quinta-feira, 17 de setembro de 2026
LER NA ERA DIGITAL

Ainda sabemos permanecer em uma história? Escritora explica como recuperar o hábito da leitura

Em conversa com O Hoje, a escritora e criadora do Clube de Leitura da Daisy aponta caminhos para quem quer voltar a ler em meio a uma rotina dominada por telas e conteúdos rápidos

Luana Avelarpor em
Ainda sabemos permanecer em uma história? Escritora explica como recuperar o hábito da leitura
Foto: divulgação

Entre uma mensagem que chega, um vídeo que começa automaticamente e a próxima atualização nas redes sociais, permanecer alguns minutos diante de uma única tarefa tornou-se um exercício para muita gente. A leitura também entrou nessa lógica. Textos curtos, resumos e conteúdos consumidos em poucos segundos passaram a disputar espaço com livros que exigem tempo, silêncio e continuidade.

É nesse cenário que o livro impresso mantém uma característica difícil de reproduzir no cotidiano digital: a possibilidade de afastar, ao menos por algum tempo, os estímulos que interrompem constantemente a atenção. Mais do que uma preferência nostálgica pelo papel, abrir um livro pode representar uma mudança de ritmo em uma rotina na qual telas acompanham trabalho, lazer, comunicação e informação.

Em entrevista ao jornal O Hoje, a escritora e criadora do Clube de Leitura da Daisy, Daisy Gouveia, afirma que a materialidade do livro participa diretamente dessa experiência. “A sensação de pertencimento do livro impresso é insubstituível. Aquela história será carregada por dias no volume que nos acompanhará, com as marcas que ficarão registradas e memorizadas em cada capítulo, além dos sinais da companhia ao longo dos dias de leitura”, diz.

A diferença está também nas interrupções. Enquanto o livro reúne texto e leitor em um mesmo objeto, celulares, tablets e computadores concentram diferentes atividades no mesmo espaço. Uma leitura pode ser interrompida por mensagens, alertas, chamadas ou pela simples vontade de verificar outra informação.

“Em contrapartida, o cotidiano diante das telas nos estimula constantemente à aceleração do meio digital, tornando o momento de leitura menos aprazível devido às interferências de alertas e mensagens completamente dispensáveis”, afirma Daisy.

Ler também exige reaprender a permanecer

A dificuldade de concentração, porém, não desaparece simplesmente quando o celular é deixado de lado. Depois de anos de contato constante com conteúdos rápidos, voltar a acompanhar uma narrativa longa pode exigir adaptação. Para Daisy, recuperar o hábito passa menos pela imposição de metas e mais pela criação de constância.

“Realmente o mal do nosso tempo foi a perda do hábito da leitura. Muitos de nós fomos trocando obras literárias por textos curtos, vídeos e uma pressa para ter informações resumidas”, lamenta.

Uma das alternativas apontadas por ela é começar pelo que já despertou interesse em outro momento da vida. Retomar um livro associado a uma lembrança, por exemplo, pode diminuir a sensação de que a leitura precisa começar como obrigação. O mesmo vale para estabelecer horários ou lugares nos quais aquela atividade passe a fazer parte da rotina. “Descobrir o leitor que está ainda aí, através de uma releitura de um livro que deixou marcas, memórias afetivas, pode ser um começo”, afirma.

Grifar trechos, escrever comentários e concluir um capítulo antes de interromper a leitura também estão entre as estratégias adotadas por quem busca recuperar a capacidade de permanecer diante do texto. O gesto de escrever à margem transforma a leitura em uma experiência menos passiva e cria referências que podem ser revisitadas meses ou anos depois.

É justamente essa possibilidade de deixar marcas que distingue o livro impresso de uma leitura cujo registro muitas vezes desaparece quando a tela é fechada. Uma frase sublinhada, uma anotação apressada ou uma dedicatória permanecem incorporadas ao exemplar e passam a contar também a história de quem o leu.

Livros guardam histórias para além do texto

Para Daisy, essa relação começou antes mesmo de ela própria se tornar leitora. A lembrança vem da infância, quando observava os livros dentro de casa e as pessoas que os manuseavam.

“Andando pela sala, pequena, mesmo ainda sem alcançar a estante, vendo meus irmãos e minha mãe lendo, sabia que um dia estaria nesse lugar. Uma casa com memórias e espelho de leitores podem trazer outros leitores. Uma casa com livros oferece a curiosidade das histórias”, conta Daisy.

A experiência, no entanto, não está disponível para todos. É por isso que escolas e bibliotecas continuam desempenhando papel fundamental na formação de leitores, principalmente para crianças que não convivem com livros em casa. O contato com o objeto, a possibilidade de escolher uma obra e levá-la consigo também fazem parte dessa aproximação. “Essa relação material importa porque o livro impresso funciona como um arquivo vivo da nossa própria história”, resume.

Esse arquivo pode assumir diferentes formas. Um exemplar comprado em uma viagem, um livro herdado, uma dedicatória escrita anos antes ou uma obra emprestada e nunca devolvida acabam vinculados a períodos específicos da vida. A estante deixa, assim, de ser apenas um lugar de armazenamento para se tornar uma coleção de referências, interesses e lembranças.

O caráter afetivo não significa, entretanto, que o impresso precise ser tratado como único caminho possível para a leitura. A própria Daisy reconhece que os formatos digitais ampliaram o acesso e se adaptam melhor à rotina de muitos leitores.

“Sabemos que a leitura no livro físico intensifica os benefícios cognitivos que a atividade traz, mas isso não quer dizer que a leitura digital não entregue benefícios também. Muitos leitores adotam o digital por falta de espaço para armazenar livros, pela facilidade de carregar histórias na bolsa, por poder ler no quarto com a luz apagada, sem incomodar seus companheiros.”

Kindles, tablets, celulares e audiolivros atendem necessidades distintas e podem ampliar as possibilidades de contato com histórias. A questão talvez esteja menos em escolher entre papel e tela e mais em recuperar um espaço que vem sendo reduzido pela pressa: aquele em que não há outra tarefa a cumprir simultaneamente.

O livro físico torna essa separação mais visível. Pegá-lo, sentar-se e virar as páginas estabelece começo, continuidade e fim para uma atividade que não precisa competir com uma sequência infinita de estímulos. Em um cotidiano no qual quase tudo pode ser interrompido por uma notificação, permanecer diante de uma história até a página seguinte pode ser, por si só, uma forma de desacelerar.

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