Pornografia pode prejudicar a saúde mental masculina; psicóloga explica os sinais de alerta
Busca por prazer imediato pode comprometer a autoestima, as decisões e as relações afetivas
O hábito de consumir pornografia não é exclusivo dos homens, mas culturalmente é entre eles que a prática mais se desenvolve. Durante décadas, esse comportamento recebeu certa condescendência social, tratado como parte natural da construção da masculinidade.
Levantamento divulgado no ano passado pelo site Pornhub mostra que o Brasil avançou três posições no ranking mundial de acesso a conteúdo pornográfico. O país passa a ocupar o 4º lugar entre os que mais consomem esse tipo de material, atrás apenas de Estados Unidos, México e Filipinas.
Outra pesquisa, feita em 2018 pelo instituto Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado para o Canal Sexy Hot, aponta que 22 milhões de pessoas assumem consumir pornografia no país. Do total, 76% são homens e 24% são mulheres.
Prejuízos à saúde mental
Mas existe algum prejuízo nesse consumo? Segundo a psicóloga Aparecida Tavares, sim. Ela explica que o uso desenfreado de conteúdo pornográfico pode afetar a autoestima, gerar compulsão, isolamento social e limitar a capacidade de tomar decisões.
“Porque eu vou para um outro lugar de fantasia, do tudo pode, do eu controlo, eu mando, eu não preciso me relacionar com quem eu não queira, eu não preciso enfrentar as minhas dificuldades. E isso na esfera real traz sim dificuldades, porque quem está com você é de carne e osso, pensa, sente e também te avalia”, pontua.
A psicóloga cita estudos que associam o consumo excessivo a prejuízos na tomada de decisões e no controle inibitório da impulsividade. Segundo ela, quem consome esse tipo de conteúdo passa a buscar doses cada vez maiores de prazer, já que o material aciona diretamente o circuito cerebral ligado ao bem-estar.
“É muito importante a gente entender que esse homem pode desenvolver como prejuízo a ejaculação precoce, viver o isolamento social e evitar as boas relações interpessoais”, afirma.
Sinais de compulsão
Aparecida Tavares alerta que o consumo exagerado de pornografia pode desencadear quadros de compulsão. Segundo ela, esse comportamento interfere diretamente na forma como a pessoa se percebe e se relaciona com o outro.
“Essa compulsão pode afetar a forma como você se percebe, se vê, se coloca e, principalmente, afetar as suas relações interpessoais, a sua auto responsabilidade afetiva”, diz.
A psicóloga aponta sinais que merecem atenção. Um deles é a incapacidade de adiar a busca pelo prazer, independentemente do ambiente em que a pessoa esteja. Outro é o uso da pornografia como forma de aliviar, ainda que momentaneamente, quadros de ansiedade generalizada.
“Quando você já não consegue mais adiar essa busca pelo prazer e aí já não importa o ambiente que você esteja, você vai acessar. E também quando está fazendo uso da pornografia para aliviar momentaneamente uma ansiedade generalizada”, completa.
Caminho para uma relação saudável
Para desenvolver uma relação saudável com a sexualidade e com o consumo de conteúdo erótico, a psicóloga afirma que o primeiro passo é entender a origem dessa necessidade. Segundo ela, a dificuldade em construir vínculos afetivos autênticos costuma estar na raiz do problema.
“Por que é tão difícil lidar com uma relação interpessoal onde eu vou apresentar não só os meus desejos, os meus fetiches, mas quem eu sou? Por que eu preciso desse conteúdo adulto para me sentir mais viril, para sentir mais prazer, por que é tão difícil comunicar com o meu parceiro ou com a minha parceira? Por que é tão difícil desenvolver um relacionamento saudável?”, questiona.
Quem reconhece já ter ultrapassado os limites saudáveis nesse consumo pode buscar apoio profissional. Aparecida Tavares recomenda o acompanhamento com psicólogos com formação em sexualidade, capacitados para o manejo de quadros de compulsão ligados à busca por recompensa imediata.
“É muito importante o autoconhecimento por meio da psicoterapia, do desenvolvimento de novas estratégias, de novos comportamentos que te tragam uma saúde mental e relacional mais saudável”, ressalta.
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