segunda-feira, 17 de agosto de 2026
sintomas que não podem esperar

Sinais de alerta podem salvar vidas na gravidez e no pós-parto; ginecologista explica quais são

Brasil tem 56,4 mortes maternas a cada 100 mil nascimentos

Luana Avelarpor Luana Avelar em
gravidez

O nascimento do bebê não encerra os riscos de uma gestação. Nas horas e semanas seguintes ao parto, sangramentos, infecções e alterações da pressão ainda podem colocar a vida da mulher em perigo. Durante a gravidez, outros sinais, como dor de cabeça persistente, perda de líquido e redução dos movimentos do bebê, também não devem esperar pela próxima consulta. Reconhecer essas alterações e ter acesso rápido à assistência são pontos decisivos diante de um problema que o Brasil ainda está longe de superar.

Dados do Ministério da Saúde referentes a 2024 apontam uma razão de 56,4 mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos. A meta brasileira dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é chegar, no máximo, a 30 mortes por 100 mil até 2030. Para atingir esse patamar, seria necessária uma redução de aproximadamente 47% no indicador atual.

Para a ginecologista Ana Christina de Lacerda Lobato, membro da diretoria da SOGIMIG, enfrentar esses números passa por acompanhar a mulher em todas as etapas, sem tratar o pré-natal como uma sucessão automática de consultas e exames.

“Apesar dos avanços, a mortalidade materna ainda precisa ser tratada como prioridade. Muitas complicações podem ser prevenidas ou controladas quando há pré-natal qualificado, reconhecimento rápido dos sinais de alerta e assistência adequada no parto e no pós-parto”, explica.

Hemorragias obstétricas, distúrbios hipertensivos, infecções, complicações do aborto e doenças anteriores à gravidez que se agravam durante a gestação estão entre os quadros que demandam atenção.

O que o pré-natal precisa enxergar

O pré-natal deve identificar riscos antes que eles evoluam para complicações. “Uma consulta apenas protocolar pode deixar passar situações importantes. O pré-natal deve olhar para a mulher de forma integral, com sua evolução, e permite agir antes que uma complicação se agrave”, destaca Ana Christina.

Entre os pontos de atenção estão os distúrbios hipertensivos. Dor de cabeça intensa, alterações visuais, inchaço súbito, falta de ar e elevação da pressão podem indicar quadros graves, como a pré-eclâmpsia. “A pré-eclâmpsia pode evoluir rapidamente para quadros graves. Por isso, reconhecer sinais de alerta e procurar atendimento imediato é fundamental para reduzir riscos para a mãe e o bebê”, orienta.

Infecções urinárias e genitais também precisam ser investigadas, inclusive quando não provocam sintomas. Sem tratamento, podem trazer complicações para a gestante e o bebê

Há sintomas que não podem esperar

Sangramento vaginal, perda de líquido, febre, dor de cabeça forte e persistente, alterações na visão, inchaço súbito, falta de ar e convulsões estão entre os motivos para procurar assistência. A lista inclui ainda diminuição ou ausência dos movimentos do bebê e contrações antes de 37 semanas.

Não cabe à gestante tentar definir sozinha a gravidade do sintoma. “Na dúvida, a gestante deve procurar atendimento. É melhor avaliar e descartar uma complicação do que perder o tempo adequado de intervenção”, reforça Ana Christina.

O sangramento merece atenção em qualquer fase da gravidez. Nem sempre significa uma complicação grave, mas pode estar relacionado a situações como abortamento, gravidez ectópica, descolamento prematuro da placenta ou placenta prévia e, por isso, precisa ser avaliado.

A vigilância deve continuar depois do nascimento. Sangramento intenso, presença de coágulos, palidez, tontura, desmaio, dor abdominal forte ou queda da pressão podem indicar hemorragia pós-parto, uma emergência obstétrica.

“A avaliação objetiva do sangramento nas primeiras horas após o parto permite agir rapidamente, com medidas preventivas e terapêuticas, reduzindo o risco de complicações graves”, explica a médica.

É também nesse período que a atenção costuma se concentrar no recém-nascido, enquanto sinais apresentados pela mãe podem ser deixados em segundo plano. “A assistência não acaba quando o bebê nasce. O puerpério é um período de risco e precisa de vigilância, orientação e acesso ao serviço de saúde”, afirma.

A escolha da via de parto também integra esse cuidado. A cesariana pode ser necessária e salvar vidas quando bem indicada, mas a decisão deve considerar a situação clínica de cada mulher, os benefícios e riscos envolvidos e as possibilidades do parto vaginal quando não existem contraindicações.

“A decisão deve ser compartilhada, com informação clara e avaliação individualizada. Isso fortalece a autonomia da paciente e contribui para uma assistência mais segura e humanizada”, destaca.

Para Ana Christina, reduzir a mortalidade materna exige ainda que o cuidado não fique restrito ao consultório. Pessoas próximas precisam reconhecer mudanças importantes e ajudar a mulher a procurar assistência quando necessário. “A rede de apoio deve conhecer os sinais de alerta, ajudar a mulher a buscar atendimento quando necessário e entender que o cuidado continua depois do parto”.

Num país que ainda precisa praticamente reduzir pela metade sua razão de mortalidade materna para alcançar a meta de 2030, o tempo entre perceber um sintoma e receber atendimento pode fazer diferença. O desafio não termina em levar a gestante ao pré-natal: passa por escutá-la, identificar riscos antes que avancem e manter a mulher sob cuidado mesmo depois que o bebê já nasceu.

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