Redes sociais ampliam debate sobre saúde íntima, mas também espalham desinformação
Conteúdos sem respaldo científico e padrões irreais podem aumentar inseguranças e levar jovens a decisões sem orientação médica
A dúvida que antes ficava restrita ao consultório ou ao silêncio agora aparece em vídeos de poucos segundos. Nas redes sociais, temas ligados à anatomia, à sexualidade e aos cuidados com a região íntima ganharam visibilidade, mas passaram a dividir espaço com recomendações improvisadas, publicidade disfarçada de orientação e imagens que transformam diferenças naturais do corpo em supostos defeitos.
O impacto é maior entre adolescentes. Pesquisa do UNICEF com 1.004 jovens brasileiros mostra que quase nove em cada dez comparam o próprio corpo ao de outras pessoas. Outros 60% apresentam algum grau de insatisfação com a aparência.
Na saúde íntima, a comparação costuma ser ainda mais silenciosa. Conteúdos sobre anatomia, tratamentos e procedimentos podem induzir a ideia de que existe um único padrão correto. Ao repetir uma referência restrita, as plataformas confundem variação corporal com problema médico e empurram jovens para decisões motivadas pela insegurança.
A cirurgiã plástica Renata Magalhães, especialista em cirurgia íntima, reconhece que o ambiente digital ajudou a ampliar conversas antes cercadas de constrangimento, mas chama atenção para a origem das informações. “Hoje os jovens têm muito mais acesso à informação do que as gerações anteriores, o que é positivo. O problema é que nem todo conteúdo publicado nas redes sociais é produzido por profissionais qualificados ou baseado em evidências científicas.”
Nas plataformas, um relato pode ser entendido como diagnóstico; um vídeo patrocinado, como recomendação; uma tendência estética, como necessidade de tratamento. Por isso, dúvidas sobre sintomas ou procedimentos não devem ser resolvidas apenas pela internet.
“Quando o assunto é saúde íntima, a orientação deve vir de ginecologistas ou cirurgiões plásticos especializados. Antes de seguir qualquer dica encontrada na internet, é importante confirmar a informação com um profissional”, orienta Renata.
O corpo fora do enquadramento
A desinformação não circula somente em falas ou legendas. Ela também se instala na maneira como os corpos são exibidos. Iluminação, filtros, edição e escolha de ângulos apagam assimetrias, marcas e diferenças comuns, enquanto o resultado chega à tela como se fosse espontâneo.
Renata alerta que a comparação parte de imagens produzidas para mostrar apenas uma fração da realidade. “As redes sociais mostram o palco da vida das pessoas, não os bastidores. Aquela imagem publicada normalmente foi escolhida entre dezenas de outras, recebeu o melhor ângulo e, muitas vezes, algum tipo de edição. Comparar o corpo real com essa imagem não é saudável”, explica.
Quando esse padrão passa a orientar a percepção, a atenção se concentra no que incomoda. “Muitas pessoas deixam de valorizar suas próprias qualidades e passam a focar somente no que as incomoda. Isso favorece uma insatisfação permanente com o próprio corpo”, afirma a médica.
Consulta antes da decisão
Dor, desconforto, alteração funcional ou sofrimento persistente exigem avaliação individual. O problema surge quando a busca por ajuda começa e termina nas redes, sem exame, histórico clínico ou discussão sobre riscos e expectativas.
“Se alguma característica realmente incomoda e interfere na autoestima ou na qualidade de vida, vale buscar ajuda médica. Hoje existem tratamentos para diferentes situações, mas toda decisão precisa ser tomada com base em critérios técnicos, e não em tendências da internet”, diz Renata.
Antes de seguir uma orientação, é preciso verificar se o conteúdo foi produzido por profissional habilitado e se o médico possui registro ativo no Conselho Regional de Medicina. Promessas de resultado rápido, soluções milagrosas e indicações de medicamentos ou procedimentos sem consulta devem acender o alerta.
A internet pode ajudar a formular perguntas e reduzir a vergonha de procurar atendimento. Não pode, porém, substituir a consulta nem definir sozinha o que é saudável, normal ou necessário. Para Renata, aprender a reconhecer fontes confiáveis também faz parte do cuidado. “Quanto mais cedo o jovem aprender a identificar fontes confiáveis, maiores são as chances de desenvolver uma relação saudável com o próprio corpo e tomar decisões baseadas em conhecimento, e não em padrões irreais ou desinformação.”
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