MERCADO NA EXPECTATIVA

Setores produtivos goianos esperam avanço nas negociações comerciais entre Brasil e EUA

Possível acordo entre os países pode beneficiar exportadores goianos e reduzir incertezas para setores como agronegócio e indústria

Renata Ferrazpor em
Setores produtivos goianos esperam avanço nas negociações comerciais entre Brasil e EUA
Divulgação

A retomada do diálogo comercial entre Brasil e Estados Unidos abre uma nova perspectiva para setores da economia goiana afetados pelo aumento das tarifas norte-americanas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou nesta sexta-feira (21) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma tentativa de reabrir as negociações e reduzir as tensões comerciais entre os dois países. 

Para representantes do setor produtivo e especialistas, embora ainda não exista garantia de um acordo, a possibilidade de negociação já contribui para diminuir a incerteza enfrentada por empresas e exportadores.

A conversa entre os presidentes durou cerca de 1h20 e foi classificada pelo Palácio do Planalto como cordial. Lula defendeu a retomada das negociações comerciais bilaterais e afirmou que as tarifas impostas pelos Estados Unidos prejudicam tanto o Brasil quanto os próprios norte-americanos. Trump concordou sobre a importância de preservar os vínculos comerciais entre os países e propôs que as equipes diplomáticas voltem a se reunir para avançar nas tratativas.

Para o economista Leonardo Ferraz, a abertura do diálogo representa um sinal positivo principalmente porque reduz parte da insegurança provocada pelas tarifas. O especialista explica que mesmo sem a garantia de um acordo, a negociação melhora as expectativas do setor produtivo. “Para as empresas, a previsibilidade é fundamental para decidir investimentos, produção e contratos”, afirma.

De acordo com o economista, uma eventual redução ou retirada das tarifas poderia recuperar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano, preservando exportações, investimentos e empregos nos setores mais expostos. Além disso, o acordo diminuiria a necessidade de empresas buscarem novos mercados de maneira emergencial.

Agro goiano acompanha negociações

Em Goiás, um dos setores que acompanha de perto as negociações é o agronegócio. Segundo levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações do agronegócio goiano. O mercado movimenta aproximadamente US$ 641 milhões, com crescimento de cerca de 130% nos últimos cinco anos.

Apesar do cenário de tensão comercial, a Faeg avalia que a nova tarifa não deverá provocar impactos significativos sobre o desempenho do agronegócio goiano no segundo semestre, embora represente um obstáculo às exportações. Durante o tarifaço de 2025, as vendas de Goiás para os Estados Unidos tiveram redução média de 3% e voltaram a crescer depois da suspensão das medidas, em fevereiro de 2026. A expectativa é de que os embarques permaneçam entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões por mês.

Entre os produtos que ficaram fora da nova taxação estão carne bovina, café, laranja, cacau, açúcar, arroz, uva e ovos. Por outro lado, foram incluídos itens como açúcar orgânico, máquinas agrícolas, papel, produtos têxteis e calçados. Em Goiás, a principal preocupação está relacionada à cadeia do açúcar orgânico.

O Estado lidera a produção nacional do produto e concentra três das quatro usinas brasileiras especializadas nesse segmento, com forte presença em Goianésia. Como os Estados Unidos produzem apenas cerca de 7% do açúcar orgânico que consomem, a demanda pode ser direcionada a concorrentes como Paraguai, Argentina e Colômbia caso as tarifas sejam mantidas. A indústria de máquinas agrícolas instalada em Catalão também pode perder competitividade.

A Faeg defende cautela diante de uma eventual aplicação da Lei da Reciprocidade. Para a entidade, embora o mecanismo possa fortalecer a posição brasileira nas negociações, uma escalada de retaliações pode aumentar as incertezas e prejudicar o comércio exterior. A prioridade, de acordo com a federação, deve continuar sendo o diálogo diplomático e a negociação técnica.

Comércio também espera avanço

No setor de comércio e serviços, a avaliação também é de que um acordo poderia trazer efeitos positivos. Para o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Goiás (Fecomércio-GO), Marcelo Baiocchi Carneiro, uma redução das tarifas ajudaria Goiás a ampliar a exportação de commodities e evitaria perdas provocadas pela continuidade da guerra comercial.

“A possibilidade de negociação entre o Brasil e os Estados Unidos é muito positiva”, avalia. Segundo Baiocchi, a manutenção das tensões comerciais tende a ser negativa porque reduz a circulação de dinheiro, afetando a geração de riqueza, emprego e renda.

O presidente da entidade também afirma que um eventual acordo poderia contribuir para preservar a competitividade das empresas exportadoras e evitar novos custos. Para o presidente da Fecomércio-GO, caso o governo norte-americano avance na direção de uma negociação, a economia poderá encontrar um equilíbrio maior.

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