Tarifaço dos EUA pressiona polos do açúcar orgânico em Goiás
Enquanto parte do Estado enfrenta baixa exposição às sobretaxas, Goiatuba e Goianésia se destacam entre os municípios mais afetados
Embora Goiás apareça entre os Estados menos expostos às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros, o impacto não deve ser distribuído de forma homogênea dentro do território goiano. Goiatuba e Goianésia figuram entre os 100 municípios mais afetados do País por concentrarem parte das exportações de açúcar orgânico destinadas ao mercado norte-americano, segmento que passou a enfrentar uma carga adicional de até 37,5%.
A posição dos dois municípios faz parte de um levantamento elaborado pelo Estadão, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Além de estarem entre os principais polos do setor em Goiás, Goiatuba e Goianésia concentram algumas das maiores usinas de açúcar orgânico do País, atividade voltada para um mercado bastante específico e com elevada dependência das exportações.
Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Açúcar no Estado (Sifaçúcar), André Rocha, os dois municípios representam entre os maiores produtores nacionais de açúcar orgânico. Das quatro usinas existentes no Brasil dedicadas a esse tipo de produção, duas estão em Goiás, esse cenário ajuda a explicar por que as duas cidades aparecem entre as mais atingidas pelas novas barreiras comerciais.
A concentração da atividade também amplia os reflexos econômicos locais. De acordo com Rocha, o setor de bioenergia possui forte presença no interior goiano e responde por grande parte dos empregos em diversos municípios. “O setor de bioenergia emprega muito. Hoje ele está instalado em cerca de 28 municípios e, em aproximadamente 25 ou 26 deles, é o maior empregador”, afirma ao O HOJE.
Dados da Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços (SIC) mostram que, em 2025, Goiatuba respondeu por US$ 39,18 milhões das exportações para os Estados Unidos, o equivalente a 6,11% de todas as vendas goianas destinadas ao mercado norte-americano. Goianésia exportou US$ 35,62 milhões, participação de 5,55%.
Cenário estadual
No conjunto da economia goiana, entre janeiro e junho deste ano, Goiás exportou US$ 7,06 bilhões, dos quais US$ 462,5 milhões tiveram como destino os Estados Unidos, participação de 6,55% nas vendas externas do Estado. Ainda, um levantamento da SIC indica que cerca de 85% das exportações goianas permaneceram fora das tarifas, reduzindo o impacto agregado sobre a balança comercial estadual.
Essa diferença entre a realidade estadual e municipal é explicada, segundo o economista Leonardo Ferraz, pelo perfil das exportações. “Em municípios como Goiatuba e Goianésia, a dependência de determinados produtos exportados para os Estados Unidos é maior. Assim, um impacto que é pequeno na média estadual pode ser bastante relevante para uma economia local”, afirma ao O HOJE.
Mercado de nicho limita alternativas
Apesar de o governo brasileiro buscar ampliar acordos comerciais com outros países, a substituição do mercado norte-americano não ocorre de forma imediata para o açúcar orgânico. Segundo Rocha, trata-se de um produto de nicho, destinado a consumidores específicos e de maior poder aquisitivo.
O presidente da Fieg explica que os Estados Unidos são atualmente o principal mercado consumidor de açúcar orgânico produzido em Goiás. Já a União Europeia, segundo maior destino potencial, mantém uma tarifa superior ao próprio valor do produto, reduzindo significativamente a competitividade brasileira. Além disso, países como Colômbia, Argentina e Paraguai disputam esse mercado e, em alguns casos, possuem vantagens tarifárias que o Brasil não tem.
Para Rocha, esse conjunto de fatores impede uma simples migração das exportações para outros destinos. “Você não consegue, de uma hora para outra, abrir mercado para um produto com nicho específico e valor agregado específico”, afirma. Segundo o especialista, parte das empresas goianas já havia perdido contratos com compradores norte-americanos após as medidas adotadas no ano passado, situação que tende a ser agravada pelas novas tarifas.
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