84% das adolescentes grávidas não planejaram a gestação, aponta pesquisa
Estudo mostra que conhecer o nome de um contraceptivo não garante seu uso; pesquisadores defendem educação sexual ampliada e responsabilidade compartilhada entre parceiros
A camisinha é conhecida, a pílula também. Ainda assim, uma gravidez pode chegar sem ter sido planejada. A aparente contradição mostra que a prevenção não depende apenas de saber que determinado método existe. Entre receber informação, compreender como se proteger, ter acesso a contraceptivos e conseguir conversar sobre o assunto com o parceiro existe um caminho que nem sempre é percorrido.
Uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ajuda a enxergar esse cenário. Entre 101 gestantes de 12 a 20 anos atendidas no Hospital da Mulher José Aristodemo Pinotti (Caism), em Campinas, 84% não haviam planejado a gravidez. As jovens passaram pelo ambulatório de pré-natal entre 2017 e 2024, e os resultados foram publicados na revista The European Journal of Contraception & Reproductive Health Care.
O número se soma a um quadro mais amplo. Em 2023, 11,9% dos nascidos vivos no Brasil eram filhos de mães com até 19 anos, segundo o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc).
A informação chegou. Mas de que forma?
Um dos resultados mais reveladores aparece quando as adolescentes são questionadas sobre contracepção. Cerca de dois terços disseram, inicialmente, não conhecer métodos contraceptivos. Quando as opções foram apresentadas pelo nome, 93,1% reconheceram o preservativo e 96% disseram conhecer pílulas anticoncepcionais e métodos injetáveis.
A diferença mostra que ouvir falar de um método está longe de significar dominar seu uso ou conseguir incorporá-lo às decisões da vida cotidiana. Também reforça que a prevenção não deveria ser uma tarefa entregue exclusivamente às meninas. Meninos e parceiros fazem parte dessa conversa, seja no uso do preservativo, seja na responsabilidade compartilhada pelas decisões contraceptivas.
Os autores do estudo defendem justamente a ampliação da educação sexual, do aconselhamento contraceptivo e do acesso aos serviços de saúde. A intenção é permitir que adolescentes tenham condições concretas de decidir se e quando desejam ter filhos, em vez de receber informação apenas de maneira pontual.
Contexto também entra na conta
As participantes tinham idade mediana de 17 anos. Em média, iniciaram a vida sexual aos 14 e tiveram a primeira gestação aos 16. A maioria estudava e tinha entre dez e 12 anos de escolaridade.
A pesquisa também encontrou diferenças relacionadas ao contexto das relações. Adolescentes que viviam com o parceiro apresentaram menor probabilidade de relatar uma gravidez não planejada. Além disso, a cada ano de adiamento da primeira gestação, diminuía a chance de ela ter ocorrido sem planejamento.
Esses resultados não oferecem uma explicação única para a gravidez na adolescência. Pelo contrário: mostram que o fenômeno envolve informação, relações, acesso a serviços de saúde e condições para transformar conhecimento em escolha.
O estudo foi conduzido em um único hospital universitário, com participantes da Região Metropolitana de Campinas, e não pode ser generalizado para todas as adolescentes brasileiras. Ainda assim, coloca em evidência uma questão importante: conhecer o nome de um contraceptivo não resolve sozinho o problema.
Prevenção exige informação compreensível, acesso e diálogo. E, embora as consequências físicas de uma gravidez recaiam sobre a adolescente, evitar uma gestação não planejada não deveria ser uma responsabilidade carregada apenas por ela.
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