OPINIÃO

Crise do agro e descrédito provocam secura de dinheiro nas campanhas

Cerco do Ministério Público e medo de cadeia também fazem com que financiadores fujam dos 775 candidatos, que por enquanto não mostram vitalidade financeira, talvez aguardando as duas últimas semanas para a abertura dos cofres e a inundação de dinheiro

Nilson Gomespor em
dinheiro
Em teoria, os vergonhosos fundões Eleitoral e Partidário compõem um saco sem fundo lotado de notas de R$ 200. Na prática, os políticos necessitam de muito além Foto: Marcello Casal Jr./ABr

Experiente em campanhas eleitorais, o dono de uma prestadora de serviços de impressão, tanto em papel quanto em plástico e outros materiais, relatou ao repórter de O HOJE que nunca imaginou haver algo superior ao medo de fazer o serviço e não receber: “Estou apavorado com medo de não faturar o suficiente para pagar os empréstimos feitos para comprar isso tudo aí na China”. Realmente, seu galpão está atulhado de matéria-prima. Adquiriu máquinas modernas, treinou pessoal em São Paulo e esperou a hora do show, mas em vez de Shakira apareceu a dupla Rhael e Romário. Por seus cálculos, recebeu encomendas de 1/3 do aguardado. Está no início da campanha, porém, sua expectativa murchou: “A seca que quebrou as lavouras é a de chuva e a nossa aqui na cidade é de pedidos”.

Os partidos que mais têm dinheiro, também são os mais comprometidos financeiramente. Em teoria, os vergonhosos fundões Eleitoral e Partidário compõem um saco sem fundo lotado de notas de R$ 200. Na prática, os políticos necessitam de muito além. As siglas estão abarrotadas de verbas públicas. E aumentando. Em 2022, o PL do candidato a governador Wilder Morais teve R$ 288,5 milhões para torrar na campanha; agora, são R$ 881,6 milhões; o PT do governadoriável Luis Cesar Bueno gastou R$ 503,3 milhões na eleição passada e, nesta, tem R$ 615,3 milhões; o União Brasil da senatoriável Gracinha Caiado caiu de R$ 782,5 para R$ 526,2; o PSD do presidenciável Ronaldo Caiado aumentou de R$ 350 milhões para R$ 421 milhões; o MDB do governador Daniel Vilela também subiu, de R$ 363,2 milhões para R$ 400 milhões.

Sim, as fortunas são nababescas. Achou muito?

Sim, as fortunas são nababescas. Achou muito? Multiplique por 200 e chegará próximo do total a ser queimado em troca de voto. O que se descreve acima são valores reservados para o Brasil inteiro, apenas em partidos grandes com pretendentes a cargos majoritários em Goiás. Existe um detalhe vital que torna esses recursos, mesmo representando uma fração mínima do custo total das campanhas, mais desejados que a fonte da juventude ou se casar com a princesa herdeira do trono espanhol: aí é tudo caixa 1. Quando alguém lhe der um papel com propaganda de candidato, tente identificar aquelas letrinhas miudinhas e os números quase embaralhados que estão nalgum rodapé ou na vertical do folheto. Você acabou de ver o que a Justiça e o Ministério Público eleitorais vão rastrear. Aquela peça será paga com caixa 1.

O grosso do dinheiro, no entanto, não é gasto com vídeos, adesivos, sitrus (aqueles enormes perfurados que os cabos eleitorais colam no vidro traseiro de veículos de apoiadores). A maior quantidade de cédulas vai para o material não declarado, o apoio de adesistas, a locação de carros e outras formas de ir atrás de ajuda sem ficar ao alcance das autoridades.

Os candidatos a governador podem gastar R$ 11,5 milhões no 1º turno

No mês passado, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou a portaria 449 com os limites de gastos para as campanhas deste ano. No caso de Goiás, os candidatos a governador podem gastar R$ 11,5 milhões no 1º turno e, caso de 2º turno, outros R$ 5,8 milhões; a senador, R$ 4,4 milhões; a deputado federal, R$ 3,1 milhões; a estadual: R$ 1,2 milhão. Contudo, os 775 concorrentes devem olhar para esses valores e rir. Ou seja, o TSE tem a dificílima tarefa de vigiar as puladas de cerca, pois com R$ 1,2 milhão não se elege nem vereador em Trindade ou Senador Canedo. A disparidade mais gritante é a dos pretendentes a uma das 17 vagas na Câmara dos Deputados, com defasagem de 90%.

Para 2026, a grande novidade é que não há onde conseguir o caixa 1 e, muito menos, o 2. Os motivos variam, vão desde o medo de ser preso com pacotes de notas até o temor de ganhar e não levar por prestação de contas porcas. Tem ainda a estratégia de guardar a chave dos cofres para as duas últimas semanas de setembro, até o 1º domingo de outubro. É quando as comportas devem ser abertas. Porém, o nosso gráfico lá do início do texto considera caso perdido: “Nem para fazer coisa errada eu tenho sido procurado”.

Caiado, Marconi e Wilder não gastam sequer 1 centavo do próprio bolso

A vitalidade financeira dos grandes empresários é para seus investimentos, que em caso de política não aparece nem quando eles próprios são candidatos. Ronaldo Caiado, Marconi Perillo e Wilder Morais não gastam sequer 1 centavo do próprio bolso. Wilder ainda movimenta sua frota aérea, ainda assim com parcimônia. Dos senatoriáveis, os três ricos são Gracinha Caiado e Vanderlan Cardoso, com seus suplentes. Melhor não esperar grandes gastos. Os doadores de campanha também estão ligeiros, fogem de pedintes engravatados. Os produtores rurais, sempre tão generosos, dispõem de argumento duplo para afastar quem vai até suas propriedades em busca de algum dinheiro: a crise no campo está provocando quebradeira generalizada, recuperações judiciais e alongamento de dívidas. E os governos têm feito quase nada para minorar essa secura.

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