segunda-feira, 28 de setembro de 2026
CINEMA E SOCIEDADE

“Dividindo as Contas” estreia em Goiânia com debate sobre violência patrimonial dentro das relações

Documentário dirigido por Patrícia Alves chega ao Cine Cultura nesta quinta (20), às 20h, com histórias de mulheres que assumiram dívidas, perderam patrimônio e enfrentaram dependência econômica em relacionamentos

Luana Avelarpor em
Contas

Nem toda violência dentro de uma relação deixa marcas visíveis. Ela pode estar no empréstimo feito no nome da mulher para beneficiar o companheiro, no bem abandonado para evitar conflito ou no controle do dinheiro que restringe escolhas e autonomia. É por essas situações, muitas vezes absorvidas pela rotina do casal como ajuda, compromisso ou sacrifício, que passa “Dividindo as Contas”, longa-metragem dirigido por Patrícia Alves que estreia em Goiânia na quinta-feira (20), às 20h, no Cine Cultura.

Idealizada em 2021, a produção nasceu da observação de experiências de mulheres que assumiram dívidas, abriram mão de patrimônio, enfrentaram dependência econômica ou sustentaram a casa por meio de trabalhos informais enquanto acumulavam responsabilidades domésticas e de cuidado. Reunidas, essas histórias ajudam a revelar como o dinheiro também pode se tornar instrumento de controle dentro de uma relação.

Os números tornam essa discussão ainda mais significativa. Levantamento da pesquisadora Janaína Feijó, do FGV IBRE, mostra que, no fim de 2024, 51,7% dos lares brasileiros tinham uma mulher como referência financeira. São 41,3 milhões de mulheres. Mesmo responsáveis economicamente pela casa, elas recebiam, em média, menos do que homens na mesma posição. O estudo também aponta desigualdades relacionadas a raça, escolaridade e inserção no mercado de trabalho.

A conta doméstica tampouco termina no salário. Segundo o IBGE, em 2022 as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas.

Essa diferença está no centro da provocação feita por “Dividindo as Contas”. Limpar, cozinhar, cuidar, organizar a rotina e assumir responsabilidades familiares consomem tempo e sustentam uma casa, mas esse trabalho nem sempre é reconhecido quando se discute contribuição financeira, patrimônio ou divisão de responsabilidades.

Quando o dinheiro vira controle

É nesse cotidiano que determinadas práticas podem ultrapassar um desacordo financeiro e atingir a autonomia da mulher. Dívidas contraídas em seu nome, controle dos recursos e renúncia a bens não são consequências inevitáveis de uma vida a dois. O longa se detém justamente sobre situações em que esse limite deixa de ser claro para quem as vive.

Para aprofundar o tema, a pesquisadora e ativista Janira Sodré participa da produção com uma leitura histórica e social das relações de gênero. Renata Botelho, doutora em Psicologia, aborda relações abusivas e estelionato sentimental.

A narrativa também recorre à poesia. Sara e Ester Linhares assinam textos que atravessam os depoimentos e aproximam a memória e experiência das questões econômicas tratadas na obra.

Produzido pela Roch Produções, de Rochelle Silva, com apoio da Pequi Roxo Produções e da É Nóis Ki Tá Produções, o longa foi viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizados pelo Governo de Goiás por meio da Secretaria de Estado da Cultura.

“Dividindo as Contas” toca num ponto especialmente incômodo porque muitas dessas práticas podem permanecer anos sem receber o nome de violência. Quantas mulheres ainda chamam de ajuda, acordo ou sacrifício aquilo que já lhes custou dinheiro, patrimônio e poder de escolha? Ao levar essa pergunta ao cinema, Patrícia Alves abre uma conversa que interessa não apenas a quem já reconheceu essa experiência, mas também a quem ainda não aprendeu a identificá-la.

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