Doença rara que matou influenciadora tem alta incidência em Goiás
Xeroderma pigmentoso provoca extrema sensibilidade à radiação ultravioleta e aumenta o risco de câncer de pele; povoado de Araras concentra número incomum de casos
A morte da influenciadora digital Karine Felipe de Sousa, conhecida como Káh Felipe, aos 37 anos, voltou a chamar a atenção para o xeroderma pigmentoso, uma doença genética rara que provoca extrema sensibilidade à radiação ultravioleta. Em Goiás, o povoado de Araras, no município de Faina, concentra um dos maiores grupos de pessoas diagnosticadas com a condição no país.
Káh Felipe morreu na sexta-feira (24), após enfrentar um câncer com metástase. Com mais de 750 mil seguidores, ela compartilhava nas redes sociais os desafios de viver com o xeroderma pigmentoso, além da rotina de tratamentos e cirurgias.
A influenciadora convivia com a doença desde a infância e passou por mais de 250 cirurgias para a retirada de lesões. Nos últimos meses, havia revelado o diagnóstico de metástase nos ossos, no fígado e no pulmão. Káh deixa o marido e quatro filhos.
O que é xeroderma pigmentoso?
O xeroderma pigmentoso, também chamado de XP, é uma condição genética hereditária e não contagiosa. Pessoas com a doença apresentam falhas nos mecanismos utilizados pelo organismo para reparar os danos provocados pela radiação ultravioleta no DNA.
Esses danos podem se acumular ao longo da vida, especialmente nas regiões mais expostas à luz, aumentando consideravelmente o risco de desenvolvimento precoce de câncer de pele.
Os sinais normalmente aparecem durante a infância. Entre as manifestações estão queimaduras intensas depois de pouco tempo ao sol, manchas semelhantes a sardas em crianças pequenas, ressecamento, alterações na pigmentação e envelhecimento precoce da pele. Os olhos também podem ser afetados pela exposição à luminosidade.
A doença não tem cura conhecida, mas a proteção rigorosa contra a radiação ultravioleta e o acompanhamento médico frequente podem reduzir os danos e permitir que lesões suspeitas sejam identificadas precocemente. As recomendações devem ser individualizadas pela equipe médica.
Povoado goiano concentra casos
Araras, localizado no município de Faina, chama a atenção de pesquisadores pela elevada incidência da doença. A Sociedade Brasileira de Dermatologia aponta a proporção aproximada de um caso para cada 4040 habitantes da comunidade, enquanto estimativas para os Estados Unidos e a Europa indicam cerca de um caso para cada 1 milhão de pessoas.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo relacionam a concentração à presença de mutações genéticas na comunidade, ao isolamento geográfico e a antigos casamentos entre parentes.
Um estudo identificou que a mutação predominante entre os pacientes de Araras é semelhante à encontrada em famílias do País Basco e da Cantábria, na Espanha. A hipótese é que ela tenha chegado ao Brasil durante o processo de colonização europeia, há cerca de 200 anos.
Segundo a USP, os moradores diagnosticados em Araras apresentam a forma variante da doença, conhecida como XP-V. O diagnóstico precoce, a redução da exposição ao sol e o acompanhamento contínuo são fundamentais para diminuir o acúmulo de danos.
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