quinta-feira, 23 de julho de 2026
Crianças

70% das famílias têm dificuldade na hora de cuidar dos filhos nas férias escolares

Falta de rede de apoio pode levar ao isolamento, excesso de telas e situações de negligência

João Césarpor João César em 22 de julho de 2026 às 23:41
férias
Especialistas orientam que crianças não sejam deixadas sozinhas ou sob a responsabilidade de outros menores durante as férias - Foto: Magnific

Enquanto as crianças aproveitam os últimos dias das férias de julho, muitos pais e responsáveis enfrentam dificuldades para conciliar trabalho, cuidados com os filhos e despesas domésticas. Levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro mostra que o período está longe de representar descanso para grande parte das famílias brasileiras.

 

De acordo com a pesquisa, 70% dos entrevistados afirmam ter dificuldade para adequar as férias escolares à rotina profissional. Além disso, 74% consideram o período motivo de preocupação quando não conseguem se afastar do trabalho na mesma época que os filhos. Apenas 33% conseguem tirar folga junto com os filhos.

Com a rotina de trabalho mantida, a rede de apoio se torna essencial. Segundo o levantamento, 66% das famílias recorrem a parentes, amigos ou outras pessoas para ajudar nos cuidados com as crianças.

 

Para ocupar o tempo dos filhos, as famílias recorrem principalmente a passeios em parques e praças, opção citada por 87% dos entrevistados. Shoppings e cinemas aparecem em seguida, com 86%, enquanto 77% utilizam atividades dentro de casa, como televisão, vídeos, celular e computador.


Dificuldades e negligência

 

De acordo com o conselheiro tutelar da região Norte de Goiânia e presidente do Colegiado dos Conselheiros Tutelares de Goiânia (Precon), Rondinelly-Ná Barbosa, durante o período de férias escolares  há um aumento nas demandas envolvendo crianças e adolescentes sem supervisão adequada.

Segundo o conselheiro, as situações mais comuns envolvem crianças deixadas sozinhas em casa por longos períodos e o uso de irmãos menores de idade como cuidadores dos mais novos. O especialista explica que a legislação brasileira não estipula uma idade mínima para uma criança ficar sozinha em casa. Por isso, cada caso é avaliado de forma individualizada.

Com isso, durante esses períodos, há um aumento dos riscos para acidentes domésticos, como queimaduras, quedas, choques elétricos e engasgamentos, além do perigo de violência e desaparecimento. O conselheiro destaca também que a prática de deixar os irmãos mais novos sob a responsabilidade de um irmão mais velho que ainda é menor de idade  pode ser considerada uma violação dos direitos de ambos.

Rondinelly-Ná adverte que crianças e adolescentes não possuem maturidade nem preparo para lidar com emergências, e que assumir responsabilidades de adultos pode causar sobrecarga emocional, ansiedade e comprometer o desenvolvimento, o convívio social e o direito ao lazer do irmão mais velho.

Algumas alternativas possíveis para esses momentos é contar com familiares adultos de confiança, responsáveis previamente autorizados ou pessoas que realmente tenham condições de garantir os cuidados necessários. Porém, na falta de um rede de apoio, é possível buscar informações junto à rede socioassistencial do município, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), sobre programas, atividades e serviços disponíveis durante o período de férias, além de verificar iniciativas promovidas por escolas, organizações da sociedade civil, instituições religiosas e projetos comunitários.



Uso excessivo de telas e falta de atividades


Sem uma rede de apoio, muitas crianças passam mais tempo sozinhas, com familiares ou diante de telas. Segundo a psicóloga Kelyane Olanda, essa realidade não é necessariamente prejudicial, mas exige organização e atenção aos vínculos afetivos.

 

A ausência de uma rotina mínima pode provocar irritabilidade, desorganização, ansiedade e dificuldades na retomada das aulas. O uso excessivo de celulares, computadores e televisão também reduz oportunidades de interação social, brincadeiras criativas e movimento corporal.

 

Em algumas fases do desenvolvimento, a criança pode interpretar a ausência frequente dos pais como desinteresse ou rejeição, especialmente quando há pouca comunicação. Para reduzir esses impactos, a psicóloga recomenda manter horários flexíveis, variar as atividades, limitar as telas, ensinar regras de segurança e reservar diariamente momentos de conversa. Para Kelyane, a qualidade do vínculo e a presença afetiva são mais importantes do que a quantidade de tempo disponível.

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