Goiânia, as pessoas só usam o ônibus quando não têm outra opção. Isso acontece pela oferta insuficiente. Em muitas avenidas importantes nem passa ônibus, a oferta de transporte em alguns horários é muito reduzida, com uma espera grande”, acrescenta.

Para o especialista, o principal ponto é melhorar o tipo de ônibus e ampliar a oferta. “Tem muitos ônibus velhos e, tirando os dos BRTs, os que estão chegando são de um modelo que não oferece conforto. Até os que têm ar-condicionado não são atrativos”, comenta.

Para contornar a situação, a aposta da gestão atual é o investimento na reestruturação viária e no incentivo ao transporte público, de acordo com o diretor de Trânsito da SET. A solução encontrada foca na fluidez do tráfego.

O plano municipal prevê a implantação de quase 30 corredores de mobilidade, a exemplo das intervenções já realizadas na Avenida Castelo Branco e nas ruas 83 e 136, com futuras expansões para avenidas como a T-9 e a T-7.

Em relação ao incentivo para a população, Luís Tiago pontua que a Prefeitura aposta em melhorias, que incluem a renovação da frota, a implantação dos BRTs Norte-Sul e Oeste-Leste e projetos de “metronização” para aumentar a velocidade dos ônibus.

Adensamento urbano pressiona trânsito

Com a expansão imobiliária da cidade, os problemas de mobilidade tendem a aumentar, principalmente em regiões com grande adensamento. “O crescimento da cidade influencia nos problemas de trânsito porque, quanto maior a verticalização e o adensamento, maior o incremento demográfico de uma dada região, o que costuma resultar no aumento de veículos por pessoa”, explica o arquiteto e urbanista Fred Le Blue.

Com as recentes obras e reformas em praças e calçadas, nas quais foram criadas faixas extras e até praças foram cortadas ao meio, a “população acredita que um carro a mais no mundo não terá consequências danosas”, na visão do arquiteto e urbanista. Nesse sentido, as soluções apresentadas têm efeitos paliativos e apenas postergam o problema.

Dentro dessas questões, o geógrafo urbano e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Glauco Gonçalves, entende que a verticalização observada na cidade tem gerado um colapso diante de um transporte público ineficaz. Ainda na questão dos transportes, Gonçalves observa que há uma quase total inexistência de ciclovias ou de formas de locomoção não motorizadas, forçando o uso de automóveis em ruas estreitas, o que culmina em um colapso da mobilidade urbana.

Outro problema é a cultura em torno do uso do automóvel. “A gente tem que entrar numa análise social e cultural do goianiense […] A pessoa tem que ter um veículo, é como se fosse um bem de família”, acrescenta o diretor de Trânsito da SET.

Para resolver o problema, Le Blue apresenta a ideia de pensar a cidade de forma “sistêmica e sustentável”. Para o especialista, as políticas públicas devem canalizar os investimentos para modais limpos de transporte, como bicicletas elétricas. “Algumas cidades da Europa têm tido experiências positivas de investimento na pedestrização dos centros históricos, o que Goiânia poderia adotar, assumindo seu potencial de cidade turística, até mesmo para seus moradores periféricos”, destaca.

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