Por que produtores brasileiros estão apostando no mogno africano como investimento de longo prazo
Sem as restrições da espécie nativa, o mogno africano atrai produtores em Minas Gerais e Roraima com expectativa de retorno milionário após duas décadas de cultivo
Vinte anos de espera para colher. Esse é o prazo que não assusta Ricardo Tavares, um dos pioneiros no cultivo do mogno africano no Brasil. Em sua fazenda no cerrado de Minas Gerais, são 500 hectares dedicados à espécie que chegou ao país como alternativa ao mogno brasileiro, restrito por estar na lista de espécies ameaçadas.
A vantagem competitiva é clara: o mogno africano pode ser cortado sem autorização especial e apresenta desenvolvimento superior ao de outras espécies nobres. Para demonstrar isso, Tavares montou uma coleção com 17 espécies em parte de sua área. “Aqui está claramente demonstrado que o mogno africano teve um desenvolvimento muito maior que as outras espécies de madeira que plantamos aqui”, afirma.
A projeção financeira é o que mais chama atenção. Um projeto de 20 anos custa em torno de R$ 70 mil por hectare. A expectativa de colher 400 metros cúbicos de tora por hectare, ao preço atual de mercado, representaria cerca de R$ 800 mil por hectare ao final do ciclo.
O potencial de retorno não resolve o principal gargalo do setor: o financiamento inicial. “A hora que chega lá no banco e fala, ‘olha, minha cultura precisa de 18 anos de financiamento’, existe um susto”, explica Patrícia Fonseca, diretora da Associação Brasileira de Produtores de Mogno Africano. “A instituição financeira brasileira não está acostumada com isso e não gosta de correr risco.”
Uma saída encontrada por produtores é começar em pequena escala e ampliar gradualmente. Na fazenda Boa Esperança, em Minas Gerais, a estratégia é plantar 25 hectares por ano de forma perpétua, com custo de implantação de R$ 6,5 mil por hectare e sem necessidade de irrigação.
Em Roraima, os irmãos Marcello e Eduardo Guimarães saíram da área de tecnologia para investir em 2 mil hectares de mogno africano, com 1,8 milhão de árvores numa região de savana próxima a Boa Vista. O solo precisou ser construído antes do plantio, com consórcio de leguminosas e capim para aumentar a matéria orgânica.
Para acelerar a produção, desenvolveram uma máquina capaz de plantar 3,6 mil mudas por hora, com monitoramento via satélite e GPS. A venda de créditos de reposição florestal ajuda a financiar o início do investimento, gerando em torno de R$ 1,2 mil por hectare logo após o plantio.
O maior risco da operação em Roraima é o fogo, algumas vezes criminoso. Para reduzir a ameaça, os produtores adotam a agrofloresta, combinando o mogno com mandioca, banana e outras espécies produtivas. A presença constante de trabalhadores na área reduz o risco de incêndio e ainda atrai fauna nativa. “Já encontramos pegadas de onça, encontramos tatu, tamanduá bandeira”, afirma a bióloga Eliza Costa, que estuda a fauna da região há dois anos.
A meta inicial de plantar 40 mil hectares em dez anos está sendo revista para incluir mais diversidade, combinando o mogno com espécies nativas como jatobá, ipê e figueira branca. Para os produtores, a aposta no mogno africano pode contribuir para reduzir a pressão sobre a Amazônia ao suprir parte da demanda por madeira nobre no mercado brasileiro e internacional.
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