terça-feira, 25 de agosto de 2026
Direita x esquerda

Antes da Presidência da República, PT e PL brigam pelo poder no Congresso

Partidos querem ampliar bancadas na Câmara e no Senado para controlar recursos, ganhar espaço nas negociações e impor limites ou dar sustentação ao próximo presidente

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em
Câmara dos Deputados
Tamanho da bancada definirá o peso de cada partido dentro do Congresso. Foto Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Bruno Goulart

A eleição de 2026 terá uma disputa que vai muito além de Lula contra a direita. Enquanto os holofotes estarão voltados para a corrida ao Palácio do Planalto, PT e PL já olham para outra batalha: quem terá força para mandar, negociar e pressionar dentro do Congresso a partir de 2027? O PT mira eleger cerca de 90 deputados federais e 14 senadores. O PL, que hoje tem a maior bancada da Câmara e do Senado, trabalha com uma meta ainda mais agressiva: entre 100 e 115 deputados e de 20 a 25 senadores.

Em outras palavras, a eleição presidencial pode até definir quem ocupará o Palácio do Planalto. Mas a composição do Congresso poderá estabelecer quanto esse presidente conseguirá governar. Hoje, o PT tem 66 deputados federais e nove senadores, sem contar os parlamentares do PV e do PCdoB, que integram a federação com a legenda. O PL tem 98 deputados e 15 senadores. A corrida, portanto, parte de uma vantagem da direita, que tenta ampliá-la.

E por que os partidos estão tão interessados em eleger deputados?

A resposta é menos ideológica do que pode parecer. Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, existe um componente bastante pragmático nessa disputa: dinheiro e poder. “Por que todo mundo quer fazer bancada? Por causa do tempo de TV e do acesso ao Fundo Eleitoral. Quanto maior a bancada, mais poder o partido ganha em Brasília”, afirma.

Mas Zancopé vai além. Na avaliação do especialista, por trás dos discursos sobre ideologia e projetos para o País existe uma preocupação muito concreta: garantir uma fatia maior dos recursos públicos destinados às eleições. “Vamos ser pragmáticos e falar a verdade. No topo das prioridades de qualquer dirigente partidário está o Fundo Eleitoral”, dispara.

Quanto maior a bancada, maior o poder

O tamanho da bancada não serve apenas para contar cadeiras, define o peso de cada partido dentro do Congresso. Mais deputados significa mais espaço em comissões, mais influência sobre a pauta de votações e maior capacidade de negociação com o governo. É justamente esse poder de barganha que está no centro da disputa. “Quanto maior a bancada, maior o montante do Fundo Eleitoral, maior o tempo de rádio e TV, e maior o peso do partido na mesa de negociação com o Executivo, seja ele quem for”, afirma o estrategista político Marcos Marinho ao O HOJE.

Se a esquerda ampliar sua bancada, um eventual governo Lula poderá encontrar mais facilidade para aprovar sua agenda. Se o PL e outros partidos de direita crescerem ainda mais, o próximo governo poderá enfrentar uma Câmara mais resistente às suas propostas.

Uma eleição dentro da eleição

Para a esquerda, a questão é ainda mais delicada. Um eventual novo governo Lula teria de lidar com uma Câmara que já testou os limites de sua governabilidade nos últimos anos. Zancopé avalia que uma bancada maior seria importante para dar sustentação política a Lula e, ao mesmo tempo, preparar o futuro do campo político. “Para os partidos de esquerda, fazer uma bancada grande é uma maneira de tentar melhorar a governabilidade do Lula”, afirma.

O desafio, nesse caso, não seria apenas governar. Seria também preparar a sucessão de Lula. PT e partidos aliados teriam de manter a continuidade do projeto político e, ao mesmo tempo, construir uma nova liderança para ocupar esse espaço no futuro. Na direita, a lógica é diferente. Uma bancada numerosa pode servir para pressionar o Executivo por uma agenda de redução de gastos e impedir medidas que aumentem despesas ou impostos. Ou seja: a Câmara pode funcionar como motor ou freio do próximo governo.

O impacto dessa disputa aparece quando se olha para projetos concretos. Zancopé cita como exemplo o fim da escala 6×1. Uma Câmara com maioria conservadora, segundo o especialista, teria menos disposição para aprovar a proposta. Já uma composição mais progressista poderia favorecer a medida. “Uma Câmara dos Deputados com maioria conservadora aprovaria o fim da escala 6×1? Muito provavelmente não. Todavia, um Congresso mais progressista aprovaria o fim da escala 6×1? Muito provavelmente sim.” (Especial para O HOJE)

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