Festival de Palhaçaria Preta chega à 3ª edição em Goiânia com artistas de quatro estados e entrada gratuita
Kizomba acontece de 4 a 7 de setembro no Orum Aiyê Quilombo Cultural com espetáculos, oficinas, acrobacias e exposição de artes visuais; edição homenageia Mestre Jamelão
No Kizomba, o palhaço não entra em cena apenas para provocar o riso. Ele também carrega memória, identidade e uma pergunta sobre quem historicamente pôde ocupar o picadeiro como protagonista. É a partir dessa perspectiva que o Festival de Palhaçaria Preta chega à terceira edição, de 4 a 7 de setembro, no Orum Aiyê Quilombo Cultural, em Goiânia.
Com entrada gratuita, o encontro reúne artistas de Goiás, São Paulo e Minas Gerais, além do venezuelano Antonio Mendoza. A programação atravessa diferentes linguagens circenses e inclui espetáculos, números de acrobacia, malabarismo, oficinas, shows, rodas de conversa e uma exposição de artes visuais.
Quatro montagens formam o núcleo da programação: “Sob(re) a pele”, com Matheus Alcantara, de Goiás; “Quizumba”, com Loi Lima, de São Paulo; “Oras Bolas !!!”, com Antonio Mendoza; e “Chica da Silva YALODÊ”, com Eliziane Monteiro, de Minas Gerais. A curadoria dos espetáculos e números é de Marcelo Marques e Saracura do Brejo.
A noite de Variété amplia esse repertório com apresentações de Cauê Marques, em número de faixa; Luciene Machado, com lira e tecido; Marcelo Venâncio, com malabares e monociclo; e Maré Oliveira, no tecido. Saracura do Brejo e o palhaço Mocotó conduzem a cerimônia.
Mais do que reunir artistas negros no mesmo palco, o festival procura discutir a maneira como esses artistas constroem e controlam suas próprias imagens. A ideia atravessa também a exposição “Kizomba, o Riso se faz Quilombo”, com curadoria de Raquel Rocha, que apresenta trabalhos de Bulacha, de Goiás, e Heluander Patrocínio, de Minas Gerais.
“A palhaçaria preta surge aqui como uma ferramenta de subversão do status quo, uma forma de rir das estruturas opressoras e forjar novas realidades. O evento é fundamental para a formação de subjetividades autônomas. Ao verem artistas pretos exercendo o domínio de suas artes e ocupando lugares de poder criativo, crianças, jovens, adultos e idosos negros encontram espelhos que não refletem a alienação do racismo, mas sim a potência e a majestade de sua própria ancestralidade”, afirma Marcelo Marques, produtor e idealizador do festival.
Uma homenagem a quem abriu caminho
Nesta edição, o Kizomba presta homenagem a Mestre Jamelão, morto em 2025. Conhecido como “Diamante Negro”, ele atuou como pirofagista, palhaço, faquir e acrobata e teve participação importante na Escola Nacional de Circo, onde contribuiu para a formação de gerações de artistas.
A escolha da homenagem aproxima passado e presente de um festival criado em 2023 para ampliar a circulação da produção circense negra em Goiás. “Ao dar continuidade a esse percurso, o projeto rejeita definitivamente lógicas que tentam colocar o artista preto à margem, reivindicando seu lugar como sujeito criador estrutural da cultura nacional. A programação é uma afirmação incontestável: não existe arte brasileira sem a pujança e o protagonismo absoluto da cultura afro-diaspórica”, comenta Marques.
A programação não se limita às apresentações. O público poderá participar de oficinas de palhaçaria, acrobacias aéreas, malabares e arte reciclável, além de rodas de conversa e shows musicais. Os espetáculos contarão com tradução simultânea em Libras e serão realizados em espaços com estrutura de acessibilidade.
Também haverá ações de descarte correto de resíduos em parceria com cooperativas de reciclagem. A oficina de arte reciclável levará materiais descartados para dentro do processo criativo, associando a programação artística a práticas de reaproveitamento.
Entre o riso, a técnica circense e a memória de artistas que abriram caminhos, o Kizomba chega à terceira edição tratando o picadeiro não apenas como lugar de apresentação, mas como espaço em que autoria e representação também estão em jogo. As atividades acontecem no Orum Aiyê Quilombo Cultural, no Residencial Nossa Morada, com entrada gratuita e classificação livre.
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