Quando o meme vira projeto de poder
A política que começa como entretenimento pode, rapidamente, se transformar em identidade, movimento e voto
A ascensão de jovens em torno de Renan Santos merece atenção não necessariamente pelo tamanho eleitoral imediato desse apoio, mas pelo fenômeno político que ele pode revelar: a formação de uma nova geração atraída por figuras que combinam provocação, linguagem de internet, humor, confronto e discurso antissistema. Esse tipo de liderança não precisa começar com um programa político sofisticado. Muitas vezes, começa com uma persona. O público se identifica com o personagem, compartilha as piadas, participa das provocações e, aos poucos, passa a associar aquela figura a uma ideia de ruptura com “tudo o que está aí”. Foi nesse ambiente de comunicação política informal e altamente emocional que Jair Bolsonaro também conseguiu ampliar sua presença, inicialmente muito além do eleitorado tradicional da direita, até transformar sua imagem em uma identidade política capaz de mobilizar diferentes faixas etárias.
O perigo está justamente na naturalização desse processo. Quando uma figura pública é consumida inicialmente como entretenimento, a avaliação sobre suas ideias, sua capacidade de governar e as consequências concretas de suas propostas pode ficar em segundo plano. O personagem engraçado, irreverente ou agressivo ocupa o espaço que deveria ser destinado ao político. A experiência brasileira mostrou como isso pode evoluir: uma figura que durante muito tempo foi tratada por parte da sociedade como caricatura acabou chegando à Presidência da República e construindo uma base política extremamente mobilizada. O fenômeno não ficou restrito aos jovens; a identidade política construída nas redes atravessou gerações e passou a organizar comportamentos eleitorais, relações familiares e disputas culturais.
Por isso, o crescimento de Renan Santos entre jovens deve ser observado menos pela quantidade de memes ou pela repercussão de uma fala específica e mais pela possibilidade de construção de uma identidade política de longo prazo. Jovens que hoje chegam à política por meio de vídeos, cortes, memes e provocações podem amanhã se tornar eleitores, militantes, influenciadores e até candidatos. Se essa relação for construída exclusivamente pela lógica do “nós contra eles”, pela ideia de que existe um grupo responsável por todos os problemas do país e pela promessa de que determinado líder será capaz de romper sozinho com o sistema, cria-se terreno fértil para a política dos salvadores. E esse talvez seja o aspecto mais preocupante: não é apenas sobre quem esses jovens apoiam hoje, mas sobre como estão aprendendo a escolher quem deve representá-los.
Ao mesmo tempo, seria um erro tratar esses jovens como pessoas sem capacidade crítica. Isso, além de equivocado, é contraproducente. O fenômeno precisa ser compreendido. A juventude está sendo disputada politicamente em um ambiente no qual entretenimento, informação, opinião e propaganda praticamente desapareceram como categorias separadas. Uma pessoa pode conhecer um político primeiro por uma piada, depois por um vídeo de ataque a um adversário e somente muito mais tarde entrar em contato com suas propostas. Quando isso acontece milhões de vezes, a construção da imagem antecede a construção do conhecimento político. O desafio, portanto, não é simplesmente dizer aos jovens em quem não votar, mas estimular uma cultura política em que carisma não substitua competência, viralização não substitua proposta e provocação não substitua projeto de país.
É aí que aparece uma espécie de miopia política: escolher um candidato sem compreender quem será beneficiado pelas decisões desse político. Não se trata de afirmar que todo eleitor que pensa diferente é ignorante, mas de questionar escolhas feitas pela identificação com uma persona, sem uma análise mais profunda das consequências. Apoiar um projeto porque o candidato é engraçado, provoca adversários, viraliza na internet ou se apresenta como alguém que “fala o que pensa” é muito diferente de avaliar suas propostas, seus interesses e os grupos que serão favorecidos quando ele tiver poder. A política deixa de ser analisada pelas consequências concretas e passa a ser consumida como entretenimento.
Essa reflexão se torna ainda mais importante quando se observa a distância entre determinados discursos políticos e os interesses materiais da maioria da população. O Brasil é formado majoritariamente por trabalhadores e pessoas que dependem de emprego, educação, saúde, segurança e serviços públicos de qualidade. Quando jovens de origem popular abraçam projetos que defendem interesses de grupos extremamente ricos, é legítimo perguntar se eles compreenderam a dimensão da própria escolha. Afinal, quem será beneficiado? Quem terá mais oportunidades? Quem ficará mais vulnerável? E, sobretudo, por que alguém que jamais enfrentará os mesmos problemas que você deveria ser apresentado como seu salvador?
A experiência do bolsonarismo deveria servir como alerta, não porque todo jovem que apoia Renan Santos necessariamente caminhará para o mesmo lugar, nem porque os fenômenos sejam idênticos, mas porque existe uma dinâmica que merece ser reconhecida: a política pode começar como espetáculo e terminar como poder institucional. Quando a sociedade percebe a dimensão do fenômeno, muitas vezes a persona já deixou de ser apenas uma persona. O conteúdo virou identidade, a identidade virou movimento e o movimento pode se transformar em voto.
Por isso, o debate sobre os jovens que hoje se aproximam de Renan Santos precisa ser tratado com seriedade, e não com deboche. É preciso disputar ideias, apresentar informação e fazer perguntas. Que projeto econômico está sendo defendido? Quem será beneficiado? Que direitos estão em jogo? Qual é a relação desse discurso com as instituições democráticas? O candidato está oferecendo uma política pública ou apenas um inimigo para ser odiado? Essas perguntas são muito mais importantes do que descobrir quem fez o meme mais engraçado.
No fim, talvez a discussão mais importante não seja sobre Renan Santos individualmente, mas sobre o tipo de cidadão que estamos formando. Uma democracia precisa de jovens capazes de admirar alguém e, ainda assim, questioná-lo; de concordar com uma ideia e rejeitar outra; de reconhecer erros no próprio campo político. Porque votar em alguém apenas porque ele parece corajoso, engraçado ou “contra tudo isso que está aí” pode ser divertido nas redes sociais. Mas o país não é um meme, a vida das pessoas não é uma piada e o governo não administra um feed de Instagram. O que começa como brincadeira pode terminar como poder e foi exatamente por isso que o Brasil deveria prestar atenção antes de achar que é apenas mais uma piada da internet.
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