sexta-feira, 21 de agosto de 2026
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1% mais rico concentra 24,3% da renda do Brasil, aponta Oxfam

Brasil reduz pobreza, mas concentração de renda cresce no topo

Otavio Augustopor Otavio Augusto em
1% mais rico concentra 24,3% da renda do Brasil, aponta Oxfam
Foto: Divulgação

A concentração de renda no Brasil aumentou entre 2017 e 2023, segundo relatório divulgado pela Oxfam Brasil nesta quarta-feira (19). De acordo com o estudo, o 1% mais rico da população passou a concentrar 24,3% de toda a renda do país em 2023. Em 2017, essa parcela era de 20,4%.

Na prática, isso significa que, a cada R$ 100 de renda recebida no país, cerca de R$ 24 ficaram com o grupo mais rico. O levantamento aponta ainda que uma parcela significativa desse aumento se concentrou entre os 0,1% mais ricos.

O avanço da concentração ocorreu mesmo diante da melhora de alguns indicadores sociais. Em 2024, por exemplo, o rendimento mensal per capita dos brasileiros chegou a R$ 2.020, o maior valor da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No mesmo ano, o índice de Gini caiu para 0,506, também o menor nível registrado na série. O indicador varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de zero, menor é a desigualdade na distribuição da renda.

Brasil
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Além disso, cerca de 8,6 milhões de pessoas deixaram a condição de pobreza. A taxa caiu de 27,3% para 23,1% da população.

Renda aumentou, mas concentração também

Segundo a Oxfam, a melhora dos indicadores de renda e pobreza não ocorreu de maneira uniforme entre os diferentes grupos da população.

Enquanto a renda média avançou, a parcela mais rica ampliou sua participação na renda nacional. Dessa forma, o estudo aponta uma diferença entre o crescimento dos rendimentos e a maneira como esses recursos são distribuídos.

Quando a análise considera o patrimônio, a concentração aumenta. O relatório estima que o 1% mais rico detenha 37,3% de toda a riqueza declarada no país. O cálculo considera bens como imóveis, investimentos e outros ativos.

Para elaborar o levantamento, a Oxfam cruzou informações do IBGE, da Receita Federal, do Ministério da Fazenda e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A organização também utilizou pesquisas nacionais e internacionais sobre renda, patrimônio, tributação e representação política.

O relatório aponta ainda que o Brasil terminou 2025 entre os países com maior desigualdade patrimonial. Naquele ano, o país tinha cerca de 386 mil milionários em dólar, segundo dados citados pela organização.

O número representa pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão. Segundo levantamento do banco UBS, o Brasil ganhou 9.215 novos milionários em 2025 e manteve a maior quantidade de milionários da América Latina.

Tributação está entre os pontos analisados

A estrutura tributária brasileira também aparece entre os principais pontos abordados pelo relatório. A Oxfam considera que o sistema concentra uma parcela relevante da arrecadação sobre o consumo e os salários, enquanto aplica menor tributação sobre determinados tipos de patrimônio e renda do capital.

Segundo o estudo, a alíquota efetiva de Imposto de Renda chega a 4,6% entre os 0,01% mais ricos da população. A organização relaciona esse resultado à isenção sobre lucros e dividendos e à forma como rendimentos de capital e heranças são tributados.

Para a entidade, essa estrutura faz com que os impostos tenham pesos diferentes de acordo com a origem da renda e o nível de patrimônio.

O relatório também identifica diferenças entre homens e mulheres na composição dos rendimentos. As mulheres representam 44,1% dos declarantes do Imposto de Renda, mas concentram 38% da renda declarada e 29,5% do patrimônio líquido.

Em média, o patrimônio declarado pelas mulheres chega a R$ 246 mil. Entre os homens, o valor médio é de R$ 463,6 mil.

A composição da renda também apresenta diferenças. Entre as mulheres, 56,5% dos rendimentos são provenientes de fontes tributáveis, principalmente salários e outras remunerações do trabalho. Entre os homens, uma parcela maior da renda vem de rendimentos isentos ou tributados exclusivamente na fonte, como lucros, dividendos e aplicações financeiras.

Diferenças de renda aparecem no mercado de trabalho

O relatório também aponta diferenças de rendimento relacionadas a gênero e raça.

No mercado formal, homens não negros recebem, em média, R$ 6.560 por mês. Entre as mulheres negras, a média é de R$ 3.026.

Quando o cálculo considera todo o mercado de trabalho, incluindo trabalhadores informais, a renda média das mulheres negras cai para R$ 2.079.

A Oxfam relaciona essas diferenças à distribuição desigual de renda e patrimônio entre os grupos sociais. O levantamento também analisa a participação de diferentes segmentos da população na política brasileira.

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Nas eleições de 2022, as mulheres representavam 52,65% do eleitorado, mas ocuparam 17% das cadeiras conquistadas. Já os homens brancos ficaram com 56,5% dos cargos eletivos analisados pelo estudo.

O patrimônio declarado pelos candidatos também foi considerado. Segundo o relatório, quase 45% dos eleitos declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão.

Nas eleições para o Senado, nenhum candidato que declarou patrimônio de até R$ 100 mil foi eleito em 2022, de acordo com os dados analisados pela organização.

O que a Oxfam propõe para reduzir a concentração

A partir dos dados apresentados, a Oxfam defende mudanças na política tributária e em mecanismos relacionados à representação política.

Entre as propostas estão a tributação de lucros e dividendos, o aumento da tributação sobre grandes fortunas e heranças e a revisão de benefícios fiscais que, segundo a organização, não apresentam contrapartidas sociais.

A entidade também defende maior transparência sobre os efeitos da tributação por gênero e raça.

Outra frente envolve a regulamentação do lobby e a criação de regras de quarentena para reduzir possíveis conflitos de interesse entre agentes públicos e o setor privado. A organização também propõe maior transparência sobre a atuação de grupos interessados em decisões governamentais.

Além disso, o relatório recomenda ampliar o apoio financeiro a candidaturas de mulheres negras e outros grupos considerados sub-representados. A Oxfam também defende maior integração das emendas parlamentares ao planejamento nacional de políticas públicas.

As medidas apresentadas fazem parte das propostas da organização para enfrentar a concentração de renda e patrimônio identificada no levantamento.

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