Goiás tem quase 44 mil crianças diagnosticadas com obesidade
Dados do Sisvan mostram que 43,9 mil crianças de até dez anos acompanhadas pela rede pública tinham obesidade em 2025
Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) de 2025 apontam que 43.900 crianças de zero a dez anos acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde (APS) em Goiás foram diagnosticadas com obesidade. O número corresponde a 9,34% das 469.899 crianças avaliadas pela rede pública de saúde no Estado. O excesso de peso na infância está associado a alterações metabólicas e ao desenvolvimento de hipertensão, dislipidemia, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, fatores relacionados ao risco de doenças cardiovasculares.
Segundo a cardiopediatra Mirna de Sousa, o acompanhamento do crescimento permite identificar alterações em estágios iniciais. “Mais do que observar o peso isoladamente, é importante acompanhar a evolução do crescimento da criança e identificar precocemente qualquer mudança fora do esperado”, explica. A avaliação pediátrica também permite investigar condições que podem permanecer assintomáticas, como hipertensão arterial e colesterol elevado.
O cenário da infância ocorre em meio ao aumento da prevalência de excesso de peso e obesidade entre adultos em Goiás. Os primeiros resultados do levantamento Vigitel 2025 apontam que 63,3% dos homens e 62,6% das mulheres estão acima do peso. Em 2022, o percentual de adultos nessa condição era de 57,3%. A obesidade também aumentou no período, passando de 22,8% para mais de 25%.
Entre as mulheres, a obesidade alcança 27,3%, enquanto entre os homens o índice é de 24%. Na distribuição por faixa etária, o maior percentual é registrado entre pessoas de 45 a 54 anos, com 30% de obesidade e 69,8% de excesso de peso. Entre jovens de 18 a 24 anos, 41,9% apresentam excesso de peso, menor percentual entre os grupos etários analisados. Em Goiânia, os índices consolidados são de 55% para excesso de peso e 17,7% para obesidade.
A relação entre o excesso de peso na infância e o desenvolvimento de doenças crônicas também envolve a velocidade de progressão das complicações. Crianças e adolescentes com obesidade podem desenvolver alterações relacionadas ao diabetes tipo 2 em um período menor que o observado em adultos. Segundo dados apresentados por especialistas, complicações graves que podem surgir após dez anos em adultos podem aparecer em menos de cinco anos entre jovens.
A endocrinologista Daniela Takamune explica que o aumento da obesidade contribuiu para a ocorrência de diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes, condição anteriormente considerada rara nessa faixa etária. “A obesidade aumenta a resistência à insulina. O organismo compensa produzindo mais hormônio, até que o pâncreas não consegue mais dar conta. É nesse momento que a glicose sobe e o diabetes se instala”, detalha. Na adolescência, a resistência à insulina também pode ser influenciada pelas alterações hormonais da puberdade. Sem controle, o diabetes tipo 2 pode provocar cegueira, insuficiência renal e perda de sensibilidade nos membros.
As projeções para os próximos anos também apontam para o aumento da prevalência de excesso de peso entre crianças e adolescentes. O Atlas Mundial da Obesidade de 2026 estima que cerca de 38% dos brasileiros de 5 a 19 anos vivem atualmente com sobrepeso ou obesidade, o equivalente a aproximadamente 17 milhões de jovens, dos quais 7 milhões têm obesidade. O documento projeta que o percentual de crianças e adolescentes brasileiros com excesso de peso poderá chegar a 50% até 2040.

Como se dá uso de canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes
Nesse contexto, medicamentos conhecidos como “canetas” passaram a integrar o debate sobre o tratamento da obesidade e de doenças metabólicas na população pediátrica. Em 22 de abril de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso da tirzepatida, comercializada como Mounjaro, para crianças e adolescentes de 10 a 17 anos no Brasil. A autorização, porém, é destinada exclusivamente ao tratamento de diabetes tipo 2 inadequadamente controlado e não inclui indicação para obesidade ou emagrecimento nessa faixa etária.
A aprovação tornou a tirzepatida o primeiro medicamento da classe dos agonistas duplos dos receptores GIP/GLP-1 autorizado para uso pediátrico no País. A decisão foi baseada no estudo SURPASS-PEDS, que avaliou 99 crianças e adolescentes de 10 a 17 anos com diabetes tipo 2 inadequadamente controlada. O medicamento proporcionou redução média de 2,2% na hemoglobina glicada em 30 semanas. No desfecho relacionado ao peso, a dose de 10 mg reduziu o índice de massa corporal (IMC) em 11,2%.
Para o tratamento da obesidade em menores de idade, os medicamentos aprovados no País são a liraglutida, comercializada como Saxenda, e a semaglutida, comercializada como Wegovy. O uso da tirzepatida com finalidade de controle de peso ou emagrecimento em crianças e adolescentes, portanto, ocorre fora da indicação aprovada em bula, caracterizando uso off-label.
O uso de medicamentos para emagrecimento sem indicação específica também é relacionado por especialistas à pressão estética nas redes sociais. A psiquiatra Anne Brito alerta para possíveis impactos do uso indiscriminado em corpos em desenvolvimento. “O uso indiscriminado em corpos imaturos pode afetar questões biológicas importantes, emocionais e metabólicas, com efeitos de longo prazo ainda desconhecidos”, afirma.
A médica também aponta riscos associados à redução do apetite sem indicação clínica. O uso inadequado pode contribuir para o desenvolvimento de distúrbios alimentares, como anorexia e bulimia. Flávia Coimbra, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), destaca que ainda existem lacunas sobre os efeitos de longo prazo desses medicamentos no crescimento e no desenvolvimento pediátrico.
Preocupa autoridades
A procura por esses medicamentos também preocupa autoridades sanitárias devido ao comércio irregular e à circulação de produtos falsificados. A Anvisa firmou parcerias com conselhos de medicina e farmácia para incentivar o uso racional das chamadas canetas e combater falsificações. “O uso de medicamentos sem garantia de segurança, fabricação ou armazenamento adequados expõe crianças e adolescentes a riscos graves”, afirma Takamune.
Além do tratamento medicamentoso, especialistas apontam fatores relacionados ao ambiente alimentar e às condições socioeconômicas como elementos presentes no cenário da obesidade infantil. A alimentação inadequada também pode resultar na chamada dupla carga da má nutrição, caracterizada pela coexistência de excesso de peso e deficiência de nutrientes.
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