quarta-feira, 30 de setembro de 2026
CULTURA

Documentários negros brasileiros: dez filmes para assistir no mês do Documentário Brasileiro

Seleção da APAN reúne produções lançadas entre 1988 e 2025 que investigam memória, identidade e resistência; lista inclui obra goiana sobre jovens quilombolas

Luana Avelarpor em
Documentário

Agosto, mês em que se celebra o Documentário Brasileiro, abre uma oportunidade para revisitar filmes que fizeram da câmera uma ferramenta de investigação do país. Uma seleção reunida pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) coloca lado a lado dez produções lançadas entre 1988 e 2025. São obras de épocas e linguagens diferentes, mas atravessadas por questões que permanecem no presente: quem preserva a memória, quem aparece nas imagens e quais histórias o cinema escolhe contar.

Abolição (1988)

Zózimo Bulbul retorna às consequências do fim formal da escravidão para perguntar o que, de fato, mudou. Depoimentos de intelectuais, artistas e ativistas conduzem uma reflexão sobre racismo estrutural e desigualdades que permaneceram depois de 1888.

Ôrí (1989)

Raquel Gerber acompanha a historiadora e militante Beatriz Nascimento e os movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988. Quilombos, identidade e ancestralidade aproximam Brasil e África em uma narrativa construída a partir de memória e resistência.

A Negação do Brasil (2000)

Joel Zito Araújo volta sua atenção para uma das principais fábricas de imaginário do país: a televisão. Ao analisar telenovelas exibidas entre 1963 e 1997, identifica estereótipos, exclusões e os lugares destinados à população negra nessas narrativas.

Cavalo (2000)

O corpo conduz o filme de Rafhael Barbosa e Werner Salles. Sete jovens dançarinos se aproximam de suas ancestralidades enquanto dança, espiritualidade e memória se cruzam em uma investigação sobre identidade.

Memórias Afro-Atlânticas (2020)

Gabriela Barreto parte das pesquisas do linguista Lorenzo Turner em terreiros de candomblé da Bahia para recuperar conexões culturais e históricas entre Brasil e África.

Escasso (2022)

Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles escolhem o humor para falar de desigualdade. O mockumentary acompanha Rose, passeadora de pets que realiza o sonho da casa própria, e encontra na história uma maneira de discutir moradia e ocupação dos espaços urbanos.

Ginga Reggae: na Jamaica Brasileira (2023)

No filme de Naýra Albuquerque, a história do reggae no Maranhão passa pela vida de Célia Sampaio. Música e dança aparecem como elementos de uma cultura regueira que também carrega experiências de resistência.

João de Una Tem um Boi (2024)

Pablo Monteiro segue para a zona rural de São Luís, no Maranhão, onde acompanha a tradição do Bumba Meu Boi. Fé, rituais e saberes transmitidos entre gerações orientam o olhar sobre a celebração do Boi Estrela.

Aqui Não Entra Luz (2025)

Karoline Maia começa dentro da própria família para chegar a uma questão maior. Suas memórias servem de ponto de partida para investigar marcas da escravidão e da segregação social ainda inscritas na arquitetura brasileira.

Vozes e Vãos (2025)

Goiás encerra a seleção com o trabalho de Edileuza Penha de Souza e Edymara Diniz. O filme acompanha jovens quilombolas que preservam saberes ancestrais enquanto reinventam tradições e fortalecem vínculos com a própria identidade cultural.

Quase quatro décadas separam o primeiro do último título da lista. Nesse intervalo, mudaram câmeras, linguagens e gerações de realizadores, mas o documentário continuou voltando a questões que o país ainda não esgotou. Assistir a essas dez obras em agosto é percorrer diferentes maneiras de registrar aquilo que a história oficial, a televisão ou mesmo o cotidiano nem sempre conseguiram enquadrar.

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